Crítica | Westworld 1×08: Trace Decay

Restando apenas dois episódios para o término da temporada, em Trace Decay mais pistas foram deixadas para que possamos encontrar o centro deste labirinto chamado Westworld. No centro das ações, temas como dor, consciência e libertação estiveram em evidência.

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Desde que as jornadas dos personagens no parque assumiram um contexto individual, iniciaram várias especulações sobre as linhas temporais mostradas na série. Não está claro ainda se William é realmente o Homem de Preto mas de fato, a narrativa não convencional da série sugere que estamos em nada menos do que quatro períodos distintos, guiados pela percepção cada vez mais confusa de Dolores e uma crescente e promissora sagacidade de Maeve.

A identidade do enigmático cliente vip do parque ainda é misteriosa mas grande parte do seu background veio a tona de maneira inusitada. Teddy, com quem ele tem andado a alguns episódios, está resgatando lembranças de outras narrativas. Isso é um dado importante e o propósito de despertá-los através da dor parece ter surtido efeito também, da mesma forma como ele revelou ter feito de propósito com Maeve. Já podemos definir que, com mais nada a perder e conquistar, sua obsessão está no parque e na libertação dos anfitriões para um próximo nível.

“Você quer saber quem eu sou? Quem eu realmente sou? “Eu sou um deus, um titã da indústria. Um filantropo, homem de família. Sou casado com uma bela mulher, pai de uma filha linda. Eu sou o mocinho, Teddy.”

A dinâmica entre eles também revelou algo que pode ser importante, para embasar a teoria de que o Homem de Preto é William no futuro. A anfitriã que eles encontram é Angela (Talulah Riley), a mesma que recebe o cowboy no episódio 2, sendo reconhecida pelo milionário no suposto futuro. Claro, tantas pessoas vão e vem do parque, então para alguém que está ali por 30 anos, não seria um truque do roteiro para nos enganar? Além disso, será que estamos sendo induzidos a tomarmos uma direção que não é a realidade que será revelada? Neste ponto, temos que admitir que Jonathan Nolan e Lisa Joy estão nos deixando acreditar demais em algo, mas talvez seja somente uma paranóia pois a teoria faz sentido. Já a surpreendente virada que se viu no fim é o indício de que um dos grandes mistérios que atende pelo nome de Wyatt, deverá ser resolvido em breve.

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A dor foi um tema recorrente no episódio e a forma como Bernard pode senti-la torna-se extremamente crível, a partir da sempre ótima interpretação de Jefrey Wright. O conceito abordado também é interessante: a dor não é real mas pode ser sentida e tal qual um humano, isso só acontece na mente. Este foi inclusive o motivo pelo qual Arnold começou a supostamente ficar obcecado e é preciso destacar que neste episódio, Anthony Hopkins apresenta sua melhor atuação como Ford, mentindo, manipulando e agindo conforme seus próprios interesses. A queima de arquivo promovida por Bernard rendeu um inusitado momento no melhor estilo série policial, e de quebra, como já suspeitava-se, foi ele quem encontrou Elsie. E isso é uma pena pois já sabemos do que ele é capaz quando o modo assassino é ativado.

Sobre Charlotte Hale, com certeza ela não engoliu essa história de que Theresa caiu de um penhasco para transmitir dados. Talvez não com a mesma certeza que Ford sabe do seu envolvimento com os backups e a farsa com Clementine, mas a partir do momento em que ela recruta Lee Sizemore para retirar um anfitrião, fica claro que uma guerra fria está declarada.

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Agora convenhamos, que “coincidência” terem escolhido o problemático Peter Albernathy, não?

