Crítica | Westworld 1×03: The Stray

A medida que a consciência dos andróides se torna algo além de um erro de programação, Westworld se encarregou de fornecer em The Stray algumas informações novas, nos preparando para o que deve vir adiante. Foi um episódio mais calmo que os dois primeiros, porém, com revelações interessantes e mantendo o bom nível até aqui.

Desta vez, quem ficou em evidência foi Bernard (Jeffrey Wright). O que ficamos sabendo serviu de base para conhecermos mais sobre seu passado e presente no parque. Através de uma vídeo-conferência com sua esposa (não fica claro se é ex), a confirmação do que já se suspeitava sobre o seu filho veio. Bernard é assombrado pela tristeza, em virtude de tê-lo perdido muito novo, e além do drama, uma coisa chamou atenção neste diálogo quando ele disse que conseguir um sinal ali é muito difícil. Sabemos que a série se passa no futuro, em um tempo bastante avançado tecnologicamente. Então, vocês também se perguntaram se eles estão realmente na Terra? Ou seria o contrário? Pode ser apenas uma sutil referência ao fato do local ser bem afastado, mas por hora vamos aguardar. Em tempo: já é o terceiro episódio sem nenhum vislumbre do mundo exterior.

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Agora podemos perceber mais a conexão do passado de Bernard com o que vem acontecendo com Dolores (Evan Rachel Wood). Desta vez, ele carrega consigo o livro Alice nos País das Maravilhas e Dolores lê um trecho que fala sobre mudanças, alusão clara ao seu momento atual. Aliás, não é a primeira leitura que eles fazem. Além disso, se observarmos características físicas e as roupas, além de um mundo novo, a personagem do livro se parece muito com a protagonista. Fato é que Bernard, através desta conversa, resolve pedir a ela que improvise mais em sua narrativa, e lhe da o direito de escolha sobre como agir. Ao contrário dos devaneios, ele quer força-la a sair do roteiro padrão, em uma audaciosa e perigosa escolha do qual já fora advertido, afinal isto pode representar um caminho sem volta.

Os anfitriões não são reais. Eles não são conscientes. Você não deve cometer o erro de Arnold.” Dr. Robert Ford

Também é interessante notar a forma como Bernard e Dr. Ford (Anthony Hopkins) lidam com os robôs. Na primeira metade do episódio, Ford interpela o que parece ser um funcionário novo, que estava com um anfitrião coberto. Ele diz que os robôs não sentem dor, vergonha, não são pessoas e o deixa nu, desumanizando-o. Para ele, os andróides basicamente servem a propósitos como serem agredidos, mortos e estuprados. Além disso, quando eles tem uma reveladora e expositiva conversa sobre o passado do parque, é mencionado que Arnold era o nome dito por um dos anfitriões, que havia surtado no primeiro episódio e matado outros seis. Sobre isso, descobriu-se que eram nove robôs, e os que foram alvejados por ele tinham sido seus assassinos em outras histórias, pressupondo que ele estava acessando as memórias dos eventos ocorridos.

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Arnold era co-fundador do local, mas pouco se sabe sobre ele, pois a linha tênue que separa os andróides da humanização parece tê-lo consumido. Para ele, não bastava a semelhança física e era necessário criar consciência. Ele baseava-se em uma teoria chamada Mente Bicameral, onde uma parte do cérebro parece estar falando, enquanto a outra ouve. Segundo Ford, Arnold construiu uma versão em que os anfitriões ouviam sua programação como se fosse um monólogo interior, na expectativa de que com o tempo, essa voz interior iria assumir o controle. Para ele, alguns dos anfitriões estão acessando fragmentos do código de Arnold. Um acidente (ainda não explicado) o matou e tudo leva a crer que um anfitrião pode tê-lo assassinado. Ou talvez ele ainda viva por lá como o Homem de Preto. Será? Além dessas revelações, ver o parque no passado foi agradável e o CGI do jovem Antonhy Hopkins ficou bem feito, diga-se de passagem. Outro fato destacável sobre Ford é o escritório que ele possui ali, com várias faces na parede e até um anfitrião pianista. Não sei quanto a vocês, mas eu lembrei das muitas faces em Game of Thrones. A explicação sobre a pirâmide desenhada por Ford, sobre o nível de consciência dos robôs também é um ponto importante no episódio. No topo dela, o que está faltando?

