Crítica | Westworld 2×09: ‘Vanishing Point’ é um mergulho sombrio na alma do Homem de Preto

Resenha de:
Leonardo Barreto

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5
On 18 de junho de 2018
Last modified:20 de junho de 2018

Summary:

Penúltimo episódio da segunda temporada de Westworld, Vanishing Point apresentou um panorama sombrio sobre as motivações do Homem de Preto.

O penúltimo episódio da segunda temporada de Westworld foi marcado por um mergulho sombrio na alma do Homem de Preto (Ed Harris). Sua conturbada e triste jornada familiar, além dos reflexos que isso trouxe para William, dentro do parque, foram destaques em Vanishing Point, que também trouxe o triunfo inusitado de Teddy (James Marsden) e um vírus que se espalha na forma de Robert Ford (Anthony Hopkins).

Dirigido por Stephen Williams, o episódio carrega um tom mais dramático e intimista. As lindas paisagens de Kiksuya deram lugar ao planos mais fechados e em atuações minimalistas, com destaque para o monólogo de Ed Harris, que descortinou a mancha da alma de William. Escrito pelo produtor executivo e roteirista Roberto Patino, que nessa temporada também foi responsável por Journey Into NightVirtù e FortunaVanishing Point marcou a ruputra definitiva do Homem de Preto com a realidade, fazendo com o que o personagem abrace de vez a paranoia e questione sua própria essência.

A jornada do Homem de Preto, a princípio, não parecia tão atrativa, a julgar pelo começo de temporada e pela forma como as peças foram organizadas. No entanto, agora fica claro que tudo foi meticulosamente calculado para uma convergência de todos os personagens – ou os que sobraram – para Além do Vale. Desta forma, o quebra-cabeças que estávamos montando desde a temporada passada está cada vez mais próximo de uma imagem mais clara.

A ceifadora conhece o livre arbítrio

Uma das coisas mais contraditórias em Dolores (Evan Rachel Wood) é o seu desejo de vingança, apoiado no senso de liberdade proposto para os anfitriões. É o que fez a ex-mocinha violar e  modificar Teddy, passando por cima do que precisasse para atingir os seus objetivos e chegar aonde chegou. Mas o despertar não é tão simples assim. Já havíamos visto, alguns episódios atrás, que Teddy sabe quem ele é, e o porquê de sua mudança. Isso se conecta com o que acontece nesse episódio.

Se Dolores não foi capaz de aceitar seu parceiro da forma como ele é, isso se reflete, inclusive, no comportamento humano. Quantas vezes não tentamos mudar uma pessoa, o que leva relacionamentos ao fracasso e faz com que identidades próprias sejam perdidas – ou escondidas – para não dizer aprisionadas. Mas Teddy tem uma escolha e faz o que é preciso para se recuperar. Carregada de tensão, não deixa de ser curioso que, em uma mundo onde está tão acostumado a morrer, ele escolha o suicídio para tentar se libertar.

“Não importa o que aconteça, não importa o quanto eu mude ou o quanto você me mude, você é meu alicerce. É por isso que fazer isso é tão difícil. Você me mudou. Você me transformou em um monstro.” Teddy Flood

As palavras de Teddy colocam Dolores por conta própria, e se analisarmos bem, essa era a sua causa. Determinado, Teddy já havia questionado suas escolhas quando deixou confederados escaparem, antes de ser alterado, e poupou a vida de um nativo desta vez. É isso que acontece quando você é um anfitrião e está acordado. Agora, a dúvida que fica é se há conserto para ele, uma vez que o Berço está destruído.

A filha preferida

Se as analogias à criação divina abundam nessa temporada, no que diz respeito ao co-idealizador do parque Robert Ford, desta vez, temos um senso de ligação afetiva e paternal dele para com os anfitriões. E isso também espelha muito bem as jornadas de Ford e William. O primeiro já se tornou intrínseco a essa mundo, enquanto o segundo, bem…discutiremos a seguir.

Se evidentemente, Arnold tinha preferência pela original Dolores, Ford revela ter em Maeve sua filha preferida. “De todos os anfitriões que fiz, você era a minha favorita”, declarou o co-criador. É impressionante que nessa cena, além da habitual entrega de excelência de Hopkins, Thandie Newton consiga atuar com poucas expressões e limitada a uma mesa e ligada aos aparelhos que a mantem funcionando.

É notório como Ford possui uma imensa capacidade de se distanciar dos humanos, falando em códigos quebrados e sempre evidenciando a imperfeição de nossa espécie. Outro ponto curioso é a forma como Bernard (Jeffrey Wright) tem sido utilizado como um meio, que inclusive, ajudou a propagar o “vírus Ford” para os anfitriões. Isso vai ser interessante, assim como é impressionante vermos a versão zumbi de Clementine (Angela Sarafyan) dando um comando assustador para vários anfitriões se destruírem.

