Crítica | ‘Homem-Formiga e a Vespa’ mantém a Marvel no topo em 2018

Resenha de:
Jeziel Bueno

Reviewed by:
Rating:
4
On 6 de julho de 2018
Last modified:6 de julho de 2018

Summary:

Divertido e mantendo o tom de aventura e comédia, "Homem-Formiga e a Vespa" é mais um filme bem sucedido da Marvel em 2018.

Em meio a super-soldados com escudos de Vibranium, bilionários vestidos em armaduras tecnológicas e deuses com martelos mágicos, em 2015, a Marvel nos apresentava um herói com poderes em uma escala extremamente menor, no sentido mais literal da palavra. O Homem-Formiga é um herói que possui um traje com a tecnologia de alterar seu tamanho para o de uma pequena formiga, daquelas que se encontram no jardim ou que caminham pelos cantos da casa.

Assim como a natureza de seus poderes, as aventuras do Homem-Formiga não são tão ambiciosas quanto às vivenciadas pela maioria dos heróis do Universo Cinematográfico da Marvel. Sem máquinas poderosas capazes de reduzir a vida na Terra a cinzas, ou uma fonte de poder inimaginável cujo poder pode transformar seu portador no dominador do universo e sem quaisquer dessas outras situações de escala global, assim como no primeiro filme ou, arrisco-me a dizer, especialmente nesse segundo longa, as aspirações do herói e de seus companheiros são muito mais intimistas. Eles não pretendem salvar o mundo ou sua cidade, nem mesmo sua comunidade.

As motivações dos personagens estão mais centradas em proteger ou salvar uma única pessoa amada. No primeiro filme, Scott Lang (Paul Rudd), o Homem-Formiga, se une ao doutor Hank Pym (Michael Douglas) e à sua filha, Hope (Evangeline Lilly), com o único objetivo de solucionar seus problemas causados por uma vida de crimes e recuperar a relação que possuía com a pessoa que mais ama na vida, sua filha Cassie (Abby Ryder Fortson). Já em Homem-Formiga e a Vespa, dirigido de maneira bastante competente por Peyton Reed, os companheiros de Scott pretendem resgatar a mãe de Hope e esposa de Pym, Janet (Michelle Pfeiffer), que desapareceu há alguns anos, quando se utilizou da tecnologia de alterar os átomos para se encolher a um nível subatômico, o que a fez parar em uma dimensão alheia ao espaço-tempo, conhecida como o Universo Quântico.

O primeiro filme já possuía uma atmosfera mais episódica em contraponto às histórias épicas dos demais filmes do universo compartilhado da Marvel, além de outras características que lhe concediam personalidade única, como uma própria linguagem de comédia. Todos os filmes da Marvel, em especial os mais recentes, possuem um alto teor de humor em seus enredos, porém, poucos deles, especificamente Guardiões da Galáxia e Thor: Ragnarok, se assemelham à Homem-Formiga e a Vespa nesse aspecto.

Este não é um filme de ação com comédia, nem tampouco um drama com comédia. Ele é o oposto, pois trata-se de um filme de uma comédia com elementos de ação, aventura e um pouquinho de drama. Mas, mesmo entre as comédias da Marvel já citadas, o filme do herói minúsculo nos apresentou sua própria personalidade, com personagens mais mundanos e situações nada épicas. O próprio protagonista, Scott Lang, é extremamente humilde em tudo o que faz, galgando sua relevância aos poucos, com façanhas mais modestas até finalmente conquistar seu valor e principalmente cativar aos que estão à sua volta.

Porém, o que mais existe de engraçado acontece nas situações envolvendo seu melhor amigo e parceiro Luís (Michael Peña), que é absolutamente hilário. Homem-Formiga e a Vespa segue em vários aspectos a fórmula de sucesso do primeiro longa, porém, apresenta um filme mais maduro, sem patinar no tom que deseja estabelecer e mais centrado no que pretende mostrar aos expectadores. Sem apelar para a presença dos famigerados Vingadores, os heróis presentes nessa narrativa ganham a tela com seu carisma, bom humor e, claro, seus poderes que à primeira vista, podem parecer ínfimos, mas que com grande criatividade, se mostram incríveis habilidades.

Em Homem-Formiga e a Vespa, o uso dos poderes de diminuição e aumento estão em outro patamar. As batalhas ocorrem com um dinamismo surreal, com coreografias diferentes das tradicionais artes marciais vistas nos filmes da franquia Capitão América, mas que nem por isso deixam de ser emocionantes, com Scott Lang e Hope utilizando suas habilidades e também aumentando e diminuindo objetos do cenário, sempre os utilizando a seu favor conforme a situação exige. Os efeitos visuais utilizados na vilã intitulada como Fantasma também são muito bonitos de se ver. Porém, mesmo que a vilã não seja ruim, não chega a alcançar o posto de vilã memorável.

