Crítica | Westworld 2×08: ‘Kiksuya’ é um episódio marcante

Certos episódios de televisão apenas preenchem espaço em uma temporada. O chamado filler é um recurso muito comum entre os roteiristas, que muitas vezes precisam se virar para entregar certos episódios, algo que já foi utilizado em Westworld. Por isso, não estamos falando das séries que possuem o caso ou o monstro da semana, como os dramas policias/investigativos, ou Arquivo X. E também não é o que acontece no ótimo Kiksuya, que com uma hora de televisão visualmente fantástica, nos mostrou alguns dos fatos que já conhecemos através de outro ponto de vista.

Antes, mais um adendo. Abrir espaço em uma história para desenvolver uma subtrama é um recurso que, se bem utilizado, acrescenta substância à jornada de um personagem. Essa tentativa já aconteceu em séries memoráveis, como Lost e Breaking Bad, mas o resultado nem sempre acaba sendo satisfatório. Enquanto a controversa série da ABC dedicou 45 minutos em Stranger in a Strange Land, para mostrar basicamente o porquê da tatuagem de Jack Sheepard existir, em Fly, o desenvolvimento de Walter White e Jesse Pinkman, a preparação do desfecho da terceira temporada e o ponto de vista da mosca (isso mesmo) foram cuidadosamente articulados, com um primoroso trabalho de fotografia e direção.

Então, por que Kiksuya não se encaixa em nenhum dos exemplos citados? É simples responder a essa pergunta. O episódio que nos mostra o despertar de Akecheta (Zahn McClarnon) e o propósito da Nação Fantasma em Westworld é um salto através de décadas que desenvolve um personagem, um povo e uma ideia. A consciência que Ford tanto estimula não possui apenas um personagem principal – e o alvo de seu discurso antes de morrer também era outro – e o Labirinto não é, definitivamente, algo feito para você, William.

O encaixar de peças fica ainda mais latente quando percebemos, no fim, o porquê de apenas Maeve (Thandie Newton) ser a única anfitriã a ser mostrada fora da história que estava sendo contada nesse episódio. Ela estava agindo, o tempo todo, via rede malhada (eu prefiro Wi-fi ou poderes Jedi), sem que nós pudéssemos observar explicitamente. Desta forma, a história que estava sendo contada para a sua filha de forma didática e expositiva (o que em uma certa altura incomodou), nada mais era do que o conhecimento sendo revelado a ela.

Dirigido por Uta BriesewitzKiksuya é responsável por nos proporcionar uma das horas com as mais belas paisagens e a fotografia exuberante de Darran Tiernan. Com movimentos de câmera que de forma bem lenta, nos ajudam a irmos calmamente compreendendo a história, planos magníficos se unem a trilha sonora de Ramin Djawadi, mais uma vez essencial, e que dessa vez trouxe Nirvana com uma versão da icônica Heart Shaped Box.

30 anos em busca da singularidade

Aquele anfitrião de terno elegante, que foi o primeiro contato de Logan (Ben Barnes) com o parque, é uma das criações originais de Ford (Anthony Hopkins). É sempre muito interessante quando uma série se propõe a mostrar eventos através de outro ponto de vista. Ainda mais com um personagem que até então era visto através de uma única camada. Westworld consegue fazer isso de forma muito eficiente aqui, remontando os dias iniciais do parque, com o massacre que Dolores/Wyatt  promove, no mesmo dia da morte de Arnold. Sim Dolores, você não é a unica que está acordando.

A partir dai, não é somente o Labirinto que passa a fazer mais sentido. A forma como um anfitrião desperta e o criador movendo as peças no tabuleiro ficam cada vez mais evidentes. É importante também notar como, através da singularidade sendo obtida, a visão que Akecheta tem do parque inverte mais uma vez a lógica para o espectador. Os técnicos da Delos enxergam os anfitriões apenas como personagens de um jogo, modificando suas histórias em prol da experiência dos usuários do parque. É o que faz com que ele perca Kohana (Julia Jones), ganhe uma nova narrativa e comece, de fato, a despertar

“Este é o mundo errado!”  Logan Delos

A frase dita por Logan, encontrado nú e louco no deserto, não serve apenas para nos mostrar o que aconteceu com ele depois que William (Jimmi Simpson) o abandonou em The Bicameral Mind. Essa é, na verdade, uma pequena linha que pode ter um duplo significado para uma mesma situação. Westworld, com suas narrativas, não é um lugar de verdade, portanto não é um mundo para os anfitriões. Nem para os humanos. Logan foi a primeira pessoa a conhecer esse assombro de perto, tanto que, anos depois, não soube como lidar, conforme já sabemos.

