Crítica | ‘Você Nunca Esteve Realmente Aqui’: Joaquin Phoenix arrebenta mais uma vez

Resenha de:
Jeziel Bueno

Reviewed by:
Rating:
4
On 9 de agosto de 2018
Last modified:9 de agosto de 2018

Summary:

Inspirado na obra literária de Jonathan Ames e escrito e dirigido por Lynne Ramsay, Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here) Aqui chega ao público de maneira relativamente tímida, mas que nem por isso deixa de ser uma obra digna de destaque. O longa mostra a rotina enfadonha de um investigador ex-veterano (Joaquin Phoenix) que já trabalhou para o FBI, mas que agora atua como freelancer para encontrar crianças desaparecidas. Seus problemas começam quando o responsável por conseguir trabalhos lhe passa informações para que ele encontre uma garota desaparecida. É a partir desse momento que começa a ação.

Sem focar nos acontecimentos de forma linear, mas dando uma atenção especial aos detalhes, Você Nunca Esteve Realmente Aqui não se trata de mais um filme de investigação policial envolvendo conspirações políticas, abuso e cenas de ação; ele realmente possui todos esses elementos tão consagrados nos filmes do gênero, porém, sua essência está escondida nas entrelinhas. Os maiores trunfos dessa obra são a direção competente de Lynne Ramsay, que também escreveu o roteiro, e a belíssima atuação de Joaquin Phoenix, que entrega um trabalho tão bom quanto, ou, arrisco-me a dizer, superior ao desempenhado em Ela (2013).

O filme é sensível ao tentar tratar a rotina de um homem atípico como protagonista, um sujeito que, acostumado a uma vida regada a muita violência, se encontra existindo em uma frequência diferente dos demais seres humanos. Solteiro e com grande dificuldade de se conectar com a maioria das pessoas, ele mantém uma forte relação com sua mãe, com quem mora em um modesto apartamento em Nova York. É nos momentos que passa com ela que vemos o lado mais sociável do investigador.

O interessante nesse mistério é se aproximar de um indivíduo tão peculiar, uma alma atormentada por questões que viveu na infância e em seu passado como agente (momentos estes que são exibidos em flashbacks). Essa bagagem concede ao personagem momentos de angustiantes crises de ansiedade, bem como um comportamento que beira ao suicida, mostrando o quanto ele despreza a si próprio e a própria vida, mas não se desfaz dela por causa de um único objetivo que lhe motiva todos os dias. Proteger os inocentes é uma motivação que fica bem clara nos momentos em que ele tem que interagir com a garota que foi sequestrada e também nos instantes finais do filme.

Outro lado do protagonista que é interessante de se observar são os momentos em que ele se liberta de suas amarras sociais e se utiliza da violência para enfrentar os criminosos. É ai que podemos ver nos olhos dele toda a fúria que está acumulada em seu interior. Fúria esta que manifesta com seu martelo, a única arma que ele utiliza para matar.

Com momentos lentos e contemplativos, que alguns até podem considerar como sendo arrastados, Você Nunca Esteve Realmente Aqui é uma obra que realmente vale a pena ser apreciada e digerida. O longa foi destaque no Festival de Cannes em 2017, com o prêmio de melhor roteiro, e deu a Joaquin Phoenix o prêmio de melhor ator.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...