A tentação e loucura de Bernard

Se alguns episódios atrás Bernard era sinônimo de confusão, agora ele tem sido utilizado também como recurso para expor, didaticamente, os segredos de Westworld. Pois bem, ele diz a Elsie (Shannon Woodward) que projeto secreto da Delos é de fato relacionado a uma coleta de dados comportamentais, que são armazenados em um local chamado Fornalha, localizada Além do Vale, que é o ponto de convergência dos personagens na temporada. O que ele não diz a ela é que esteve com Ford, no Berço, escolha que não é a única feita por ele.

A forma que ele utiliza para não matar Elsie e resistir aos comandos de Ford é um dos momentos de maior tensão do episódio, não apenas por ficarmos em dúvida sobre ele atirar ou não, mas também pelo ato visceral de se mutilar para consertar seu código. Até esquemos, portanto, que ele é um anfitrião, ideia essa que é objetivo da série: nos manter dentro e fora da realidade, constantemente.

Por hora, Ford está fora do sistema de Bernard. Seu firewall parece ter tido sucesso, mas isso não deve ser algo permamente. Pelo menos, Bernard terá um alívio momentâneo.

Não William, não!

O flashback de William em uma festa não deixa dúvidas sobre sua triste condição familiar. Conhecemos Juliet (Sela Ward), mulher do Homem de Preto (e que descobrirmos ser alcoólatra no decorrer do episódio). A revelação sobre a origem de sua morte é gradual, ocupa boa parte dessa penúltima hora e revela muito mais do que sua motivação. Descobrimos, ali, mais uma camada do personagem que conhecemos como o vilão da história, que por sinal, cada vez mais se torna uma trama sem qualquer tipo de herói ou vilão.

O fato de existir um cartão físico com todas as informações coletadas em forma de perfil expõe bem o que é Westworld, para a Delos. Em outros termos, Vanishing Point mostrou muito do que conhecemos sob o ponto de vista da empresa. E imagine como seria descobrir um cartão desses, com todo o tipo de informação possível sobre um familiar. Em tempos de exposição, não deixa de ser uma visão perturbadora e a discussão sobre violação de privacidade é no mínimo promissora.

A degradação familiar de William atingiu o seu ápice. A confissão em forma de monólogo e o fato de que mesmo sendo um marido nunca ter amado a mulher, fez com que sua descida moral atingisse o ápice nessa última visita ao parque. Em seu último encontro com a filha, o elemento mais importante para a reconciliação estava ali: a pré-disposição dela em esquecer tudo e sair do parque, abandonando o que para muitos é uma realidade distorcida. Mas o que Vanishing Point vem a discutir mais intensamente, seja através do Homem de Preto, Ford ou até mesmo Bernard, é o que é real e em quem podemos confiar.

“Eu não sou uma anfitriã fingindo ser um humano, eu sou sua filha fingindo me importar com você”. Emily

Se Emily soubesse o que essa declaração iria causar, talvez nunca tivesse dito o que pensava ou mencionado o perfil do pai. A cena é extremamente perturbadora. Não somente pela execução da filha, mas de toda a equipe de extração. E para quem tinha dúvidas sobre quem manda na Delos, um dos funcionários não hesitou em reconhecer o “chefe”. Falando em dúvidas, alguém mais duvida que William não é um anfitrião? Pelo menos essa versão…

A decisão de William é uma ruptura definitiva com a realidade. A escolha adotada pelo roteiro poderia ir por um caminho mais fácil, como por exemplo, abandonar a filha – ou o que ele achava ser uma anfitriã – ou desferir um tiro não letal (como todos que ele parece levar). E se essa fosse apenas uma armadilha de Ford? E tem mais: você seria capaz de atentar contra um anfitrião tão semelhante a um filho seu?

A única explicação que justifica essa atitude é fazer William abraçar a psicopatia, em um caminho que, ao meu ver, parece que irá terminar Além do Vale. É muito improvável que o Homem de Preto não morra no próximo episódio de Westworld, quando ele provavelmente irá encontrar Dolores no mesmo local que mostrou a ela três décadas atrás.

Últimas Palavras

* Assim como no desfecho na primeira temporada de Westworld, em The Bicameral Mind, o final da segunda temporada terá 90 minutos de duração. Nada melhor do que a duração de um filme para vermos o que tem Além do Vale, a Fornalha, e todos os outros mistérios que queremos ver desvendados.

* Até agora, em absolutamente tudo – e até quando morreu – Ford foi bem sucedido. Será que algo dará errado para o grande idealizador por trás das narrativas do parque?

* Dolores, Teddy, Maeve e até personagens que estão mais à margem da história, como Clementine, estão fora de controle em suas jornadas, ou abraçaram um lado sombrio.

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...