Crítica | O Jogo da Imitação

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Nazista detinha o uso de uma máquina capaz de enviar mensagens indecifráveis. Em O Jogo da Imitação, é mostrado que através do uso da Enigma, os alemães trocavam informações que mesmo interceptadas, não faziam sentido para os aliados.

É aí que conhecemos o  brilhante matemático Alan Turing (Benedict Cumberbatch). Recrutado pelo serviço de inteligência britânico, ele trabalhou em um projeto secreto com o intuito de decodificar as mensagens dos nazistas. A cena inicial em que ele se apresenta ao Comandante Denniston (Charles Dance) mostra a sua personalidade: fechado para o convívio social, extremamente lógico e objetivo.

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O filme transita entre três épocas distintas, mostrando Turing no colegial em 1927, durante os eventos da Segunda Guerra, já no início dos anos 40 e alguns anos mais, em 1951, ponto de partida do filme onde após sua casa ser invadida, passa a ser investigado sob a desconfiança de ser um espião por falta de registros sobre sua pessoa. Apesar dessas diferentes  linhas narrativas se alternando, tudo fica bem coeso e vai fluindo a medida que a história vai sendo contada, fazendo com que o espectador tenha o entendimento claro de tudo aquilo que está acontecendo em tela.

A interação entre Turing e os demais integrantes do projeto vai sendo construída gradativamente. A estranheza do primeiro contato até proposta de construção de uma inovadora máquina, dada a personalidade dele é interessante de se observar, mas é com Joan Clarke (Keira Knightley) que acontece uma das melhores coisas do filme, que é a relação entre os dois. Desde o momento em que ela é recrutada a pedido dele, nota-se uma química incrível entre Cumberbatch e Knightley (indicados ao Oscar de melhor ator e melhor atriz coadjuvante em 2015). Há um diálogo que os dois em certo momento que é muito bonito, onde ela reforça uma frase de Turing a respeito de pessoas realizarem grandes feitos sem que ninguém esperasse por isso. 

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O longa também aborda temas polêmicos para a época como homossexualidade de Turing e o papel da mulher na sociedade em pleno anos 40. A forma como esses assuntos soam verdadeiros, sem serem panfletários, é um grande acerto e caem sob medida. Fica bem clara a construção de um cenário onde alguém que contribuiu para uma conquista altamente expressiva para o país pode simplesmente ser ignorado por sua opção sexual, o que para as leis da época representava um crime, até o final dos anos 60. Também é importante destacar a forma como é conduzida a guerra, por meio de estratégias e opções nem sempre desejáveis, que precisavam ser feitas a todo instante. 

Os atores coadjuvantes tem atuações seguras. Além de Charles Dance, já citado, Mark StrongMatthew Goode se destacam nos papéis de Stewart Menzies e Hugh Alexander, que é quem a todo tempo bate de frente com Turing por causa de seus métodos e comportamentos. Não há nenhuma atuação espetacular de fato ou desenvolvimento mais profundo, mas elas contribuem de forma significativa para a narrativa. 

A direção de Morten Tyldum é correta e embora não apresente nenhum momento mais ousado por assim dizer, é competente. A fotografia do filme é belíssima e o figurino são muito bem empregados. Algumas locações utilizadas nas filmagens foram parte dos eventos reais que inspiraram a obra, como o colégio onde Turing estudou e o local onde eles desenvolveram o projeto. Há alguns momentos onde pode-se notar uma  riqueza de detalhes, o que sempre é muito importante quando se trata de ambientações antigas.

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Assim, O Jogo da Imitação cumpre aquilo que se propõe desde o início: abordar a vida e a principal obra de Alan Turing, mostrando a contribuição de seu trabalho contrastando com o seu lado pessoal . Em que pese algumas discrepâncias sobre a verdadeira história do matemático (que viria a ser considerado o pai da computação no futuro) é um filme que não recebeu oito indicações ao Oscar de 2015 a toa, tendo levado o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado, além de uma primorosa atuação de Cumberbatch que está entre as melhores de sua carreira. Vale a pena conferir.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...