Crítica | A Grande Aposta

Em 2008 uma enorme crise financeira atingiu os Estados Unidos, tendo sua origem no então sólido mercado imobiliário. Até os dias atuais, ecoam pelo mundo as consequências da bolha que deixou milhares de americanos sem emprego, moradia e perspectiva. Em A Grande Aposta, vemos que pouquíssimos investidores enxergaram o que muitos não conseguiram, ou não quiseram ver.

Uma série de termos do mercado financeiro são  apresentados: CDO, subprimes, tranches…depois de duas horas de filme, certamente você irá se lembrar deles, mas esquecerá o que significam, dada a especificidade do tema. Entretanto, uma coisa deverá permanecer na memória, que é a sensação de que esse universo é muito mais cínico do que você imaginava. Partindo desse princípio e das operações nada honestas e descaradas apresentadas, sobretudo pelos bancos, o filme coloca o dedo na ferida com um tom irônico e jocoso.

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Contextualizando, a hipoteca é um dos principais meios para se comprar um imóvel nos Estados Unidos e um dos pilares da economia no país. O que o filme nos mostra de cara é que, já em 2005, algumas pessoas começaram a suspeitar de um iminente colapso. O primeiro a ter essa percepção é Michael Burry, brilhantemente interpretado por Christian Bale, indicado ao Oscar 2016 de melhor ator por este trabalho. Ele é um excêntrico investidor que propõe um negócio totalmente inusitado: investir milhões em um título, que em caso de uma quebra do mercado imobiliário, lhe de dará direito a receber um seguro dos bancos. Ridicularizado, sua aposta é que muitas pessoas não irão conseguir honrar seus compromissos hipotecários, só que em um momento em que taxas de juros estavam bem acessíveis e o consumo extremamente estimulado, isso parecia uma insanidade.

De louco, apenas o comportamento dele, que parece sempre estar desconexo com os outros, demonstra uma enorme dificuldade de socialização e é fora dos padrões sociais até no modo de se vestir, o que o coloca realmente como excluído em todos os sentidos, seja em cena, ou com sua bermuda e camiseta em meio aos engravatados. Ele estava certo mas não era o único.

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Algo que fica bem claro é que o filme não possui um protagonista apenas. Assim, assistimos a três núcleos distintos, e ao contrário do que poderia se supor, não há uma conexão direta entre eles. A visão da história é contada através de Jared Vennett (Ryan Gosling), um cínico investidor que não tem pretensão nenhuma de ser bonzinho e se aproveita da situação para lucrar, quando toma conhecimento quase que por acaso das intenções de Michael e funciona como uma espécie de narrador dos eventos.

Vennett fala constantemente com o espectador, quebrando a quarta parede. Esse artifício também é utilizado com outros personagens, inclusive com celebridades, que aparecem para explicar termos complexos e operações financeiras de forma bem humorada.

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Outro investidor com problemas comportamentais é Mark Baum, interpretado por Steve Carell, certamente no papel mais raivoso de sua carreira, mostrando após Foxcatcher (2014) que também sabe sustentar papéis dramáticos. Sua dificuldade em aceitar os fatos, seu complicado temperamento egoísta e a incredulidade como encara a situação o coloca sempre com os nervos a flor da pele.

Todo o núcleo que inclui a equipe de Mark também é muito bom: Danny Moses (Rafe Spall), Porter Collins (Hamish Linklater) e Vinnie Daniel (Jeremy Strong) tem química e as situações em que eles interagem entre si, e com o chefe, rendem ótimos momentos no filme.

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O terceiro núcleo apresentado traz Brad Pitt, com uma aparição mais econômica no longa, e seu personagem Ben Rickert é um sujeito meio paranoico, com mania de perseguição e um certo horror a germes. Porém, é ele quem parece ter mais noção da realidade, apontando em um determinado momento que o problema trará consequências devastadoras as pessoas afetadas, e não necessariamente só ao mercado financeiro.

Sendo bastante influente e experiente, mesmo fora de Wall Street, ele possibilita que Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois jovens investidores em início de carreira, tenham participação no “jogo”. É interessante também notar que no caso deles, a empolgação crescente com a situação contrasta com a noção de realidade de Ben.

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O diretor Adam Mckay, também indicado ao Oscar 2016 , leva o filme por um caminho bastante interessante. Com um ar documental em várias ocasiões, a câmera constantemente fica desfocada e não permanece estática. Outro artifício bastante utilizado são zooms, em alguns momentos exagerados, mas nada que comprometa. Além disso, diversos recursos visuais como animações, gráficos e imagens são mostrados, afim de amenizar a carga pesada do tema e conferir dinamismo as duas horas de filme, mesmo com o acúmulo de informações e diálogos existentes.

O ritmo é um grande acerto pois o ar de complexidade que essa temática poderia representar negativamente acaba diluído. O interessante é que Mckay é um diretor acostumado com comédias bem diferentes deste filme, como Tudo por um Furo (2013), Quase irmãos (2008) e O Âncora ( 2004). Para quem não se lembra, nos três filmes citados, o protagonista é Will Ferrell, que possui um estilo bem peculiar e diferente de humor.

Shipley-Charlie

A sensação que fica é que A Grande Aposta é um filme que não tem a pretensão de ser didático, apesar de precisar nos colocar a par de como funcionam basicamente algumas coisas. O mais importante é que ele acaba nos trazendo aquilo que de melhor poderia se extrair de uma experiência negativa, como a crise retratada, que é o entendimento de que o caos pode ser gerado pela nossa própria euforia, alienação e consumismo, não nos preocupando com um sistema que visa somente o lucro a qualquer custo.

Não espere um filme de fácil entendimento, mas não é de forma alguma inacessível, pois consegue ser divertido, ágil e nos faz refletir. O filme recebeu cinco indicações e levou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado no Oscar 2016.

4 estrelas e meio


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...