Crítica | Westworld 2×10: ‘The Passenger’ explode cabeças e muda tudo!

Resenha de:
Leonardo Barreto

Reviewed by:
Rating:
4
On 25 de junho de 2018
Last modified:25 de junho de 2018

Summary:

Diante de tantas respostas e perguntas que apresentou, The Passenger já pode ser considerado o maior divisor de águas de Westworld. É seguro dizer que o episódio de 90 minutos embaralhou muitas mentes e pode ter complicado a percepção público. Tudo isso com as características marcantes da série, reunindo a trilha sonora majestosa de Ramin Djawadi, brilhantes atuações, uma fotografia belíssima e a direção muito segura de Frederick E.O. Toye.

Durante toda a segunda temporada, Bernard (Jeffrey Wright) se apresentou como um elemento primordial para a compreensão de tudo aquilo que estamos vendo em tela. Se ele não sabe, também estamos confusos. Se ele se lembra, temos pistas. Desta forma, o fim da temporada delineou a nossa percepção, passeando por linhas de tempo que convergiram em um momento que redefine a série e prepara um novo caminho para a terceira temporada.

Além de audacioso, seria impossível não admitir que The Passenger pode ser um episódio divisivo. Isto porque, ele fornece incontáveis momentos de confusão, até mesmo para os fãs e teóricos mais atentos. Westworld tem mostrado, acima de tudo, que não é uma série de simples compreensão, por isso precisamos organizar os acontecimentos por ordem cronológica, para dar mais sentido a esse embaralhamento.

Roteiristas do episódio, Jonathan Nolan e Lisa Joy até mastigam alguns conceitos em forma de diálogos expositivos (principalmente os de Bernard) e concatenam algumas conveniências de roteiro para melhor compreensão dos fatos. Mas, por outro lado, eles não subestimaram o público ao propor tantos acontecimentos, estimulando o questionamento da realidade a todo instante, nem deixaram de fornecer respostas pelas quais aguardávamos. No entanto, muitas perguntas novas surgiram e parece que as teorias não terão fim até o começo da terceira temporada.

Pré-dilúvio (e o que existe Além do Vale)

Uma das coisas que aprendemos do decorrer da segunda temporada de Westworld, foi que a jornada dos personagens iria ter o mesmo destino: Além do Vale. Porém, para cada um deles, havia um significado e objetivos diferentes. Bernard, Dolores, Maeve, o Homem de Preto e Akecheta buscavam propósitos distintos, mas todos giravam em torno de uma variável, que é a libertação.

Durante toda a segunda temporada, vimos Maeve atingir um ponto em que não parecia haver limites para ela. No entanto, The Passenger colocou Dolores como a personagem que aplicou o grande truque de mestre. Pois é, com a ajuda de Bernard, ela nos enganou diretinho, e inclusive derrubou a teoria da casca, de ovo. Aquela que muitos achavam que o corpo de Bernard carregava um outro anfitrião. Quer dizer, a teoria estava certa, mas tem poderia adivinhar que Charlotte Hale teria um papel tão decisivo nisso tudo, a essa altura do campeonato?

Antes disso, foi interessante notar como as peças se ajustaram para que o encontro entre ela e o Homem de Preto, algo que em The Bicameral Mind foi o ápice da primeira temporada de Westworld, acontecesse logo no início do episódio. É como se Westworld avançasse de fase e claramente, já estamos em outro nível. Um patamar que, inclusive, coloca os personagens antagonistas com interesses opostos, mas indo juntos ao mesmo local.

Nós fomos projetados para sobreviver…mas sua espécie anseia por morte.”
Dolores Albernathy

“Parece que você começou a questionar a natureza da sua realidade”, diz Dolores a William, quando o encontra escavando seu próprio braço. A frase dita por ela é um espelhamento narrativo que inverte as posições das peças entre as temporadas. Se no primeiro ano da série, anfitriões estavam despertando, impulsionados pelas memórias violentas e o essencial estímulo do Homem de Preto, agora a lógica se inverte. A evolução de Dolores é tamanha que nem os tiros que saem do revólver de William a abalam (sua dor é mera questão de programação). Claro, é uma conveniência de roteiro que nenhuma dessas balam tenham como alvo a sua cabeça. Assim como o tiro que explode a mão de William não o mata, sendo apenas mais um dentro os tantos que levou durante o caminho.

Bernard: a chave para todos os mitérios da temporada

Tudo o que nós precisávamos em termos de compreensão era saber qual o papel de Bernard nessa história. E nós descobrimos durante os 90 minutos de The Passenger que sua participação era mais complexa do que se imaginava. Quanto entrou na Forja, com Dolores, não poderíamos supor o que realmente havia ocorrido. Ponto para os roteiristas e ponto também para a montagem do episódio, que ajudou, mesmo em meio a confusão, a desembaralhar alguns fatos.

