Crítica | Westworld 2×06: as revelações de ‘Phase Space’

Após apresentar o melhor episódio da segunda temporada em The Riddle of the Sphinx, e depois mostrar os encantos sangrentos do Shogun World em Akane no Mai, Westworld navegou por águas mais calmas no último domingo. No entanto, Phase Space esteve longe de ser irrelevante e nos trouxe revelações importantes, além de nos apresentar contrapontos emocionais entre humanos e anfitriões.

A direção do estreante Tarik Saleh precisou dar destaque aos diálogos, um deles em especial, entre William e Emily. O encontro entre o Homem de Preto e sua filha em uma fogueira conseguiu humanizar o personagem de uma forma ainda não vista, com belíssimos planos nos rostos dos personagens, em especial em Ed Harris. A fotografia de John Grillo também foi capaz de captar outros bons momentos no Shogun World e de quebra, nos deu uma luta de espadas entre Musashi e Tanaka, que se não acrescentou muito à narrativa, mostrou que esses robôs também prezam pela honra e estão fazendo as suas escolhas.

Roteirista do episódio ReunionCarly Wray estabeleceu três pontos fundamentais para mover o episódio, que se mostrou dinâmico em alternar os seus núcleos, auxiliado pelo bom trabalho de edição. Phase Space colocou todos os personagens perto dos objetivos que almejam desde o início da temporada, chegando ao fim dos 58 minutos diferentes de como começaram. A jornada de Maeve (Thandie Newton) chegou ao ponto crucial, enquanto Dolores (Evan Rachel Wood) deu mais um passo em direção ao seu plano. Enquanto isso, O Homem de Preto prossegue com uma inesperada conexão emocional.

A grande revelação, no entanto, ficou por conta de Bernard (Jeffrey Wright), personagem que agora conta com a ajuda de Elsie (Shannon Woodward) para desvendar os mistérios das duas semanas em que passou em branco. Muito do que se imaginava em relação as teorias foi provado aqui, algo plantado lá no episódio 4 (aquele que nos mostrou a odisseia sombria de James Delos em um corpo artificial). Parece que Robert Ford (Anthony Hopkins) esteve sempre um passo a frente, e agora, investigaremos o jogo do ponto de vista da grande mente por trás disso tudo.

Teddy em nova versão

A versão 2.0 de Teddy (James Marsden) se tornou interessante por dois aspectos. A primeira é ver toda a agressividade nunca antes vista no personagem, com uma programação inicialmente pacífica. Teddy agora é capaz de executar a sangue frio e entrega uma arma para que alguém se mate como um gesto de piedade. É o que de mais bondoso restou nele.

O outro ponto a ser observado é o caráter de sua agressividade, que não é totalmente alheio ao seu antigo comportamento. Teddy sabe exatamente o quão diferente ele era, e os motivos pelos quais se tornou assim. Prova disso é quando ele conversa com Dolores sobre sair do parque: “Eu nunca pensei que fosse querer ir embora, mas suponho que você tenha consertado isso também”.

É interessante notar, também, a forma como Dolores tem agido para alcançar seus objetivos. Os fins justificam os meios para ela. Ela deseja vingança e liberdade, nem que para isso, precise fazer com que Teddy sirva aos seus interesses, negando isso a ele. A julgar pela forma como ela o modificou, isso pode implicar, inclusive, em tensões entre os dois, com consequências agressivas. Além de ser o oposto em relação ao arco de Marve.

westworld-2x06-maeve

Maeve e sua filha: o anticlímax

Desde que Clementine foi retirada do parque para ser substituída, ainda na primeira temporada, começamos a ter ideia de que os anfitriões funcionam como atores, que podem encarnar diversos personagens. Como a própria Maeve, que em sua narrativa anterior não era cafetina, e Angela, que agora se rebela com Dolores e antes era a recepcionista que recebeu William em Westworld pela primeira vez.

Com isso, já era de se supor que a chegada de Maeve em sua antiga casa, uma pradaria, poderia apresentar alguns cenários: sua filha morta pela Nação Fantasma, desaparecida ou viva. Mas com uma nova mãe em seu antigo papel. Com isso, a carga dramática e o peso do encontro parece ter sido um pouco diluído. A surpresa, no entanto, ficou por conta da atitude dos indígenas, querendo ajuda para a sua causa, e não atacar.

