Crítica | Spotlight: Segredos Revelados

No começo dos anos 2000, escândalos sobre pedofilia em Boston atingiram a Igreja Católica em seu núcleo, tomando proporções antes inimagináveis. Os casos de abuso foram investigados pela equipe Spotlight, do jornal Boston Globe, e trouxeram a tona não somente os atos em si, mas a forma como a Instituição lidava com isso.

Com uma premissa investigativa, o filme escrito e dirigido por Tom McCarthy aborda o árduo trabalho de investigação da equipe, e a cada avanço e descoberta, nos deparamos com situações extremamente pesadas e chocantes. O trauma psicológico das vítimas, o encobrimento da Arquidiocese local, o envolvimento da comunidade, principalmente na figura de homens da lei e pessoas influentes, são fatores importantes para entendermos o quanto é difícil colocar em evidência um assunto como esse. Em determinado momento, uma questão surge: ir atrás da instituição, ao invés das pessoas. Sim, os padres são acusados de tocar crianças, meninos e meninas, gays ou héteros, mas isso não é tudo. Existe ali um desvio de conduta moral e psicológico, mas o grande centro da questão é como a Instituição trata os casos, não resolvendo-os e jogando para baixo do tapete. Acordos envolvendo dinheiro e a ótica da proteção da cidade como desculpa para evitar um escândalo são evidenciados, pouco a pouco, para que se tenha compreensão do quão complexo é o tema.

A princípio, o foco são os padres. No entanto, quando recém-chegado editor Martin Baron (Liev Schreibermira no Cardeal Law (Len Cariou), tudo fica mais difícil e complexo, num emaranhado de casos que foram abafados ou ignorados ao longo de décadas, mas ao mesmo tempo torna-se a forma  de se chegar ao pilar de toda a estrutura corrompida. Há uma cena entre os dois, no começo de filme, que reflete bem a forma como o cardeal, enquanto autoridade, pretende lidar com outra instituição que exerce grande poder de influência, que é a imprensa.

Outro aspecto que é abordado, através das vítimas, são os traumas e as consequências sofridas pelas vítimas do abuso. Alguns deles chegam a se intitularem sobreviventes, e você percebe na expressão e comportamento o que representou sofrer tais abusos, vindo de pessoas que deveriam representar Deus e isso é explicado de forma tocante por Phil Saviano (Neal Huff), que havia sido ignorado anos antes, caracterizado como perturbado, na tentativa de abafarem suas acusações que já haviam sido enviadas ao jornal.

spotlight5

O ritmo do filme trata de nos colocar a par de tudo, sem nos perdermos diante de tantos documentos, citações e nomes, coisa que poderia muito bem acontecer com a temática do jornalismo investigativo. Não há um clímax ou oscilação brusca, mas todos os diálogos são agéis no sentido de situar o espectador. A competente montagem e o tom acertado contribuem bastante para a narrativa e a trilha sonora casa brilhantemente como os momentos em que a trama pede. Parece ser um filme parado, onde pouca coisa acontece, e ele de fato é lento mas não trás a sensação de falta de interesse em momento algum, pois cada pequena descoberta é um pequeno mas valioso progresso.

Outro mérito que também pode ser observado é a maneira como a equipe trabalha, desenvolvendo um trabalho de formiguinha, colhendo provas, depoimentos e pistas. Nada é descartado. Em uma cena, todos eles investigam enormes livros contendo as transferências dos padres da Arquidiocese, e é ai que nota-se o apuro em retratar um jornalismo verdadeiro e que não é preguiçoso. Além disso, toda a ambientação remete ao início dos anos 2000, com uma competência muito grande. Nada ali parece falso e você sente a imersão, nos cenários, figurinos e acessórios, voltando no passado recente. Até mesmo quando vemos os atentados do 11 de Setembro, que acontecem durante as investigações, a inserção deste outro evento histórico soa de forma bem orgânica, e não parece apenas contextualizar uma época.

null

A escolha elenco do filme foi outro tiro certeiro. Os repórteres Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Caroll (Brian d’Arcy James) trabalham cada qual a sua maneira e possuem personalidades distintas. Ruffalo é quem entrega a atuação mais marcante, muito por conta do envolvimento do personagem com o caso, mas todos conseguem demonstrar um comprometimento, desde a relação de Sasha com a  avó, com quem ia a igreja, até a inquietação de Matt, quando recomenda aos filhos que não vão a rua que ele descobriu ter um suposto centro de tratamento para padres, próximo a sua casa. Todos eles são liderados por Robby Robinson (Michael Keaton), um líder que erra mas procura sempre estar ao lado de sua equipe. A atuação de Michael Keaton, deve-se dizer é ótima e o seu personagem – igualmente interessante – tem uma boa interação com seu chefe Ben Bradlee (John Slattery) agregando bons momentos ao longa. Todo o elenco de apoio também rende de forma eficiente e contribui para o desenvolvimento da história que prima por um realismo incrível.

Realizar um filme que traga uma história tão impactante e que nos leve a uma reflexão sem dúvidas é uma tarefa difícil e bem executada. Mas a grande questão em Spotlight é que, mesmo com os escândalos despertando sentimentos de revolta e amargura, a Igreja, no sentido religioso não é colocada como a vilã, afinal, seria fácil demonizar toda uma instituição, mas o problema é que ai, perde-se o foco que deveria estar no comando da mesma. Não tomar partido nesse sentido é uma decisão acertada. A história é contada de forma sóbria, e não é necessário nada mais que ela, por si só, para nos escandalizarmos com os fatos.

spotlight3

Não é uma surpresa que Spotlight tenha levado o Oscar de melhor filme em 2016 e melhor roteiro original, além de outras indicações como melhor montagem, diretor, ator e atriz coadjuvante (Mark Ruffalo e Rachel McAdams). Não se trata de um excelente longa apenas, mas de como se é devastadora a verdadeira face daquilo que não imaginamos ou simplesmente não queremos saber. Todos deveriam assistir esse filme: estudantes de jornalismo, católicos, muçulmanos, protestantes, amantes de cinema, todos, sem exceção. Não se trata de culpar um lado e sim, de saber a verdade e a busca por ela.

5 estrelas


Se você gostou dessa publicação, deixe sua opinião, comente e participe. Para acompanhar as publicações do Quarta Parede, siga as redes sociais do blog e receba notificações de novos posts!

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...