Durante a viagem que Dolores e Bernard fazem dentro da Forja, o mundo virtual que Delos criou abre um outro nível de percepção para o público. Ali, vemos uma versão de James Delos totalmente insana, e um Logan virtual totalmente diferente daquele que conhecemos. Claro, ele e o sistema! A propósito, saber que as 10 mil linhas de códigos que tornam as ações da mente humana um livro fino é claramente uma prova visão pessimista dos realizadores sobre a raça humana, e o quão mais complexa e sem limites pode ser uma inteligência artificial. Não somos tão complexos assim, já que tomamos decisões limitadas, como a rejeição que James faz ao filho, o que o avatar de Logan descreve como o momento que definiu a vida de Delos.

Já a arma que Dolores havia mencionado no começo da temporada era o conhecimento. A base de dados dos visitantes, representada na forma criativa de uma biblioteca, se tornou a chave para a sua sobrevivência no mundo real. E por que, para ela, a porta para o outro lado era mais uma ilusão de Ford? Simples. Dolores quer viver a realidade. Para ela, o mundo real é um mundo onde ela possa interagir com pessoas, e fazer surgir uma nova espécie. É como ela mesmo diz a Bernard em dois momentos: “Quantos mundos falsificados Ford lhe oferecerá antes de ver a verdade?” e “Nenhum mundo que eles criaram pode competir com o real”.

É ai que o grande personagem dessa temporada passa a ter participação crucial. As crenças de Dolores levam as últimas consequências vidas de humanos e anfitriões. Nesse momento, Bernard assume um papel determinante, que define não somente o episódio, mas a série. Atirar em Dolores abre caminho para sua maior tomada de decisão até então, e também representa o grande plot twist que a temporada reservava. “Isso não é um sonho, Dolores, isso é um pesadelo!”, disse ele. Ele só não conseguiu impedir o dilúvio, mas vamos combinar uma coisa: Havia realmente água suficiente para tal inundação? Isso não ficou bem claro, mas ok, vamos em frente.

Maeve em sua plenitude e o Éden dos anfitriões

The Passenger nos deu a oportunidade de presenciar mais uma vez os poderes épicos de Maeve. Além de se salvar de um desmembramento, comandando um trio de anfitriões sanguinários via Wi-Fi, ela lidera o ataque que arrasa de vez os laboratório da Mesa. É uma sequência e tanto, em que o diretor faz uso de câmera lenta para mostrar os mínimos detalhes. A cena em que um dos búfalos joga um segurança, andar abaixo, é a melhor de todas elas.

“Vocês dois estavam um pouco atrasados. Então fui em frente e me salvei.
Maeve Millay

Do lado de fora da Forja, outra perspectiva. Akecheta, a Nação Fantasma e todos os anfitriões remanescentes (haja figurantes) pareciam ir de encontro a algo que não existia, uma interessante analogia com a fé, que é aquilo no que se acredita mesmo quando não se vê. O “Éden virtual” foi representado por um portal, literalmente falando. A solução criativa para que isso não soasse bobo foi inteligente: ser algo que somente os anfitriões podem ver. Com suas mentes vivas na Forja, eles podem escolher alcançar a paz em um mundo virtual, deixando para trás seus corpos. Os trinta anos de busca dos nativos terminaram (?) ali.

Maeve se antecipou a chegada de Hector, Armistice, Hanaryo, Felix e Sylvester. Mas para ir para Além do Vale, sacrificar um dos melhores personagens da temporada não pareceu muito orgânico. É claro, houve ali uma redenção de Lee Sizemore, e o personagem acabaria sem espaço para a narrativa da nova temporada. Mas era mais plausível de se supor a opção, depois de ajudá-los, por um caminho mais parecido com uma fuga para um ponto de extração do que um sacrifício.

Em outra alusão religiosa, mais especificamente bíblica, desta vez aos cavaleiros do Apocalipse, quando Clementine cavalga através de uma fila de anfitriões esperando para espalhar o vírus. E eles simplesmente se matam. A tensão é semelhante a um episódio de batalha de Game of Thrones. E a carnificina também. As várias mortes e sacrifícios que acontecem ajudam a montar o quebra cabeças do dilúvio, em mais uma cena de encher os olhos.

Charlotte Hale e o epílogo de Bernard

A essa altura, certamente você deve ter se perguntando o porquê de Charlotte Hale ter ido até as últimas consequências, ao matar todos os anfitriões. Ou, na pior das hipóteses, inebriado pelos acontecimentos, deixou escapar um detalhe. Se ela sabia o que era o dilúvio, e o que o causou, por que toda aquela dúvida com a equipe de extração, afinal?

O que é de se admirar é a forma como Jonathan Nolan trabalha com a não-linearidade, fato comum desde que escreveu o curta que deu origem ao filme Memento. Assistir aos flashbacks da praia com outra perspectiva será bem mais divertido agora, uma vez que sabemos quem é quem. Último ato de vilania de Charlotte, que foi matar Elsie, desencadeou todo o processo fundamental da temporada, que foi Bernard despertar, pegar o “cérebro” de Dolores, construir uma Hale host (Halores!) e embaralhar suas memórias, para depois se atirar, por vontade própria, na água. É ai que começa a temporada.

