Crítica | ‘A Noite Devorou o Mundo’: uma abordagem pós-apocalíptica inusitada

Resenha de:
Leonardo Barreto

Reviewed by:
Rating:
4
On 5 de julho de 2018
Last modified:5 de julho de 2018

Summary:

Com um protagonista pragmático, "A Noite Devorou o Mundo" explora o isolamento social e as formas de reagir a um evento pós-apocalíptico.

Acordar e ver o mundo do avesso não é necessariamente uma história que nunca vimos no cinema. Ainda mais quando estamos falando de filmes que envolvem cenários pós-apocalípticos e possuem mortos-vivos como pano de fundo. Os personagens popularmente conhecidos como zumbis variam bastante em sua forma e estilo, tendo como ponto comum a sobrevivência e os dramas pessoais dos personagens envolvidos. Filmes como Guerra Mundial Z (2013) e o sul-coreano Invasão Zumbi (2016) elevam a ameaça ao extremo, enquanto outros preferem trazer um estilo mais cadenciado para os mortos, como o italiano Zombie – A Volta dos Mortos (1979). O que A Noite Devorou o Mundo (La nuit a dévoré le monde) traz de diferente é justamente um drama pessoal visto de uma forma diferente, e mortos-vivos com uma estranha particularidade que os distinguem da maioria dos outros filmes.

Em A Noite Devorou o Mundo, ao se levantar de manhã num apartamento onde, na véspera, houve uma grande festa, Sam (Anders Danielsen Lie) deve se render à evidência: ele está sozinho e mortos-vivos invadiram as ruas de Paris. Aterrorizado, ele vai ter que se proteger e se organizar para continuar a viver. Mas será que Sam é mesmo o único sobrevivente? A adaptação do livro homônimo de Martin Page foca essencialmente no drama do personagem, com um senso de humanidade com o qual podemos facilmente nos relacionar.

Desde o lançamento de White Zombie (1932), de Victor Halperin, os filmes sobres zumbis se tornaram únicos graças a sua peculiaridade. Enraizado na cultura pop devido ao grande sucesso obtido por George A. Romero, responsável por reinventar o estilo com produções como Noite dos Mortos Vivos (1968) e Madrugada dos Mortos (1978), o subgênero do terror invadiu as telinhas com uma das séries mais populares da atualidade, The Walking Dead (2010), e nas telonas, vem ganhando múltiplas abordagens que incluem até mesmo a comédia, como no divertido Zumbilândia (2009).


A aposta que A Noite Devorou o Mundo faz é justamente no caráter inicial de seu personagem. Na noite que antecede os acontecimentos, vemos o personagem Sam muito pouco a vontade na festa, por conta de questões pessoais e também com uma notável tendência ao isolamento social. O diretor Dominique Rocher volta suas atenções justamente para o contraponto que o personagem irá viver com o iminente isolamento, discutindo questões como a socialização do homem e até aonde se pode chegar em uma situação extrema.

Enquanto a maioria dos filmes do gênero escolhe mostrar seus sobreviventes se deslocando, fazendo que com isso a ameaça seja um elemento constante, A Noite Devorou o Mundo testa os limites de Sam, para torná-lo sua própria ameaça. A forma calma e tranquila como ele lida com o isolamento e a maneira progressiva como ele é afetado é muito bem desenvolvida, através de pequenas ações. Auxiliado por uma montagem fluida, Rocher consegue nos transmitir a passagem do tempo de maneira orgânica e essa sensação é um dos componentes que ajudam a entender as mudanças pelas quais o personagem passa.

O filme possui algumas cenas que se relacionam com o tema central, mas possuem caráter distintos. Não há ação na maior parte do tempo, mas o longa  possui um ritmo instigante e todas elas evidenciam o drama interno que o pragmatismo de Sam não consegue controlar com o tempo.  Anders Danielsen Lie entrega uma atuação bastante convincente e há momentos muito sombrios, e outros até cômicos e até belos, como quando ele conversa com um zumbi preso em um elevador, ou quando ele encontra uma forma de se divertir fazendo música experimental com garrafas de vidro e utensílios de cozinha.

O ambiente controlado que Sam cria no apartamento e se estende pelo prédio, e curiosamente, isso nos leva a questionar a todo instante se realmente faríamos o mesmo que ele ou partiríamos em uma jornada pelas ruas. Introduzida durante o segundo ato, a personagem Sarah (Golshifteh Farahani) é essencial para impulsionar a história e subverter o status quo de Sam, embora seu arco tenha sido um pouco previsível por conta do desenrolar dos acontecimentos.

O filme carrega um caráter muito particular, não somente pela maneira como o seu protagonista lida com a situação, mas também na forma de retratar a ameaça. Os mortos-vivos possuem uma característica extremamente ameaçadora, mas que não está associada ao seu modo de se locomover ou na agressividade. O fato de não emitirem sons tornam o ambiente ainda mais enervante. Falta, no entanto, mais momentos assustadores, o que torna o filme mais voltado para o drama do que essencialmente o horror.

E se é do silêncio provocado pela ausência de interação social que o filme também fala, essa decisão torna os momentos em que eles surgem bastante desconfortáveis. Outra decisão acertada é a trilha-sonora econômica, inclusive nos momentos de ameaça, trazendo nos sons diegéticos como rangidos de portas e os passos do protagonista, uma aproximação com a realidade.

Claustrofóbico, o longa permite ao espectador momentos para respirar, utilizando o terraço, a varanda e um par de cenas na rua como formas de fazer com que aquele ambiente não sature os olhos do público. Dentro do apartamento, muitas sombras e cores frias dão o tom da fotografia, que também utiliza muitos planos estáticos e movimentos de câmera mais calmos no início, substituídas gradualmente por uma câmera mais nervosa e intensa. Tudo fica mais caótico a partir de uma reviravolta que o filme promove, preparando assim o terceiro ato.

Embora não revolucione este subgênero do terror, A Noite Devorou o Mundo possui decisões bastante criativas e faz com que vejamos a forma de lidar com uma ameaça zumbi de maneira menos urgente e mais contemplativa. Porém, no final das contas, se o longa não explora o que tornam os mortos zumbis e coloca o protagonista para responder a um evento assustador com uma coragem que não é o suficiente, o senso de sobrevivência e o nível de sanidade mental acabam sendo o centro da discussão, algo que invariavelmente vemos – de diferentes maneiras – nos dramas pós-apocalípticos.

 

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...