Crítica | Orange Is the New Black: 6ª temporada corrige erros e série retoma sua essência

Resenha de :
Jeziel Bueno

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4
On 2 de agosto de 2018
Last modified:2 de agosto de 2018

Summary:

Disponível na Netflix, 6ª temporada de "Orange is The New Black" corrige alguns de seus erros e retoma sua essência com antigas e novas personagens.

Acompanhada de muitas expectativas e até anseios por parte dos fãs, uma vez que a série vinha de fases cuja qualidade dividiu o público, eis que chega a sexta temporada de Orange is The New Black, um dos primeiros e mais expressivos sucessos da Netflix no que diz respeito a séries.

O final da quinta temporada foi sem dúvida, um dos mais impactantes e controversos. O enredo acompanhou as detentas de Litchfield em uma complicada rebelião cujo final levou à uma situação de real perigo de morte para as personagens principais, sendo que elas se encontravam confinadas em um bunker oculto na prisão e um grupo de guardas armados estava prestes a invadir o local, ansiosos e extremamente propensos a atirar ‘acidentalmente’ contra elas.

Aparentemente, os criadores da série levam bastante em consideração a reação do público, uma vez que as temporadas anteriores haviam sido criticadas negativamente por causa de um fator em específico, a substituição do clima tragicômico original da série por um clima mais focado no drama. Porém, para os fãs que estavam receosos quanto a isso, podem ficar tranquilos, pois a sexta temporada de OTNB retorna às suas origens com cenas hilárias, além da velha e boa dose de drama.

Críticas Sociais

Se nas temporadas anteriores, a série buscava criticar a forma injusta como funciona o sistema carcerário, a sexta temporada carrega mais intensidade ao mexer nessa ferida. Nessa temporada, o cenário muda bastante. Não estamos mais na simpática e branda realidade da prisão de segurança mínima. Após a rebelião, as detentas – ou pelo menos a maioria delas – foram enviadas à segurança máxima, onde as disputas são mais sérias e o riscos maiores.

Se na prisão de segurança mínima o perigo era centrado nas disputas raciais, agora, as batalhas envolvem gangues e os guardas, completamente indiferentes e alheios à realidade das prisioneiras, chegam a realizar jogos envolvendo a vida das mesmas, inclusive ganhando pontos quando essas são prejudicadas, feridas ou até mesmo – pasmem – mortas.

Ao longo dos episódios, vemos também como o sistema age de maneira manipuladora para se proteger dos escândalos, quando centraliza a culpa da morte do guarda Piscatella (Brad William Henke) na detenta Tasha “Taystee” Jefferson (Danielle Brooks) na forma de bode expiatório. E esse elemento é realmente um marco na série, pois fica evidente como somente as detentas – tomando por detentas inclusive aquelas que já foram libertadas e agora tentam a vida fora da prisão – se importam com elas mesmas. O que fica evidente na atuação dos personagens que não são prisioneiros. Percebe-se um distanciamento no olhar, mesmo quando estão fazendo algo a favor das detentas. Mesmo os médicos ou ajudantes as tratam com distanciamento e uma pequena frieza, sutil, mas que está bem presente.

Os personagens

Sem dúvida alguma, o maior atrativo da série, ainda mais do que a trama em si, é o carisma de seus personagens e essa temporada não deixa nada a desejar. Talvez este não seja um termo não tão apropriado, pois de fato, a história chega sim a deixar a desejar, mas o que desejamos é ver alguns personagens que simplesmente foram afastados e agora nos deixam grande saudade. Contudo, esse não é um fator contra a série, pois da mesma forma que grande parte de personagens extremamente amados em Orange is The New Black foram deixados de lado – ou surgem em aparições relâmpago – novas adições foram feitas ao elenco. Bem acertadas, diga-se de passagem.

