Crítica | Westworld 1×01: The Original

Desde sua concepção, com uma premissa ousada e um alto investimento, Westworld gerou muita expectativa pela sua estreia na HBO. O episódio piloto The Original se encarregou de confirmar isso, causando boa impressão e trazendo um instigante faroeste sci-fy, com uma temática que se difere na profundidade e conflitos em sua narrativa.

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O plot em questão é um parque temático, situado numa época ainda não especificada, em um local também não revelado, que por ser uma área desértica, emula os cenários típicos do velho oeste americano. Não a toa, as gravações externas ocorreram em Utah, local onde estão localizados belos parques e cânions. Os momentos em que a paisagem natural é explorada pelo diretor Jonathan Nolan são de um deleite visual incrível, a partir dos lindos locais mostrados.

Ali, em meio a um mundo quente e colorido, há um sem número de vidas artificiais: robôs ultra-realísticos com inteligência artificial, chamados anfitriões, projetados para viverem em looping a cada dia, com 100 tipos de narrativas diferentes. Todos eles são programados com versões mais recentes de si mesmos e acionados por comandos de voz. Vivenciar este dia a dia é o entretenimento dos visitantes, com elevado poder aquisitivo, que por uma bagatela de 40 mil dólares acompanham o desenrolar dos acontecimentos na cidade.

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O que Westworld se propõe a discutir nessa primeira hora é a  relação perturbadora que se estabelece entre  visitantes e anfitriões. Não se trata somente uma aventura para ricos numa espécie de Disney para adultos. Os desejos mais sombrios são externalizados ali, como a violência que vai desde assassinato até abuso sexual. E isso é perturbador, ao passo que provoca uma discussão acerca da moral das atitudes pois quem poderá criminalizar tais atos se os violentados não são humanos e sim máquinas? Sim, o visual humano dos robôs (estranho chamá-los assim) traz inquietação para as cenas mostradas, ao passo que a consciência adquirida, que em algum momento sabemos que irá se tornar cada vez maior, trará uma série de conflitos que a série pretende trazer para nós também.

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Outra coisa que fica bem estabelecida é que os robôs possuem o propósito de servir e jamais ferir um visitante. Desta forma, mesmo que queiram, não conseguem disparar um tiro ou machucar de alguma outra forma uma pessoa. Este é inclusive um dos princípios das 3 leis da robótica do escritor e autor de diversas obras de ficção científica Isaac Asimov, apresentadas no livro I Robot (Eu Robô) de 1950: 

1º Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inacção, permitir que um ser humano sofra algum mal; 2º Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; 3º Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.

Logo no início, Dolores Albernathy, personagem mais antiga ali, nos é apresentada com um olhar vazio, nua e sentada em uma cadeira. Abrindo um parêntese, se tem algo que não faltou foram peitos, bundas e pênis a mostra, entretanto nada soou de forma forçada. Voltando à nossa protagonista, a expressão vazia da bela atriz Evan Rachel Wood traz um certo tipo de perturbação, a partir do momento em que desperta em sua casa e vive o seu dia comum. A mosca que pousa em seu rosto, passeando pelos seus olhos sem nenhum tipo de intervenção rima com a cena final, onde um tipo de reação sem precedentes acontece. Dolores é o arquétipo da mocinha em perigo, devidamente programada para despedir-se do pai, encontrar o namorado Teddy Flood (James Marsden) com quem forma um belo casal por sinal, sair para ir a cidade e a noite retornar para casa e testemunhar a morte da família, além de ser salva pelo namorado. Este roteiro faz parte de várias narrativas pré-estabelecidas, quem em algum momento tornam-se diferentes mas não alteram uma estrutura básica. Assim, por algumas vezes pudemos vê-la despertar para viver seu dia novamente, mas este recurso não soou cansativo pois a cada situação vivida, novas informações eram apresentadas.

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 Ainda neste núcleo da cidade, o intrigante personagem The Man in Black (Ed Harris) se diverte por ali a muito tempo, no entanto seus velhos conhecidos não se lembram dele. Não demora muito para sabermos que suas motivações vão além da simples e pura diversão, embora quando os anfitriões puderem acessar memórias passadas, as coisas poderão ficar complicadas para ele. A descoberta do que ele pretende fazer e o propósito ainda são desconhecidos, mas sendo um cliente, será que pode ser considerado um vilão?

Caímos naquela mesma questão inicial. No primeiro looping de Dolores, ele e a estupra e “assassina” Teddy , evidenciando o que seriam os valores morais e permissão para que os visitantes possam fazer o que quiserem. Mesmo os anfitriões sendo seres com consciência, ainda que até então limitada. Outro exemplo disso é quando Hector (Rodrigo Santoro) é morto por um outro visitante, após uma sequência alucinada de tiros que foi um dos pontos altos do episódio.