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Ainda sobre Dolores, cada vez mais ela parece emergir para uma futura rebelião e o roteiro vem se encarregando até aqui de moldar este novo caráter. O questionamento que ela faz a Teddy (James Marsden) sobre não fugir algum dia, mas agora, reflete bem a sua nova capacidade de pensamento. Além disso, a arma na gaveta e os flashes que ela tem, quando vê seu pai na forma atual e em seu novo corpo substituído, cada vez mais reforça sua nova capacidade de assimilação. Ao final de mais um looping diário, quando vê a família ser assassinada, ao puxar o gatilho e matar seu agressor, quebra o código que a impedia de utilizar armas. Mais cedo Teddy havia tentado lhe ensinar como utilizar o revólver e ela simplesmente não conseguia atirar. É preciso destacar a capacidade de atuação dos atores, que tem sido algo fundamental neste processo: quando Evan Rachel Wood entra em modo análise e volta ao normal, é extremamente crível e particularmente, é um dos melhores momentos da série acompanhar essas nuances dos personagens, com um simples comando de voz.

“Não há duas versões de mim. Há apenas uma. E eu acho que quando eu descobrir quem eu sou, eu serei livre”. Dolores Albernathy.

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Elsie (Shannon Woodward) já havia dito no episódio que somente alguns anfitriões tem acesso a utilizar armas, como o desertor que foge. Essa premissa fez com que um grupo de robôs entrasse em um looping sem fim, pois necessitavam de alguém que pudesse utilizar um machado para cortar lenha, justamente o que fugiu. Isto reforça até um conceito interessante de vídeo-game que a série possui. Quando ela parte com Stubbs (Luke Hemsworth), ele parece ser o único que teme pela ameaça que os robôs podem representar, através de sua crença de que uma linha de programa é que os impede de matá-los. Devemos admitir que o irmão do Thor parece ser no mínimo sensato. A pista que os levou ao topo de uma montanha, esculpida no acampamento, foi bem conveniente, porém, é um mistério o que ele estava fazendo lá e mais ainda, quando destrói a própria cabeça. Você também pensou que ela ia morrer?

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Falando em morrer, Teddy como de costume…morre. Porém, ele tem um desenvolvimento maior neste episódio. Durante sua conversa com Ford, uma memória passada é implantada, para que os negócios mal acabados que o impedem de ir embora com Dolores se tornem algo real. Ele agora tem um algoz: Wyatt (Sorin Brouwers), um desertor do exército que era seu superior na guerra. Desta forma, quando ele troca Dolores por uma caçada (pobre Teddy), vemos uma nova narrativa para ele, com direito a um elemento que remete a figuras mais assustadoras. Para o Dr. Ford, ele é apenas um personagem destinado a ser assassinado pelos visitantes e por hora, é só isso que ele faz.

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Alguns personagens tiveram uma participação mais discreta. Maeve (Thandie Newton), com grande participação no episódio anterior, aqui surge com apenas um breve vislumbre de sua traumática experiência quando estava em manutenção. Quando ela viu Teddy no Saloom, a memória dele com vários corpos armazenados surgiu em sua mente. Pode apostar que essa dai também vai se rebelar em breve. William (Jimmi Simpson) permaneceu em seu estado mais contido, e em meio a um tiroteio, efetuou sua primeira execução. Isso não o tornou encorajado a aceitar a gratidão de Clementine (Angela Sarafyan), mas o deixou motivado a enfrentar uma caçada, frustrando Logan (Ben Barnes). Fato é que a jornada dos dois neste episódio teve um importante desfecho, quando uma desorientada Dolores os encontrou acampados. Ainda há que destacar uma divertida visitante que chegou ao parque com um espírito aventureiro: Marti (Bojana Novakovic), aquela que acompanhava Teddy no início do episódio, matando uns bandidos na cidade e depois saindo a caça de Wyatt com ele, não sem antes de divertir no Saloom. Ela é o exemplo do meio termo que existe entre William e Logan, dois extremos em se tratando dos visitantes que vão ao parque.

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Nada em Westworld parece ter sido fornecido até agora sem propósito. Em 3 episódios, Jonathan Nolan e Lisa Joy apresentaram um leque de informações com uma narrativa que não é simples de acompanhar, porém beneficiada por um ótimo ritmo, personagens interessantes, direções seguras e grandes atuações. No próximo domingo, veremos o que Dolores irá fazer, agora que descobriu a toca do coelho.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...