Por que assistir e sentir ‘Sense8’?

Em 2015, a Netflix lançava Sense8 em seu catálogo, uma série que partia de uma premissa bastante peculiar: contar a história de 8 jovens nascidos no mesmo dia, cujas mentes eram conectadas entre si e que ao serem ameaçados por perigos ou pelos ataques de uma misteriosa organização, eram capazes de absorver as habilidades de seu grupo. Os sensates são os nomes utilizados para definir as pessoas que possuem o dom de se conectar mentalmente. Porém, o que se vendia por meio dos trailers como uma série de ficção com ação e suspense, não era exatamente a verdadeira essência da série.

Não que Sense8 não possua bons momentos de suspense e principalmente ação, tudo organizado em uma trama decente e bem construída, especialmente na primeira temporada. Ela de fato possui todos esses elementos, mas a série não é apenas sobre isso. Esta é uma obra sobre sensações, não somente uma produção para ser apenas assistida, e sim, para ser sentida.

Assim que os sensates descobrem suas habilidades e começam a desenvolver laços semelhantes aos de uma família, eles começam a se conectar, além de se ajudarem para enfrentar os problemas que os rondam e a misteriosa organização criminosa, partilhando suas emoções. É nesse aspecto que a série conquista a identidade que a fez ser conhecida mundialmente.

A direção de fotografia é linda e extremamente imersiva. Aliás, se existe uma palavra que define essa série é a imersão. As imagens, os enquadramentos, a montagem fluída (que graças ao fato de os personagens morarem em locais diferentes do mundo, acabou por ser um feito complicadíssimo de se reproduzir), a trilha sonora, os sons, a atuação impecável do elenco, tudo isso são elementos que fazem com que o expectador seja absorvido pela série e passe por experiências extremamente significativas.

A trama que é desenvolvida acaba por se tornar um pano de fundo para algo muito mais expressivo: a capacidade de sentir. Os sensates são privilegiados, pois para eles, coisas simples como ouvir uma música são experiências muito mais intensas, uma vez que são compartilhadas por todos os membros de seu grupo.

Outro fator importante é a sexualidade dos protagonistas, algo que é extremamente desenvolvido durante os episódios. Com personagens tão cativantes, muitas vezes as cenas de sexo não chegam a ser escandalosas – ou pelo menos não tanto quanto deveriam ser -, uma vez que a partir do momento em que se cria uma relação mais intimista com os personagens (algo que é facilmente acessível graças aos mesmos serem extremamente cativantes), o sexo vem como algo natural e que faz parte da vida, o que não poderia estar mais próximo da realidade.

Há vários pontos de vista que fazem como que o expectador possa se identificar com diversos prismas diferentes . Em cada um deles, graças a um roteiro bastante humano e convincente, com atuações cativantes e extremamente competentes. É nítido o comprometimento por parte dos atores e todos estão alinhadíssimos.

Podemos experimentar o que é viver na pele do obstinado policial Will Gorski (Brian J. Smith), da melancólica e sensível Dj Riley (Tuppence Midleton), do criminoso anti-herói Wolfgang (Max Riemelt), da implacável lutadora Sun (Doona Bae), do cômico ator melodramático Lito Rodriguez (Miguel Ángel Silvestre), da transexual e inteligente hacker Nomi (Jamie Clayton), da amorosamente conflitante enfermeira Kala (Tina Desai) e, claro, do divertido, heróico e por vezes ingênuo motorista da van conhecida como VanDamme, Capheus (Aml Ameen). Cada um com uma cultura diferente, uma tribo diferente e até países diferentes, tudo se misturando em uma linguagem comum, algo que existe em todos os seres humanos, o amor à diferença, o que há de visceral em todas as pessoas, independente da casca que as envolvem.

Em Sense8, você pode ser negro, branco, oriental, pode pertencer a uma comunidade exótica, pode ser gay, ser estranho, ser você mesmo, independente do que isso seja. Essa é a mensagem que as Irmãs Wachowsky querem transmitir. Mas, nem tudo são flores, pois por vezes, a produção parecer tentar enfiar a cultura gay goela abaixo do expectador, além de mostrar cenas absurdamente violentas, que por incrível que pareça, não trazem consequências negativas para os protagonistas.

Há cenas de verdadeiros massacres pelas ruas e os personagens não se sentem nem um pouco incomodados com aquilo. E isso pode causar certo desconforto por parte dos expectadores que admiram verossimilhança no que assistem, uma vez que se tratam de pessoas normais, não acostumados a esse tipo de violência – com exceção, talvez, de Wolfgang, que uma vez que as sensações dos personagens são compartilhadas, talvez pudesse gerar essa frieza em relação à tantas mortes. O que não explicaria a necessidade de personagens empáticos como a enfermeira Kala ou a Dj Riley, isso sem mencionar, os deveres com a lei por parte do policial Will – assim como as autoridades, que parecem não se importar com o acúmulo de corpos pelas cidades.

Em alguns momentos, também, a série apressa um pouco os eventos quando o roteiro necessita que sejam apressados (o que pode ser explicado devido ao encurtamento da série e a necessidade de fazer caber tudo em um episódio final) e, claro, o fato de mostrar cenas de sexo bastante explícitas ou no mínimo que mostram e insinuam demais para os olhos mais sensíveis.

Porém, apesar desses pequenos problemas, essa é uma série que realmente vale a pena ser assistida, ou melhor, sentida. Com duas temporadas e dois episódios especiais – o especial de Natal do ano passado e o recente episódio final, lançado nesse ano especialmente para os fãs em virtude do cancelamento da série -, Sense8 está disponível na Netflix.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...