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O mentor deste mundo é o Dr. Robert Ford, interpretado pelo ótimo Anthony Hopkins. Ele é responsável não somente pelas criações, mas pela atualização recente que promete ser o mote para o desenrolar da temporada. Os devaneios, que permitem ao robôs acessarem memórias ocultas, causam não somente os conflitos internos que vimos, mas irá certamente desencadear vários eventos, a partir dos erros implantado em seus sistemas, que para ele foi o que permitiu nosso avanço como espécie.

Os diálogos do episódio são reflexivos e ferozes nesse sentido. Seu principal programador, Bernard Lowe (Jeffrey Wright) divide ótimos momentos em tela, e os bastidores acabam não sendo tão anti-climáticos, pela complexidade dos temas abordados. Assim, quando saímos de uma sequência com os personagens na cidade, temos bons momentos mostrados no ambiente enclausurado. E curioso também quando Elsie (Shannon Woodward), a subordinada de Bernard, da um beijo maroto em Clementine (Angela Sarafyan), anfitriã que trabalha no Saloom com Maeve (Thandie Newton) e satisfaz (de forma consentida agora) o desejo dos visitantes.

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Ainda nesse mundo de bastidores, outros personagens foram apresentados como o chefe de segurança Stubbs (Luke Hemsworth) e qualquer semelhança com o Thor não é mera coincidência. Com um pouco mais de tempo de tela, Theresa Cullen (Sidse Babett Knudsen) e Lee Sizemore (Simon Quarterman) tiveram um interessante diálogo em um pavimento superior, em um raro momento em que esses personagens não aparecem nos ambientes confinados. Eles falam, em tom conspiratório, sobre limitar a consciência dos anfitriões e ai se estabelece uma discordância em relação ao Dr. Ford, quando Sizemore da a entender que a empresa precisa de uma renovação.

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É interessante notar os contrapontos visuais apresentados para reforçar a narrativa. Na cidade, como já fora citado, vidas artificiais convivem com um ambiente extremamente vivo, enquanto que nas salas de comando e criação da corporação, uma ambientação totalmente fria e metálica se contrapõe aos humanos que ali convivem. A fotografia de Paul Cameron retrata isso de forma bastante eficiente, empalidecendo o ambiente, sobretudo quando os robôs estão offline, seja nos testes ou sendo armazenados, enquanto que nos momentos de vivacidade e atuação, os tons quentes ganham vida.

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Outro ponto bastante positivo foi a trilha sonora. Uma sugestão é que você possa assistir com um fone de ouvido ou então, aumente o som. Sua experiência certamente será mais imersiva. Quem fica a cargo disso é Ramin Djawadi que na HBO está em casa. Se você acompanha Game of Thrones, lembra daquele sequência memorável de piano, que abre o episódio final de 6º temporada The Winds of Winter e termina com explosão de fogo vivo? É desse cara que estamos falando. A sequência do tiroteio, quando Hector chega na cidade, é regida por Paint It Black (Rolling Stones), de forma orquestrada, que eleva substancialmente o clima das cenas. Um pouco antes, já havia sido tocada Black Hole Sun, (Soundgraden), em uma ótima versão no piano. Se a música pop der as caras mais vezes na série, será muito bem vinda.

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Certamente você pode ter identificado referências, mesmo que tenham sido incidentais em obras como Jogos Vorazes, Ex-Machinna, Battlestar Galática, Eu Robô, A.I. e O Show de Truman. No entanto, Westworld mostrou pelo menos neste início ter uma personalidade própria e um universo particular com potencial enorme de crescimento. O ótimo roteiro de Jonathan Nolan e Lisa Joy Nolan, que assinam todos os outros episódios, trouxeram uma  identidade que se difere inclusive do filme que baseia a série: Westworld (1973).

Ainda tivemos questões interessante a observar: o que o pai de Dolores disse nos ouvidos dela? Por que a foto que ele encontrou o perturbou tanto? Vocês também ficaram com a impressão de que ele estava a ponto de chorar em sua última cena? Perceberam que a humanização deles é tanta que, a pane que eles apresentam mais parece um distúrbio psicológico e motor? As discussões serão boas, podem apostar!

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Se tem uma coisa que todo episódio inicial precisa fazer é apresentar a mitologia de sua trama de forma que possamos nos situar, conhecendo os personagens, a ambientação e dar um norte sobre o que iremos assistir ao longo da temporada. Neste ponto, em pouco mais de 1 hora, fomos apresentados de forma precisa a situações e figuras que prometem trazer discussões morais e científicas de forma questionadora. E sim: pode colocar Westworld na sua agenda!

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...