Crítica | Até o Último Homem

Por melhor que um drama de guerra seja, ela nunca será bonita de se ver. E quanto maior for a produção cinematográfica, em todos os seus detalhes, é mais explícito nos sentirmos desconfortáveis. Em Até o Último Homem (Hacksaw Ridge) experimentamos todas essas sensações, com o acréscimo de uma interessante história sobre conflito de valores e heroísmo.

O filme adapta a história real de Desmond Doss (Andrew Garfield), primeiro opositor consciente dos Estados Unidos a receber uma medalha de honra, por salvar 75 homens na Batalha de Okinawa em 1945. Cristão devotado, ele se alista voluntariamente no exército com o intuito de servir como médico. Sua recusa em não querer utilizar armas e disparar tiros, além de não querer trabalhar aos sábados por convicções religiosas, faz com que sua história ganhe contornos inimagináveis.

Em seu primeiro ato o filme explora bastante o lado pessoal de Desmond. O ritmo não é apressado e há um desenvolvimento de uma relação amorosa com a lindíssima Dorothy (Teresa Palmer). Também é possível conhecer um pouco do passado, que nos leva a figura paterna de Tom Doss, interpretado de forma muito consistente por Hugo Weaving. Não há muito tempo de tela para ele, no entanto o pai é responsável através de algumas ações, pela influência do que ocorre nos atos seguintes. É possível desenvolver uma espécie de ojeriza pelo personagem, mas ao mesmo tempo, compreender suas motivações.

Como protagonista Andrew Garfield vai dando vida gradualmente a um personagem que tenta manter-se fiel a sua crença e princípios. Na romantização do início de sua jornada há uma boa interpretação, mas o que convence mesmo é o drama no campo de batalha, onde o ator dá tudo de si. Muito de sua interpretação, durante o segundo e terceiro ato acontecem na base do olhar, expressões e movimentos em meio a batalha.

Firme na direção, Mel Gibson conduz bem a transição entre a apresentação do personagem e o treinamento, explorando a discriminação que Desmond sofre por causa de seus princípios, chegando até o momento da batalha contra os japoneses no alto de uma colina. Ai ele está em casa, pois explora a violência como ninguém. As cenas de batalha são extremamente viscerais, com um ultrarrealismo captado através de closes que mostram a aflição dos soldados.

Quem surpreende de forma positiva é Vince Vaughn, dando vida ao sargento Howell. O ator oriundo de comédias não havia convencido em sua incursão dramática recente na série True Detective. Aqui ele consegue acertar o tom, meio sarcástico e durão, conferindo certa dose de alívio cômico sem ser forçado. Da mesma forma, todos os integrantes da companhia recebem tratamento discreto, mas eficiente. Destaque para Sam Worthington, como o capitão Glover, personagem que cresce bastante na parte final do filme.

Durante a batalha, a fotografia assume uma característica monocromática, com uma névoa que ajuda a dar um clima sombrio as sequências que são alucinadas. Corpos mutilados e empilhados emergem na tela e você pode perder a conta. Não há muitos planos abertos e isso confere um certo tom claustrofóbico. Acompanhar a jornada de Doss é uma experiência que coloca o espectador dentro de filme, da forma mais imersiva possível.

O grande problema em Até o Último Homem é que o roteiro de Robert Schenkkan e Andrew Knight, para ir de um determinado ponto ao outro, apresenta uma solução apressada e pouco crível. Por se tratar de uma história baseada em fatos reais, fica um pouco insolúvel tal situação, que vai exigir uma dose de suspensão de descrença do expectador. No ato final há um desequilíbrio em algumas situações, com uma delas beirando o absurdo, claramente em uma necessidade de enfatizar o heroísmo do protagonista. Felizmente, não compromete o resultado final pois a narrativa é construída de forma bem coesa e o filme dá o tom esperado, com contornos dramáticos em meio ao conflito. Até mesmo as questões religiosa e amorosa de Doss não soaram piegas demais.

Já o tema central a ser discutido é a moralidade e como permanecer íntegro durante um conflito. A contradição da guerra e a visão demonizada dos americanos para com os japoneses também é algo curioso de se notar. Só há um lado bom na guerra: aquele em que você está. É ai que Desmond surge como figura central, trazendo essa dualidade para a tela. O contraditório ato não é condenado nem enaltecido, com foco nas vidas que foram salvas. A propósito, no final do filme temos cenas do Desmond real e alguns depoimentos. Um clichê básico, como se os cineastas estivessem dizendo “olha isso aqui aconteceu de verdade, viu”.

Em Até o Útimo Homem, o que se vê é uma jornada de muita bravura, contada com a personalidade de uma direção segura e um bom trabalho de elenco e protagonista. Agrada tanto os fãs do gênero de guerra e aqueles que gostam do dilema religioso e moral. Indicado a seis Oscars, incluindo melhor ator, direção e filme, garante o retorno de Mel Gibson a um bom filme e dá a Andrew Garfield um papel que é o melhor de sua carreira até então.

Avaliação: 


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...