Desta forma, a jornada de três décadas iniciada quando Ale encontra o labirinto esculpido, representou uma busca pela singularidade de um povo, que aguardou pacientemente até que o sinal fosse dado, conforme Ford disse. Quase que como de forma divina, em mais uma das metáforas que a série faz com criador e criatura, Ford diz que quando voltasse, ele saberia. Revisitar a cena do massacre dos dias atuais, pelo ponto de vista de Ake, foi um dos desfechos que Kiksuya conseguiu amarrar de forma satisfatória.

Uma outra visão

Akecheta já havia feito muitas coisas quando Ford o incita a reunir seu povo para ir ao novo mundo. Sua incursão pelas instalações desativadas do parque (que aprendemos ser o que vimos nos primeiros flashbacks da série, inclusive os letreiros velhos), mostram que já haviam se passado muitos e muitos anos, e que seu despertar burlava até a “morte”, como Maeve já havia feito. A comovente cena nos dá uma visão diferente do que é a morte para um anfitrião. Uma visão angustiante e emocional, mas não muito diferente da nossa, na vida real.

Outro ponto de vista que é subvertido é o propósito da Nação Fantasma na trama. A interpretação das intenções é uma das coisas ditas por Akecheta à Maeve’s Daughter (ela realmente não tem nome creditado), mas já havíamos visto esse comportamento mais pacífico em outros episódios. O loop que Maeve enxergava era na verdade uma tentativa de protege-las e libertá-las. E isso é um excelente ponto de virada para a história, que culmina com um final emocionante, em que ele se compromete a proteger a menina.

O único deslize na jornada de Akecheta é justamente a sua singularidade tão avançada, em relação aos outros anfitriões. Quando ele decide morrer para ir ao que ele acredita ser o “outro lado”, descobrimos que ele passou uma década sem realizar o loop para o qual foi programado. O próprio episódio, com a captura de Kohana, reforçou a ideia de que a rigidez com a qual o parque é controlada não permitiria isso. Inclusive, quando ele acessa o local em que sua antiga companheira está desativada, fica difícil entender como nenhuma câmera de segurança ou até mesmo alguém poderia não ter notado a sua presença. Devemos ter muita suspensão de descrença ou atribuir uma licença dramática, ou, na pior das hipóteses, muita crença no deus de Westworld, Robert Ford.

Mesmo assim, mais do que qualquer outra coisa, Kiksuya conseguiu humanizar um grupo que até então vivia sob o estereótipo do “nativo malvado”. Sabemos que tanto Werstoworld, como o Shogun World, por exemplo, foram concebidos em cima de estereótipos. No entanto, com o despertar da consciência, há uma mudança em curso que nos mostra outra visão. Com apenas um episódio, Akecheta se torna um personagem importante e coloca o seu povo como uma peça fundamental dentro desse tabuleiro que Ford cuidadosamente preparou.

Últimas Palavras

* Uma importante rima narrativa acontece no episódio. Enquanto em Reunion, Akecheta é o primeiro anfitrião que Logan conhece, em Kiksuya, ele provavelmente acaba sendo o último que ele vê no parque.

* Um dos mistérios da primeira temporada era o labirinto desenhado na cabeça dos anfitriões. Quem diria que isso havia partido de um próprio anfitrião.

* Já era de se supor que Emily deveria resgatar seu pai, ferido e moribundo. A princípio, a participação do Homem de Preto (Ed Harris) nesse episódio apenas serviu como preparação para nos mostrar o caráter pacífico da Nação Fantasma, que depois seria revelado.

* Akecheta descobriu o mesmo local que William mostrou a Dolores, mostrado nessa temporada. O local parece ter sido bem escondido e mal podemos esperar para ver como ele será acessado.

* Clementine, Angela, Albernathy, até mesmo Maeve, e agora Kohana. Quando um anfitrião tem sua narrativa substituída, ou é desativado, não deixa de ser curioso como a dualidade que existe entre o real e o artificial nos impacta.

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...