Pode ter passado despercebido em um primeiro momento, mas outro fato curioso é que o pacote de dados  transferido via satélite, no momento em que Dolores se revela no corpo de Charlotte, era dos anfitriões do Éden, e não dos visitantes. Mas a cena em que “Halores” detona Strand e Costa é impactante. É o típico momento em que se experimenta de forma única uma revelação.

Isso não somente muda a forma como assistimos a série, mas os caminhos que Westworld terá pela frente. A nossa percepção dos personagens também é alterada, a partir de agora. Jogado para escanteio durante muito tempo, Stubbs se revelou alguém com mais relevância do que se imaginava, por exemplo. É ele quem libera Halores para passar, e que alerta sobre o estado crítico do Homem de Preto.

Já no mundo real, naquela casa que vimos Arnold construir em Reunion, é interessante notar outra perspectiva. Aquele episódio nos levou ao começo de tudo, na primeira vez em que Dolores deixou Westworld e os acionistas da Delos conheceram os anfitriões. Agora, décadas depois, a obra iniciada por Arnold e terminada por Ford terá continuidade pelas mãos de Dolores. Assim, todos aqueles testes que vimos, e assumimos ser o passado para depois ser o futuro, eram bem diferentes do que se imaginava.

Agora, fica a dúvida de quais serão os “cérebros” levados por Dolores. Sabemos, conforme o episódio mostra no fim, que um deles era Bernard. O outro estava no corpo de Hale. Quem esta no corpo dela e os demais? Até a próxima temporada, especularemos.

Outra reviravolta

Foi ao melhor estilo Marvel. “Eu já estou na coisa, não estou?”. Essas são as palavras de William, durante a cena pós-créditos. O Homem de Preto chega até a Forja, em ruínas, no que parece se passar muitos anos no futuro. Sabemos que ele foi resgatado, na praia, quando Dolores saiu do parque. É impossível não lembrar de Lost nesse momentos, nas idas e vindas dos personagens na Ilha. Bons tempos.

“Isso não é uma simulação. Este é o seu mundo. Ou o que sobrou dele”, diz uma versão anfitriã de Emily. Agora é ele quem vai ser testado por fidelidade, então, significa dizer que o Homem de Preto é um anfitrião? Sim e não! Aquele que é resgatado em “mal estado” era um sobrevivente. Quanto ao William, que agora vai se sentar em um quarto parecido com o que se sentou James Delos anfitrião, é papo para um futuro que somente Jonathan Nolan e Lisa Joy conhecem, no momento.

Últimas palavras

* Mais Stubbs: não é somente através do sistema que Ford garantiu que os seus planos deveriam dar certo. Esse era o ponto-chave para a saída de qualquer anfitrião que fosse. No final das contas, não havia outra maneira, senão com alguém de dentro.

* Para quem achava que os planos de Westworld para Tessa Tompson iam somente até o fim da temporada, ou estavam vinculados a Delos, agora teremos muito mais da atriz na terceira temporada.

* Felix e Sylvester acabaram de ser promovidos para fazer uma garimpagem de quem “funciona”, o que significa vê-los novamente em ação na próxima temporada. Maeve é a aposta mais segura para o pontapé inicial.

* Mal posso esperar para ver mais do “mundo lá fora” e os avanços tecnológicos na próxima temporada, fato que certamente deve acontecer.

* Vejam como é contraditório assumir que a raça humana tem uma racionalidade tão limitada e instigar de forma tão complicada o pensamento no espectador, através de sua narrativa. Westworld morde e assopra sua audiência.

* Quem poderia imaginar que Logan voltaria para ser a representação do próprio sistema? Foi para essa versão de Logan que Ford deu, através de Bernard, o acesso para Dolores.

* O metafórico nome do episódio parecia se referir a algum anfitrião. Mas, como aprendemos, “O Passageiro” é o próprio e limitado ser humano, em sua jornada.

* O homem de preto começou o projeto secreto de James Delos para tentar encontrar a imortalidade. Ele encontrou e depois tentou destruir. Agora está preso nele!

* Você também se perguntou sobre os outros parques? Pois é.

* É difícil enumerar as grandes atuações do episódio, então vamos destacar alguns momentos: Dolores conversando com Bernard na Forja; Maeve se despedindo de sua filha; Akecheta encontrando paz; e sobretudo, Ford na praia com Bernard, em mais um grande momento de Anthony Hopkins e Jeffrey Wright, muito bem dirigido e com um belíssimo paisagem, diga-se de passagem.

* Uma narrativa baseada em flashbacks e flashfowards faz com que, muitas das vezes, tenhamos a falsa impressão de já sabermos o que aconteceu. A segunda temporada de Westworld conseguiu manter o interesse da audiência não apenas nas jornadas, mas no que aconteceria, mesmo com um futuro em que já se conheciam as peças. Mas, nesse caso, os personagens não dependem de rostos, e isso abre um caminho interessante – mais confuso – e não confiável em termos de narrativa. E que venham as teorias.

Os verdadeiros rostos de “Westworld”

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...