Crítica | Manchester à Beira-Mar

Enfrentar a dor de uma perda e lidar com a vida que segue. Muito do que se apresenta em Manchester à Beira-Mar parte dessa premissa, além de lidar com conflitos familiares e internos. O peso de um acontecimento inesperado toma forma de maneira avassaladora neste drama denso e cheio de sentimentos contidos.

Com a direção de Kenneth Lonergan, que também assina o roteiro, o filme nos mostra a vida desinteressante de Lee Chandler (Casey Affleck). Zelador de um conjunto de edifícios, ele passa o dia realizando trabalhos sem alegria e evitando contato com as pessoas. Dono de uma personalidade fechada, ele detém ainda um dom para arranjar confusões em bares. Quando Lee recebe a notícia da morte de seu irmão Joe (Kyle Chandler), sua vida toma um rumo completamente inesperado. A necessidade de estreitar as relações com seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges) e o retorno à sua cidade natal, Manchester, não são nada agradáveis para ele.

Ao morrer, Joe deixa um testamento onde coloca Lee como tutor legal de seu filho. Acontece que o garoto acaba lidando com a situação de forma muito mais desembaraçada que o tio. Tentando seguir com a vida, em meio ao colégio, hockey,  banda e namoradas. Em uma ocasião difícil, surgem forças de onde nem esperamos e o filme também retrata isso de forma certeira, sem nenhuma forçação. E não se trata somente de lidar com a perda. O cuidado com quem permanece também é fundamental em um momento como esse. A sensibilidade como o tema é abordado é notável pois nos faz sentir algo verdadeiro, a partir do instante em que assume-se o fato de que cada um reage de uma maneira. Mas a vida continua e os boletos insistem em chegar.

A estrutura narrativa apresentada vai nos dando uma panorâmica de toda a situação sem pressa. Isso permite que o ritmo do filme se mantenha lento mas atrativo, com longas cenas e momentos em que a introspecção e o olhar falam por si só. Desta forma, é possível ver flashbacks que são mostrados de forma descontínua, mas que obedecem cada situação mostrada. Nada é auto explicativo demais, sendo possível perceber os momentos em que o roteiro vai e vem no tempo.

Lee é um personagem que não possui nenhum carisma ou simpatia. Certamente ele seria uma pessoa com quem você não conseguiria manter  uma conversa de cinco minutos. Há uma cena em que isso fica bem explícito inclusive. No entanto, ao explorarmos as camadas do personagem, com as motivações e os caminhos que o levaram até este ponto, percebemos o quanto a perda é um importante elemento na continuidade ou ruptura com a nossa realidade.

Quando vemos o personagem no passado, seja criança ou adulto, percebe-se uma expressão diferente  e um figurino mais claro e agradável. Ao retornarmos para o presente, é possível notar todo o processo de mudança e isso instiga totalmente a nossa curiosidade. Quando há uma revelação crucial para esse entendimento, ela é pesada e carregada de emoção. Manchester à Beira-Mar é um filme sobre perdas e elas são muito sentidas. Seja pela morte de um pai, o fim de um casamento, a relação esfacelada entre mãe e filho e a essência da relação familiar entre Lee e Patrick.

As atuações são impecáveis e a carga dramática imposta, com uma tensão que é aprisionada pela tristeza, é sentida. Os atores dão conta de transmitir essa sensação com muita sensibilidade. A direção é eficiente em extrair o melhor deles e o roteiro favorece o desenvolvimento dos personagens. As falas são importantes mas os olhares e as expressões são importantíssimos. Em determinado momento, Patrick observa algumas fotografias que o tio possui e este momento simples é impactante, mas de uma forma sutil.

Não é nenhuma surpresa o Globo de Ouro de melhor ator que Casey Affleck recebeu. Tampouco sua indicação ao Oscar, que também deu a Lucas Hedges um lugar entre os coadjuvantes que poderão receber a estatueta. São atuações muito verdadeiras e críveis. Há diálogos ríspidos entre os dois, choque de idéias e ao mesmo tempo existe um afeto velado. Note como Patrick é um adolescente típico sem cair no estereótipo irritante e fútil.

Kyle Chandler também atua muito bem, dando o tom certo para o seu personagem. É interessante como é dosada e eficiente sua participação nos flashbacks. Já a melhor cena do filme tem uma entrega absurda de Michelle Williams, no papel da ex-esposa de Lee, Randi. Ao assistir, há um misto de contemplação com incômodo e certamente isso pesou para a indicação da atriz (coadjuvante) ao Oscar deste ano. Não há muito tempo de tela para ela mas o que é fornecido é convincente e muito louvável.

A identidade visual do filme é muito bem definida. Constantemente vemos o céu e o mar. Por se passar em uma cidade litorânea o azul é algo que está sempre presente, com um branco que as vezes reluz na tela, com bonitas paisagens e planos abertos. Porém, o preto e o cinza, além de alguns tons pastéis também predominam, tornando a paleta bem fria. As sombras e o vazio sempre estão com os personagens em suas jornadas, dando lugar a tomadas mais fechadas e introspectivas. A todo momento o frio é referenciado, com a chuva e a neve. O desconforto com os personagens em meio a isso fica evidente e reflete o tom do longa. Também há um trabalho bem acertado nos cenários e tudo confere um ar de realismo.

Por possuir um tempo de tela grande, há uma sensação que por um instante gera uma ausência de um fechamento. Isso é recompensado pela solução que resolve um impasse, que é foge do cliché. No entanto, é necessário dizer que não há cansaço, mesmo com uma história densa. Há um interesse em descobrir onde ela irá chegar, embora sim, seja um filme com uma tristeza inerente, feito apenas para determinados momentos. A dosagem na alternância de linha do tempo confere um bom trabalho de edição que recebe um importante auxílio no componente dramático: a trilha sonora. Comovente, belíssima e de certa forma um pouco manipuladora, para reforçar a tristeza.

De fato, Manchester à Beira-Mar tem o mérito de contar uma história rica em detalhes, proporcionando uma verdadeira experiência de vida. Ele se desenrola de forma muito sincera e imperfeita, podendo ser uma vida como a minha e a sua. É um filme trágico sobre a transformação de um homem,  e ao mesmo tempo, não esconde o fato de que apesar de tudo, a vida não para e o barco precisa continuar andando. Literalmente.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...