Crítica | Westworld 2×07: ‘Les Écorchés’ é um divisor de águas

Quanto mais se aproxima do fim da segunda temporada, Westworld vai ganhando contornos cada vez mais caóticos. Mais linear que o usual, repleto de ação e bastante violento, Les Écorchés uniu linhas temporais e mostrou grandes momentos que vinham sendo trabalhados durante a temporada, como a chegada de Dolores e Teddy na Mesa; os planos de Ford sendo revelados no Berço; o confronto entre Maeve e William; e a descoberta da Delos sobre a identidade de Bernard.

A direção de Nicole Kassell foi precisa ao capturar todos esses momentos, desde os mais viscerais, com muito sangue e violência, até os mais dramáticos, com destaque para as atuações de Jeffrey Wright (Bernard), Tessa Thompson (Charlotte) e Louis Herthum (Albernathy). A propósito, o elenco em Westworld tem proporcionado grandes momentos durante essa temporada, não sendo diferente aqui. O roteiro de Jordan Goldberg deixou a história fluir , passeando por vários núcleos, garantindo o dinamismo necessário para tantas ações.

Mais do que isso, a sensação que se tem é de posicionamento das peças. Se no começo da temporada tudo parecia um emaranhado de informações difusas, agora elas começam a se organizar. A medida em que Bernard vai entendendo os fatos, nós vamos juntos com ele. A inundação que conhecemos no início da temporada está cada vez mais próxima de ser mostrada, para que possamos compreender o que de fato aconteceu, e os impactos que isso gerou no presente da série. Além disso, a nova variável que coloca os humanos no centro do jogo como estudo, e não os anfitriões, dão ao seriado uma nova perspectiva.

Como se não bastassem os momentos grandiosos, Les Écorchés marca o retorno de Anthony Hopkins a Westworld. É impressionante como a série se beneficia da presença desse monstruoso ator, que tem em seu personagem, Robert Ford, a grande mente (literalmente) por trás dos panos. O episódio tratou, inclusive, de colocar temas em pauta como os paralelos entre ciência e religião, além do livre arbítrio e a consciência humana.

A liberdade e a singularidade atingidas por muitos anfitriões os colocam sob o peso da responsabilidade do livre arbítrio. É o que Ford queria, mesmo que de alguma forma, ele ainda puxe as cordas. Neste episódio, vemos muitos anfitriões tomarem decisões. Angela (Talulah Riley ) decide se sacrificar para explodir o Berço, enquanto Lawrence (Clifton Collins Jr.) decide atacar o Homem de Preto (Ed Harris) e Clementine (Angela Sarafyan) se sacrifica pela “causa”.

Violência e conhecimento

Existem duas formas de despertar em andamento. A primeira é a que está sendo implementada por Dolores (Evan Rachel Wood). A violência de seus métodos fica cada vez mais evidente, assim como está bem claro que o que importa são os objetivos, e não os meios. Tudo é justificável, desde a extração dos dados da cabeça de Albernathy, até a modificação que tornou Teddy (James Marsden) agressivo. “A Família que eles nos deram são apenas mais uma corda para nos amarrar”, diz ela, traçando um paralelo entre seu pai e a filha de Maeve (Thandie Newton), que por outro lado, está cada vez mais convencida de que a consciência deve ser atingida pelos anfitriões, embora não hesite em tentar controlá-los quando lhe é conveniente.

Tudo faz parte, no entanto, do grande e meticuloso plano de Robert Ford. É ele quem arquitetou sua própria morte, para curiosamente se tornar mais poderoso no contexto do parque, conduzindo suas criações ao caminho que estão trilhando nesse momento. É curioso notar que, mesmo morto, ele tenha mais controle de tudo do que antes. “O que vai acontecer não será sua culpa”, diz Ford a Bernard, se referindo ao ataque na Mesa. A liberação do sistema e a hospedagem de Ford na consciência do anfitrião que ele criou com Dolores mostram exatamente que a liberdade das criaturas não são conceitos tão simples assim.

“Eles querem fidelidade, Bernard, um auto-retrato fiel das espécies mais assassinas desde o início. Mas você e todos os outros anfitriões são uma espécie diferente, um trabalho original, apenas mais nobre”.

Não é novidade que Ford aprecie suas criaturas e tenha estimulado tanto a singularidade dos anfitriões. Para ele, o triunfo da inteligência artificial sobre os humanos é algo aguardado e inevitável, e quem vem sendo exposto através de momentos simbólicos, como o domínio de Dolores sobre Charlotte e Maeve subjugando William.

Os humanos não querem que os anfitriões se tornem humanos, mas os humanos querem se tornar anfitriões, quase que em um grito desesperado pela imortalidade de uma raça que evolui, mas adoece e apodrece. Eles só não encontraram uma maneira eficiente de fazer isso. Dolores, consciente desse desejo, não quer que os anfitriões se mantenham presos em uma narrativa, nem que os humanos se beneficiem de sua natureza. É interessante como Westworld consegue inverter lógicas e papéis a partir do retorno de Ford, uma bela e agradável surpresa que pavimenta muito bem o caminho para a reta final da segunda temporada.

Últimas palavras

* Finalmente a Delos sabe que Bernard é um anfitrião, mas, parece que Charlotte não ficou muito surpresa com isso, apesar de seu espanto inicial com as cópias de Bernard.

*Há 30 anos, os anfitriões atuam para controlar as variáveis comportamentais ​​das pessoas. A Delos tem coletado, sistematicamente, dados sobre os visitantes, que estão sendo usados ​​para criar impressões de suas consciências em corpos artificiais, fato que ainda não aconteceu – vide James Delos no episódio The Riddle of the Sphinx. A surpresa, no entanto, é vermos Ford falar abertamente sobre isso.

* Por que diabos Charlotte Hale não extraiu os dados da cabeça de Peter Albernathy, ao invés de levar o próprio – e  defeituoso – anfitrião para fora. Parece que Dolores foi muito mais eficiente e prática nesse sentido, levando as três décadas de experimentos decodificados embora, no bolso, em questão de minutos.

* Quando Maeve revive os horrores imputados pelo Homem de Preto, relembra o(s) mesmo(s) momento(s) em que ele matou sua filha. Só que dessa vez, é ela quem atira primeiro. É curioso notar que, mais uma vez, William acredita que tudo se resume a um jogo de Ford.

* Emily/Grace ficou mesmo para trás. Talvez, possa ser ela, ou a Nação Fantasma, quem vai ajudar William a se recuperar. Aliás, o Homem de Preto nunca leva tiros na cabeça, mas braços e pernas estão liberados…

* A propósito, nós já entendemos que a Nação Fantasma quer ajudar, mas a aparência deles parece não colaborar muito.

* Quando Ford diz a Bernard que é melhor que ele mesmo descubra o final, parece que Westworld encontra uma maneira sarcástica de alfinetar as inúmeras teorias que criamos e assumimos toda semana.

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...