Crítica | GLOW: 2ª temporada é empoderada, nostálgica e cheia de personalidade

Resenha de :
Jeziel Bueno

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5
On 5 de julho de 2018
Last modified:5 de julho de 2018

Summary:

Disponível na Netflix, segunda temporada de "GLOW" é uma empoderada montanha-russa de emoções, regadas a muita nostalgia.

A primeira temporada da série original da Netflix, GLOW, foi um sucesso de público, mas que dividiu opiniões no que se diz respeito à crítica, especialmente em aspectos relacionados a exploração da profundidade da maioria dos personagens principais. Agora com a chegada da segunda temporada, paira no ar se estamos diante do mais do mesmo, ou algo que veio para acrescentar ainda mais a esta história baseada nos anos 1980, que fez pessoas soltarem boas risadas e também sentirem alguns momentos emocionantes.

Para começo de conversa, é preciso deixar claro que os protagonistas dessa temporada se mantém os mesmos da primeira, com a trama principal girando em torno de Sam Sylvia (Marc Maron), o rabugento diretor fracassado; Ruth (Alison Brie), uma atriz fracassada que tenta de todas as formas se dar bem em sua carreira caótica; e Debbie (Betty Gilpin), uma bem sucedida atriz que se esforça para se recuperar de seu divórcio.

A primeira temporada tinha como missão narrar os eventos vividos pelos membros de um show de luta livre feminina tentando produzir e gravar um piloto para fechar com uma emissora de TV. O ápice é quando elas conseguem, depois de muitos esforços e vencendo seus limites, bem como suas dificuldades e dramas pessoais, produzir um espetáculo bastante divertido para a emissora. Já nesta segunda etapa, o show já está estabelecido na TV, mas não é por isso que elas estão livres de problemas. Agora que estão com um horário fixo na televisão, os desafios giram em torno de gravar uma temporada que seja capaz de manter a audiência e um público suficiente para evitar o cancelamento ou a temida “geladeira” na emissora em um horário que ninguém assiste.

É importante ressaltar que GLOW não é uma série apenas sobre luta livre, e sim uma espécie de homenagem a uma época repleta de elementos que marcaram uma geração. Isso fica nítido ao homenagear um programa que realmente existiu, o Gorgeous Ladies of Wrestling, criado por David McLane em 1986. Inclusive, algumas personagens do time de lutadoras de luta livre são óbvias referências a lutadoras reais criadas nessa época.

O roteiro de GLOW, dividido em episódios que são sempre amarrados separadamente, mas que puxam ganchos entre si ao longo da série, aposta no constante paradoxo que existe na vida dos personagens, e isso é um dos seus principais acertos. Um momento de paradoxo bastante interessante é quando uma personagem se vê forçada a refletir acerca do quão ofensivo é a personagem que ela representa na TV, e tem que fazer isso no momento em que seu próprio filho assiste ao show. Esta vergonha é amenizada quando ela e o filho enxergam o lado de bom de tudo aquilo, quando se evidencia o esforço pelo qual ela estava se submetendo em prol de seus sonhos e objetivos.

As pessoas não são nem de longe unidimensionais, muito pelo contrário, são extremamente complicadas. Em GLOW podemos nos identificar com os personagens exatamente por causa disso. Ao longo dos episódios, o expectador é capaz de perceber porque algumas mulheres tomam decisões estranhas e que muitas vezes as prejudicam. Quando se vive em um mundo injusto, em que as mulheres não possuem as mesmas oportunidades que os homens e precisam se esforçar muito mais para receber os mesmos benefícios, bem como serem expostas a abusos psicológicos e até mesmo sexuais. Essas situações acabam por criar grande desconforto e frustração por parte das personagens. Sem alternativa, elas cometem decisões impensadas, muitas vezes se deixando serem desvalorizadas e aceitando o mínimo pelo simples fato de acreditarem que aquela é a única opção, aquilo que o cenário as levou a pensar que é tudo o que elas tem.

Apesar de ser ambientada em uma época do século passado, GLOW tem um pensamento bastante atual. Mesmo as piadas preconceituosas são carregadas de sarcasmo na medida certa que nos faz perceber o quanto são irracionais algumas situações que não são tão distantes das que vivemos nos dias de hoje.

Outro ponto a favor da série é sem dúvida a ambientação, com figurinos magníficos, paleta de cores bastante diversificadas, direção de arte impecável e toda uma atmosfera refletida por meio da atuação dos atores, em diálogos e situações que remetem a essência dos anos 1980. Aquela inocência de não ver nada errado na exposição exagerada de mulheres com pouca roupa em um programa de TV aberta assistido em grande parte por crianças. A série também mostra os aspectos negativos e abusivos que existiam naquela época.

GLOW flerta com o sistema de mídia, quando mostra um mecanismo que funciona graças à cultura de abuso sexual, responsável pela manutenção da indústria audiovisual. Ainda falando em ambientação, as referências à cultura pop dos anos 1980 é bastante nítida na trilha sonora e também no formato dos programas de televisão daquela época, o que ganha bastante destaque no episódio “A Gêmea Boa”, que é praticamente um realizado com referências (e, diga-se de passagem, um dos melhores episódios de toda a série, em especial, graças à  nostalgia que ele causa no expectador) em um formato semelhante ao consagrado VHS.

Em relação a ação, a segunda temporada evolui no quesito das coreografias de luta livre. Percebe-se uma nítida melhora por parte das atrizes, as lutas estão bem melhor elaboradas, com cenas de ação mais dinâmicas e movimentos mais ousados. Por fim, mas não menos importante, a segunda temporada de GLOW continua investindo no dramático relacionamento entre Ruth e Debbie, bem como a relação de arqui-inimigas de seus alter egos, a vilã Zoya e o modelo de mulher norte-americana perfeita, Liberty Belle, com momentos bastante emocionantes.

O interessante é que a trama da segunda temporada não foca apenas no trio de protagonistas, muito pelo contrário, todos as demais personagens são desenvolvidos, não deixando ninguém de fora. Até mesmo personagens secundários, que não passavam de meras criadoras de piadas, possuem um desenvolvimento mais atencioso nessa temporada. Conforme o tempo passa, os objetivos mudam e as pessoas mudam um pouquinho junto com eles.

Se vale a pena ver GLOW? Só há uma resposta para essa pergunta. Vista seu collant de brilho, empine seu topete com muito laquê e entre no ringue para viver essa montanha-russa de emoções regadas a muita nostalgia para aqueles com mais de trinta anos e que também serve para dar um gostinho as pessoas mais jovens de como era essa época mágica dos anos 1980.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...