Crítica | Os Estranhos: Caçada Noturna

Em 2008 foi lançado Os Estranhos, um filme que tinha como protagonistas um casal interpretado por Liv Tyler e Scott Speedman, e embora não chegasse a ser um filme bastante marcante, possuía alguns elementos bastante interessantes. Especialmente no que se tratava da atmosfera de suspense ao redor dos invasores e também do espaço limitado em que os personagens se encontravam e sua convincente luta pela sobrevivência. Já o segundo filme, Os Estranhos: Caçada Noturna, embora não se trate de um completo desastre, perde muito em relação ao primeiro, desperdiçando o que havia funcionado e apostando em alguns caminhos duvidosos na sua narrativa.

Se no primeiro filme a trama dos protagonistas se baseava em um casal tentando se reconectar e era muito feliz nesse aspecto graças à diálogos convincentes e à atuação competente do elenco, nessa nova versão, a premissa parte dos pais tentando resolver os problemas com seus filhos. Em especial, a adolescente problemática que eles pretendem levar para um internato.

O cenário, que na obra original se limitava a uma casa isolada no meio da mata, aqui é substituído por um parque de trailers, fazendo referência à Cristal Lake. Apesar de uma direção de fotografia competente, bons jogos de luzes e pelo menos uma sequência de cena bem elaborada (a cena do ataque na piscina, que é bastante interessante por sinal, com um suspense crescente e coreografias de ação interessantes), o longa desperdiça boas oportunidades e segue em um ritmo clichê com momentos de gato e rato bastante saturados em filmes de terror, ao estilo slasher. Porém, o principal problema de Os Estranhos 2 se deve a uma grande falha no roteiro e na direção, no que se diz respeito a desumanização dos personagens.

Para começo de conversa, se um filme é de terror, espera-se que ele desperte medo em seus expectadores. Porém, para que haja medo, é preciso primeiro que seja estabelecida uma relação de empatia entre expectador e personagem, que só pode ser desenvolvida quando se há identificação. Mas como se identificar com um personagem extremamente estúpido que toma decisões absurdas, apenas por que são convenientes para o enredo?

Se no primeiro filme a tensão ocorria por meio do espaço limitado e do grande mistério que rondava os invasores – por que eles usam máscaras? Que rosto está escondido ali? O que eles querem? Qual a motivação desses estranhos? -, tensão que acabava por ser maximizada graças ao fato de o filme ter sido inspirado em acontecimentos reais, o segundo longa desperdiça as chances de criar essa atmosfera e joga os assassinos para correr atrás dos protagonistas. E como os protagonistas se saem nisso tudo? Muito mal.

Se os pais interpretados por Christina HendricksMartin Henderson possuem uma participação extremamente tímida, deixando o foco para os adolescentes se virarem contra psicopatas que perseguem pessoas e cometem assassinatos sem nenhum motivo, os agentes da ação se mostram extremamente incompetentes. A despeito do que se fala em contar uma história, os personagens são desagradáveis. A filha problemática é extremamente irritante, e muda bruscamente sua personalidade quando o roteiro precisa que ela mude.

Os dois protagonistas vividos por Lewis Pullman e Bailee Madison são bastante estúpidos e chega a incomodar observar suas decisões inúteis em tela. Mas o grande problema mesmo do filme é a inocência do roteiro de Ben Ketai, no que diz respeito ao comportamento humano. Um filme realista e com base em um crime verídico, sem propensão ao sobrenatural como filmes das franquias Halloween, Sexta-Feira 13 ou Noite do Pesadelo, balança a suspensão da descrença quando expõe eventos improváveis, como na ocasião em que um dos psicopatas se vê alvo da explosão de um veículo e sai do mesmo todo avariado e mesmo assim continua perseguindo um dos protagonistas com um machado.

Incomoda também ver os personagens sendo extremamente dóceis contra os assassinos, que parecem possuir uma aura de medo em volta. Se uma pessoa é ameaçada por outra, o instinto de sobrevivência tende a surgir, especialmente quando se há grande chances de vitória. Porém, neste longa, os personagens preferem fugir ou serem esfaqueados em vez de revidar, mesmo quando as chances estão ao seu favor. Outra coisa que incomoda também é que os psicopatas também não são inteligentes, mas contam com a sorte e a ignorância exagerada dos protagonistas para lograr êxito em seus objetivos.

Quando a direção de Johannes Roberts tenta fazer referência a obras icônicas do cinema do terror (O Massacre da Serra Elétrica, por exemplo), a mesma se mostra fraca e sem eficácia, uma vez que a construção não foi bem estabelecida. Os Estranhos 2: Caçada Noturna não chega a ser um desastre completo e até diverte em alguns momentos, mas não é nem de longe um filme memorável.

 

 


 

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...