No entanto, Westworld sempre estabelece algum ponto contraditório no caráter de seus personagens, e aqui não é diferente. A dor da perda que Maeve sente é a mesma que ela imputa a “atual mãe” de sua filha. Isso a torna, inclusive, identificável com ela, pelo seu pleno desenvolvimento de consciência. Essa ambiguidade se torna interessante, assim como gestos de humanidade – mesmo que programados – que parecem mais reais e afetuosos que os das próprias pessoas de carne e osso. A tentativa de buscar essa emoção essencialmente humana, ainda que saibamos ser algo artificial (como o ritual de Akane), tem sido um ponto em que vemos esse contraponto entre real e artificial.

Também é importante observar Lee Sizemore (Simon Quarteman), quando ele se sente seguro para buscar socorro. A essa altura, vemos o roteirista do parque engajado com Maeve, que reconhece sua ajuda com um agradecimento. Mas ele nos ajuda também a colocar um pé na realidade, quando afirma não querer ficar entre flechas voando. E ele não está errado, a propósito. A essa altura do campeonato, você faria diferente?

Homem de Preto humanizado

É inegável: a melhor cena de Phase Space foi proporcionada por Ed Harris e Katja Herbers. O reencontro entre o Homem de Preto e Emily/Grace foi repleto de culpa, emoção e sinceridade. Mas, antes disso, um momento de paranoia ilustrou bem o momento dos personagens no parque. William mal pode acreditar que sua filha não era humana e chegou a achar que estava falando com Ford.

O momento entre os dois também serviu para mostrar que a jornada do MIB não se trata apenas de uma busca pessoal. Se pararmos para pensar, nesse momento, se compararmos a Dolores e ao que a Delos está fazendo, ele já não é mais o vilão da história. Não há nada de muito heróico nas atitudes do personagem, mas os humanos, nesse momento, não correm nenhum perigo pelas mãos de William.

Dr. Ford na nuvem!

Não houve arco mais expositivo, em termos de diálogo, quanto o de Bernard. O que representa um alívio, pois essa é a jornada mais confusa até então. Agora as peças estão devidamente alinhadas: há um mega servidor chamado de “O Berço”, que abriga as narrativas dos anfitriões e simula as narrativas. Tudo o que Bernard fez, eté então, se tratou disso: após a festa de despedida, a consciência de Ford foi colocada em uma daquelas bolas vermelhas e foi para o servidor. Os andróides bancos eoiminaram os humanos para encobrir.

Isso dá sentido ao bloqueio que os técnicos tem para acessar o centro de controle do parque, assim como as falas direcionadas a William. A julgar pela experiência híbrida de James Delos, isso não quer dizer que Ford volte a ter um corpo. Porém, por se tratar de alguém que está sempre um passo a frente, nada pode ser descartado.

Últimas palavras

* Peter Abernathy foi preso com os parafusos reais e isso foi bem chocante, mesmo para um robô.

* Não foi um bom dia para Stubbs: além de ser humilhado por Charlotte, ele ainda precisou aturar o novo responsável pela segurança, Coughlin, lhe chamando ironicamente de  Ashley, nome que é mais comum ser associado ao gênero feminino.

* A cena de abertura revive novamente uma conversa entre Dolores e Bernard, na qual ele se diz assustado com o que ela pode se tornar, o que descobrimos ser, depois, um teste que a própria Dolores realiza com ele. Passado, futuro ou presente? Façam suas apostas.

* Não haveria lugar melhor para Ford aparecer do que no piano. Note que, quando as coisas começaram a perder o controle no parque, já não havia mais ninguém tocando. Ford, ali, simboliza o controle exato da situação, que ele possui nesse momento.

* De uma participação pequena a um dos melhores personagens da segunda temporada, Lee Sizemore, tem tido uma jornada pitoresca em Westworld. Como ele fica engraçado naquela roupa de fazendeiro.

Confira as análises dos episódios anteriores clicando aqui.

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...