Falando em conveniência de roteiro, ela apareceu mais uma vez neste episódio ou a segurança na Delos é definitivamente algo negligenciado. Assim como no episódio em que Maeve anda por todos os departamentos da empresa, aqui as coisas acontecem da forma mais natural possível. Tudo bem se um anfitrião cortar a garganta de um funcionário. Ninguém se importa. E estamos falando de paredes de vidro e quatro cantos amplamente vigiados por câmeras, mas elas aparentemente só estão funcionando fora do parque. É sempre bom frisar que Sylvester e Felix são funcionários de manutenção (vulgo açougueiros), sem grandes privilégios de acesso. Vejamos quais as consequências desses atos.

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Isto posto, Maeve vem promovendo em todas as nuances possíveis os momentos de maior tensão, sendo uma das personagens mais interessantes. Como ela agora possui uma grande capacidade de aprendizado, sabe que não pode deixar o complexo sem uma modificação e o detalhe mais importante: a partir do momento em que consegue acessar cada vez mais memórias, ela menciona e pergunta aos técnicos quem é Arnold.

Imagino que não tenha sido fácil para Thandie Newton encarar tantas cenas de nudez de uma forma tão orgânica. Depois de um tempo, você até esquece que ela está despida, tamanha naturalidade de sua interpretação. Seu flashaback com Ford e Bernard mais uma vez destaca a dor (tudo que lhe resta) e tem uma carga dramática incrível. No presente, a intenção em controlar os anfitriões e o momento em que ela coloca isso em prática, falando em terceira pessoa, é ótimo. Também é notável a forma como ela olha com um certo desdem para o looping dos robôs e a autoridade como recruta Hector. A propósito, um parêntese: é sempre divertido ver a narrativa do bandido e novamente assistir a tatuada Armistice. No fim, Maeve se deixa capturar muito fácil e seu destino será o setor de Comportamento. Você também lembrou da conversa com Felix e Sylvester e pensou em algo proposital? Aposto que você também não perde por esperar a hora em que ela reescrever sua história e liderar um exército de anfitriões.

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Na outra ponta do parque ou em outro ponto da história, Dolores vai abrindo mais o caminho para o nosso entendimento. Da mesma forma como Maeve imaginou cortar a garganta do MIB e fez com a nova Clementine (Lili Simmons), a mocinha quase se mata como em uma visão do passado, na cidade abandonada. Ai entram uma questão abordada no episódio: uma lembrança de um anfitrião não está baseada em flashes. Não sendo memórias e sim registros, são revividas na integra e a repetição parece que tem feito o acesso progredir mais ainda.

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O outro ponto foi desmembrar ainda mais a suposta linha cronológica. Supondo que estamos 30 anos no futuro dos eventos que se passam com Dolores e William, poucos anos antes do parque abrir testes eram realizados e vimos muitos deles aprendendo a dançar. O tiroteio que ela vê remete a época em que Arnold ainda estava vivo e ela menciona seu nome neste episódio, da mesma forma que Maeve por sinal. É bom lembrar que antes de assumir o Saloom, a cafetina possuía uma outra narrativa, um ano e meio antes dos eventos atuais. Ainda tem a visão que Dolores tem de si, morta na praia. Então, alguém se arrisca a montar este quebra-cabeças? Pode ser que esteja acontecendo uma nova versão da história por meio de outro personagem. É bom destacar que a aflição de Dolores é algo notável, e ela se questiona cada vez mais sobre o senso de realidade.

Falando nisso, olha quem estava na visão dela:

Outro detalhe para respaldar a teoria das linhas temporais é o fato de que a igreja é a mesma que Ford está desenterrando, para sua nova narrativa. Não há sinal algum de máquinas ou homens trabalhando ali. Sendo assim,  a maior curiosidade neste ponto é saber onde está Dolores na linha temporal atual?

Curiosamente, o episódio terminou com Teddy e o Homem de Preto capturados pelos homens de Wyatt; Maeve pelos técnicos e Dolores e William por Logan, que enviou a emboscada para eles e agora não vai querer deixar barato. Resta saber como essas histórias irão convergir e se todas as nossas teorias são reais.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...