O estranho prazer de Michèle em ‘Elle’

A análise a seguir contem spoilers do filme “Elle (2016)”.

Michèle (Isabelle Huppert) é uma empresária bem sucedida de uma famosa empresa de games. No começo de Elle, dirigido por Paul Verhoeven, a personagem é retratada como uma pessoa dura e inflexível, que age como se tivesse pleno controle de sua vida. Com seu ar arrogante e blasé, Michèle julga todos a sua volta, seja a namorada de seu filho por ter engravidado, ou sua mãe, que mantem relações sexuais com garotos de programa. No seu trabalho, faz questão que os programadores enfatizem a violência dos jogos e grito das vítimas, mostrando assim um aspecto sádico de sua personalidade.

A pacata rotina da protagonista é quebrada quando um estranho invade a sua casa e a estupra em plena luz do dia, cena que é destrinchada e esclarecida ao longo do filme. Logo após o incidente, Michèle age como se nada tivesse acontecido. Em um primeiro momento ela esconde o incidente e recusa ir à polícia para denunciar o abuso. Com a sensação de que o estuprador é alguém próximo a ela, se mune de um martelo, machadinha e um spray de pimenta. Em uma reunião com os amigos conta sobre o ocorrido e eles dizem para ela fazer a denúncia, porém ela não vê necessidade. Segundo ela, o ato já havia ocorrido e não havia o porquê de maiores delongas ou lamentações. De fato o abusador a conhece, tanto que lhe manda mensagens provocativas pelo celular.

No decorrer do filme nota-se a conturbada vida sexual de Michele, seja pelos casos com homens casados ou com o seu vizinho. Da parte dela nunca há um envolvimento afetivo, sempre com o poder de iniciar e terminar a relação quando lhe convém. Apesar de ter sido casada, não há menção de ter tido outros relacionamentos duradouros.

Em seu passado, há um trágico evento. O pai dela assassinou várias crianças por um motivo banal. Após a chacina ele voltou para casa coberto de sangue e pediu para Michèle ajuda-lo a queimar todos as roupas dele e os moveis da casa, na tentativa de ocultar o seu crime cruel. No mesmo dia, seu pai foi preso e condenado à prisão perpétua, enquanto ela foi fotografada com as roupas ensanguentadas com um olhar vazio e perturbador.

É difícil afirmar com uma completa clareza, mas pode-se pensar que muitas vezes a sua relação com os homens seja um tanto perversa, devido a forma como ela constituiu para si a figura masculina baseada em seu pai, e no trauma do crime bárbaro cometido por ele. Michele demonstra toda a raiva e a mágoa que sente por ele nas cenas em que conversa com a sua mãe.

Na metade do filme, Michèle descobre a identidade do estuprador, que por uma infelicidade do destino era o seu vizinho, por quem alimentava uma atração sexual e alguns flertes. Apesar da descoberta, Michele se relacionou com ele mais algumas vezes, consciente do fetiche dele em abusar. É irônico pensar que uma mulher controladora como ela, se submeteria a uma posição tão passiva e fosse conivente com seu “algoz”. Talvez ela estivesse repetindo o prazer proibido que teve com o seu pai ao tentar acobertá-lo e se tornado novamente uma cúmplice.

Nas cenas finais de Elle, Michèle elabora uma armadilha para o seu vizinho, com a ajuda de seu filho. Após a festa de lançamento da empresa, ela é deixada em casa pelo vizinho e em seguida, ele invade a casa e a ataca. Dessa vez seu filho estava escondido na sala e o golpeia pelas costas bem na cabeça do “estuprador” e assim o mata.

É importante observar que Michèle não se submeteu a esse jogo simplesmente com o intuito de capturar o “estuprador”. Houve um prazer sadomasoquista nesse estranho relacionamento. Nessa confusão de sentimentos da protagonista, talvez houvesse uma espécie de punição, devido a culpa inconsciente por ter colaborado no crime de seu pai. A solução que ela encontrou frente ao conflito inconsciente do prazer e da culpa, foi a de apanhar o “abusador” e retomar o controle que possuía de sua vida.

De modo geral, Elle se mostrou uma obra muito eficiente com um ótimo roteiro, dosando os aspectos psicológicos com um certo tom de suspense. A atuação brilhante de Isabelle Huppert como Michelè (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz em 2017), assim como do restante do elenco, foram determinantes.

O diretor Paul Verhoeven e Isabelle Huppert em “Elle”

É interessante ressaltar a maneira como o filme foi filmado. Na maior parte do tempo, as cenas foram gravadas em ambientes fechados e com closes nos personagens, seja só a cabeça ou da cintura pra cima, principalmente na protagonista. Dessa forma, enquanto telespectador, temos a impressão de sermos invadidos e ficarmos sufocados como Michele, com os seus estranhos conflitos prazerosos.

Dante Carelli

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.