Crítica | ‘Ilha dos Cachorros’ é um grande acerto de Wes Anderson

Resenha de :
Joel Tavares

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4
On 17 de julho de 2018
Last modified:17 de julho de 2018

Summary:

Nove anos depois, Wes Anderson volta a dirigir uma animação em "Ilha dos Cachorros", longa desenvolvido em stop-motion em que o diretor acerta em cheio.

Desde 2009,  Wes Anderson não criava um filme de animação. Nesse ano, ele produziu e dirigiu o longa O Fantástico Senhor Raposo (Fantastic Mr.Fox), que teve uma boa recepção da crítica. Nove anos depois, ele retorna o uso dessa linguagem em Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2018), um longa desenvolvido em stop-motion em que Anderson acerta em cheio.

Ambientado no Japão, o filme conta a história de uma sociedade onde uma epidemia atingiu a população canina. Os cães tinham doenças e então originou-se um protesto anti-canino por parte dos humanos do país. O prefeito Kobayashi, da cidade futurística Megasaki, decide então exilar os cães em uma ilha, denominada Ilha do Lixo, onde os pobres animais tem que lutar para sobreviver. Nessas circunstâncias, até mesmo os cachorros de “pedigree” são obrigados a brigar por restos de comida e seu lugar no território.

A cada dia que passa, os habitantes da ilha vão ficando cada vez mais fracos, enfermos e nervosos. Porém, do outro lado do mar, na cidade de Megasaki, alguns donos desses cães travam uma luta ideológica contra os partidários do prefeito. E é então que o sobrinho de Kobayashi, Atari, um jovem de 12 anos, decide partir para a ação e voa em um pequeno avião em direção à ilha para resgatar seu amigo Spot.

A trama de Anderson é estruturada na aventura de Atari e de alguns cães da Ilha: Chief, dublado magistralmente por Bryan Cranston (Breaking Bad) e cia. Enquanto vamos acompanhando a jornada dos protagonistas, somos alvo também de flashbacks narrados por Courtney B. Vance (American Crime Story: The People vs. O.J Simpson) que, de certa forma, nos explica toda a saga até a disseminação da doença canina. Anderson também utiliza recursos bem interessantes para nos tirar do lugar de conforto. Ele coloca em cena lutas de sumô, preparação de sushi e até mesmo uma cirurgia de rim. Ilha dos Cachorros é permeado por sons de tambores japoneses dignos de filmes do mestre Kurosawa, além de utilizar a língua inglesa e japonesa e em muitos momentos nem ao menos dar a tradução para o inglês.

O destaque do filme é o cão Chief. Cranston consegue dar nuances na voz deixando o cão mais briguento da ilha magistral. O filme também conta com as vozes dos famosos Scarlett Johansson, Edward Norton, Bill Murray, Tilda Swinton, a vencedora do Oscar Frances McDormand, entre outros.

Anderson aborda o nazismo de forma inteligente e irônica. Metaforicamente, ele coloca a História em cena: campos de concentração se transformam em uma ilha e humanos em bichos. O enredo é violento e bem desenvolvido, porém até mesmo os bons diretores pecam. Anderson dá uma complexidade no desenvolvimento do personagem Chief, porém deixa os outros personagens com histórias bem rasas. Em um certo momento, ele resolve desaparecer com os outros cães, dados como protagonistas no início do filme, pois não tem mais o que fazer com eles. Existe também um romantismo fabuloso na relação entre Chief e Atari, que poderia ser amenizado já que não se trata de um filme para crianças.

Contudo, Ilha dos Cachorros é dotado de bons momentos, uma fotografia encantadora e repleto de comicidade. Anderson acerta na receita e nos deixa uma história inteligente, carregada de situações que geram debates interessantes e nos envolve com o charme dos nossos melhores amigos: os cães.

Joel Tavares

Viciado em filmes, séries, teatro e chocolate. Se apaixonou pelo cinema quando era apenas um garotinho e viu Jurrasic Park na telona em inglês. Não entendeu uma palavra, mas os dinossauros eram demais