Começando do princípio, a relação de Piper Chapman (Taylor Schilling) e Alex Vause (Laura Prepon) continua sem muito a acrescentar, mas que ainda é uma relação interessante de acompanhar. Ela avança pouco, porém, o avanço final é bastante interessante e considerando os acontecimentos dos momentos finais do último episódio, pode abrir ganchos com potencial para as temporadas vindouras.

A própria Chapman, outrora a protagonista da série, continua com suas já tão consagradas obsessões por realizar alguma missão e como sempre, ela foca e se esforça obstinadamente, dessa vez motivada a realizar uma mudança positiva para melhorar a vida na prisão, tentando trazer de volta as disputas de Kickball.

Já Vause, se mantém na inércia por grande parte da temporada, porém, seu desfecho é centralizado nos episódios finais, quando ela se vê obrigada a retomar antigos e perigosos hábitos em prol de sua noiva. O restante do elenco está bastante promissor, tanto as novas personagens, em destaque, o calo no sapato de Chapman, Madison “Badison” (Amanda Fuller).

Também há uma interessantíssima disputa entre irmãs, as líderes das gangues, organizadas pelos dois blocos principais da prisão: Barb (Mackenzie Phillips) e Carol (Henry Hussel) que protagonizam um dos principais arcos da trama, narrando a disputa entre duas irmãs que se rivalizam desde a adolescência e passando pelo ódio que passaram a nutrir por uma personagem já conhecida pelos fãs e que nos revela um pouco mais de seu passado conturbado, Frieda (Dale Soules).

Já as personagens antigas, no núcleo das detentas, acompanhamos em especial as dez que ficaram confinadas no bunker da cena final da temporada anterior, e cada uma delas tem seu arco narrativo bem desenvolvido. Apesar de o público já gostar delas, agora a trama nos revela um pouco mais de sua personalidade, colocando-as em situações até agora não vistas, criando novas rivalidades e nos mostrando novas fragilidades dessas mulheres, bem como sua força e tenacidade para sobreviver à prisão.

Sem sua mãe por perto, Daya (Dasha Polanco) acaba por se tornar lésbica e viciada. Já a icônica russa Red (Kate Mulgrel) se decepciona com sua família de detentas e se torna aliada da sádica Carol e uma nova parceria é iniciada quando Cindy (Adrienne C. Moore) se junta com Flaca (Jackie Cruz) para desenvolverem uma rádio na prisão. Assim como vários outros arcos interessantes, parcerias e disputas.

Também é interessante acompanhar o núcleo dos guardas e suas disputas antiéticas envolvendo a vida das detentas, podemos ver o desenvolvimento da amizade de Joe Caputo (Nick Sandow) com Taystee na batalha do tribunal. Mesmo ele, que representava o sistema carcerário, passa a questionar como funciona esse sistema, chegando até mesmo a sair da zona de conforto para enfrenta-lo.

Uma história sobre valores

Por meio da vida dessas pessoas que estão sempre tentando sobreviver, podemos ver que muitas vezes elas são obrigadas a fazer coisas que vão contra seus princípios em prol de seu próprio bem estar. Seja denunciando alguém querido para não aumentar seu tempo de pena da prisão ou tendo que pegar em armas para ferir outra pessoa apenas para poder ter a chance de se reencontrar com sua família, a série tenta mostrar que nem tudo é preto no branco.

As pessoas querem ser boas, mas muitas vezes, ela precisam provar do que é ser mau para poder sobreviver, por que coisas ruins acontecem e na maioria das vezes a bomba estoura no seu colo e você precisa improvisar rápido para poder ver um novo amanhã. Mas mesmo alguém que hoje porta uma lâmina para enfiar em sua barriga, amanhã pode estar sorrindo com você em uma partida de Kickball.

Em suma, a sexta temporada de Orange is The New Black corrige alguns de seus erros e retoma sua essência para trazer de volta personagens já amadas pelos fãs e alguns rostos novos que o público vai amar ou vai adorar odiar.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...