Porém, Homem-Formiga e a Vespa não é perfeito e alguns detalhes podem incomodar os expectadores mais atentos. Por exemplo, no meio da correria das missões, os personagens encolhem várias vezes um prédio inteiro e o transportam para vários lugares como se fosse uma mala. No entanto, os roteiristas não consideraram que essas transformações e deslocamentos deveriam surtir efeito na estrutura do edifício, efeitos semelhantes a um terremoto, talvez até fazendo com que ele desmoronasse em algum momento. Mas isso não acontece, e sempre que o prédio é restaurado para o seu tamanho original, ele se mostra intacto. Outro elemento que incomoda é o fato de a Vespa original, belamente interpretada pela Michelle Pfeiffer, ter ficado durante 20 anos confinada em uma dimensão microscópica e os personagens encararem isso como uma situação normal, sem dar a devida importância ou o estranhamento que essa situação normalmente exigiria por parte de pessoas normais.

Por falar na falta de estranhamento, um elemento que vem crescendo bastante no universo da Marvel é a banalização das situações sobrenaturais. Talvez com o aumento de elementos fantásticos sendo cada vez mais acessíveis à população, tais como alienígenas surgindo do céu para destruir cidades e outras batalhas de proporções épicas, realmente um forte impacto possa ter sido desenvolvido na população e ela tenha realmente se tornado mais difícil de impressionar. Mesmo assim, quando essas situações se tornam banais demais, elas começam a perder o brilho.

Ainda nessa linha de pensamento, uma coisa que o filme faz bem é trabalhar os poderes dos personagens. Em alguns momentos de Vingadores: Guerra Infinita, os poderes ilimitados dos heróis chegam a incomodar. São armaduras tão poderosas e inteligentes que tornam o seu portador quase invencível e aí quando o roteiro necessita, ele quebra as regras que ele mesmo estabeleceu, para criar dificuldades para os heróis.

Em Homem-Formiga e a Vespa, vemos quando o protagonista utiliza seus poderes para alterar seu tamanho e ficar gigante, com mais de 20 metros de altura, o que por si só, seria um poder em escala atroz, tornando-o quase invencível. Porém, o roteiro aqui é mais responsável quanto à isso, estabelecendo limitações para esse tipo de habilidade, com grandes desgastes físicos por parte do personagem, que chegam até a ameaçar sua vida.

Um elemento bastante notório, mas que não chega a ser um ponto ruim para o filme, é a falta de protagonismo por parte do próprio Homem-Formiga. A trama é movida mais pelas ações do doutor Pym e de sua filha Hope do que pelo próprio Scott Lang, o que é extremamente justificável para mostrar as qualidades dessa personagem bastante importante e interessante. Mas isso não significa que o suposto protagonista que dá nome ao filme, perca seu valor. No meio de cientistas geniais, ele demonstra uma clara humildade ao reconhecer que não detém o mesmo conhecimento que eles possuem, mas que também não se incomoda por isso e que mesmo assim, sabe mostrar seu valor quando é necessário, realizando feitos bastante dignos de nota.

Mas não é só do trio de protagonistas que se faz um filme. Homem-Formiga e a Vespa conta com personagens coadjuvantes que se destacam – e muito – quando comparados aos coadjuvantes que vimos em outros filmes desse universo compartilhado, isso sem mencionar o enorme carisma que o personagem possui. Os três ajudantes e amigos de Lang, liderados por Luís, apresentam um timming de comédia muito bem ajustado e o próprio Luís protagoniza uma cena hilária, bastante semelhante à outra cena que ele vivencia no primeiro filme, quando enquanto ele descreve alguns eventos com seu jeito malandro, a montagem exibe cenas dos personagens falando com a voz do próprio Luís. Dessa segunda vez, a cena consegue ser ainda mais engraçada.

Homem-Formiga e a Vespa segue a fórmula básica dos filmes da Marvel, mas assim como primeiro filme, apresenta uma identidade única que, mesmo com alguns pequenos deslizes, não perde o brilho e presenteia os expectadores com uma comédia cheia de aventura e bom humor que, apesar de não ser épica, está diretamente relacionada com os eventos catastróficos que acontecem em Vingadores – Guerra Infinita, o que podemos conferir na cena pós-créditos.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...