Crítica | Westworld 2×05: Sejam bem-vindos ao Shogun World em ‘Akane No Mai’

Desde o primeiro vislumbre, ainda na temporada passada, o Shogun World era uma atração aguardada com ansiedade pela audiência de Westworld. Akane No Mai é praticamente uma aventura solo de Maeve (Thandie Newton), pelo Japão Edo Feudal. Mas ao contrário do que poderia se imaginar, coisas importantes acontecem fora do parque japonês, neste que foi o episódio mais linear dessa temporada, até aqui.

A direção de Craig Zobel é bastante cuidadosa ao explorar a relação entre os anfitriões que já conhecíamos e seus doppelbots. Há momentos bastante inspirados, que combinam uma ação visceral e fluida, e ao mesmo tempo, cenas dramáticas que exigem um trabalho muito competente dos atores, em especial a indicada ao Oscar Rinko Kikuchi, no papel de Akane, e Thandie Newton, que silenciosamente proporcionam uma das cenas mais belas dessa temporada, questionando o que é se real e o senso de maternidade.

O episódio não deixa de ser uma homenagem ao cinema de Akira Kurosawa, de quem o co-criador Jonathan Nolan é fã confesso. Mas há uma personalidade própria em Akane No Mai, que é capaz de combinar as belas paisagens e recriações dos ambientes (ponto para a direção de arte) de um parque temático estereotipado, com a real impressão que devemos ter do show: uma mistura de realidade e sentimentos de confusão em relação à artificialidade, que coloca emoções e as tensões a flor da pele.

O roteiro de Dan Dietz nos leva para essa viagem de maneira hábil, sem nos desconectar do que acontece lá fora, em Sweetwater ou no presente. Afinal de contas, nessa temporada os showrunners optaram em contar uma história de maneira que conhecemos o destino (ou parte dele), mas não a viagem. Dietz não se desvia do foco do episódio, que é a plenitude de Maeve alcançando mais um patamar (agora ela controla os hosts “via Wi-Fi” e isso é muito badass) e a relação entre ela e Akane. Porém, ele guarda a maior revelação para o arco de Dolores (Evan Rachel Wood), que rima exatamente com o tema que vemos em destaque no parque japonês: a definição de liberdade.

Bernard conduz a montagem do quebra-cabeças

Cada vez fica mais evidente que a confusão de Bernard (Jeffrey Wright) é exatamente o ponto de vista que a segunda temporada quer propor para o nosso entendimento da história, contada nessa temporada de Westworld. Ao passo em que as peças vão se agrupando, começamos a compreender alguns fatos, como o corpo de Teddy (James Mardsen) boiando na água, no primeiro episódio.

Um terço dos anfitriões estão sem qualquer tipo de dados ou backup. É mais ou menos o que já se esperava, como parte de um plano que Dolores teria arquitetado. Ir para “A Mesa” é um dos objetivos. O rebanho contaminado não passava de uma metáfora para uma distração. Mas não é somente isso, logicamente. O enigmático olhar que Bernard lança para Teddy é uma prova dessa afirmação.

Shogun World: um pé na ficção e outro na realidade

Muito há para se dizer sobre o Shogun World. No entanto, a recriação oriental da narrativa do velho oeste americano nos faz colocar um pé na realidade a todo instante, como fora explorado de forma mais incisiva na primeira temporada. Prova disso são os doppelgangers (anfitriões semelhantes que prefiro chamar doppelbots) dos personagens que já conhecemos. O Ronin Musashi (Hiroyuki Sanada) e o bandido Hector (Rodrigo Santoro) são os fora da lei; Akane e Maeve, gueixa e cafetina, respectivamente. Sakura (Kiki Sukezane) e Clementine (Angela Sarafyan); Armistice (Ingrid Bolsø Berdal) e Hanaryo (Tao Okamoto); e até a música “Paint it Black”, dos Rolling Stones, ganharam uma versão semelhante.

No entanto, a visão empresarial a Delos é sempre enfatizada, à medida em que, no mesmo episódio, vemos ninjas, samurais e ronins. Figuras emblemáticas de épocas distintas, eles nos mostram que a natureza do parque é proporcionar o melhor da experiência (e prazeres violentos) para seus visitantes, e não retratar fielmente um período histórico. Outro momento incrível é quando o roteiro também justifica, através de Lee Sizemore (Simon Quarterman), uma possível falta de criatividade. “Tente escrever mais de 300 histórias em três semanas!”, diz o roteirista do parque.

Esse conceito apresentado também abre margem para especularmos possíveis narrativas de outros parques, como o The Haj e os demais, ainda não mostrados. Isso pode ser importante para Maeve libertar outros semelhantes, se a série explorar, ainda nessa temporada, pelo menos um dos outros três parques que existem. Westworld é um mundo cheio de camadas e o revelar de cada uma delas nos dá a sensação de que ainda temos muito para aprender sobre o universo da série. A propósito, como os parques emulam climas totalmente diferentes? Note como a fotografia mais fria do parque japonês contrasta com as cores mais alaranjadas do oeste.

O único furo do roteiro, no que diz respeito ao arco do Japão, é justamente os poderes Jedi de Maeve não sendo utilizados em momentos chave. Os soldados sem orelha foram uma bela sacada do Shogun, interpretado por Massaru Shinozuka. Mas por qual motivo, a não ser criar um momento emocional e catártico, ela não acabou com tudo antes de Sakura ser morta? Também não parece fazer muito sentido que Lee tenha pego um rádio comunicador sem que ela tenha percebido. Logo ela, que agora ganhou uma nova voz, que conversa direto com a programação dos anfitriões. No entanto, um julgamento sobre isso pode ser precipitado, ainda.

Dolores e o caminho inverso da narrativa

O parque temático japonês não foi a única rima visual e narrativa em Akane No Mai. Se nós voltarmos ao começo de tudo, veremos que a relação entre Dolores e Teddy, e o desenvolvimento dos personagens, se tornaram o ponto chave desta noite.

O Teddy de agora – o bom moço – não parece oferecer nada mais do que soluções pacificamente humanas e um futuro tranquilo ao lado de Dolores. Teddy sempre está confuso e apaixonado. Teddy faz sexo com Dolores, em uma bela cena onde, a propósito, nada parece artificial. Mas, se tem algo com o que Teddy não contava era ser violado por ela. Na primeira temporada, vimos narrativa após narrativa, Teddy sendo morto por visitantes, o que fazia parte de sua história ali. Agora ele vai entrar um estado que serve exclusivamente aos propósitos de Dolores.

É interessante notar a cena em que ela o acorda, e dentro do bar, faz a grande revelação do episódio. Na série, conhecemos Dolores deixando cair uma lata, para depois ser arrastada para um celeiro pelo Homem de Preto (Ed Harris), imprimindo mais uma vez uma lembrança violenta em seu banco de dados/memória. Agora, ela é quem pega a lata, e não um visitante ou o cortez Teddy. Ela também escolhe fazer sexo com o cowboy e violentá-lo, mesmo que mentalmente, com ele consciente. Dolores agora é exatamente o oposto do que vimos no primeiro episódio de Westworld. É interessante ver como a série tem promovido essa mudança, tornando a ex-donzela indefesa cada vez mais cinza. Seria justo dizer cada vez mais vilã?

Mas se engana quem acha que Maeve e Dolores estão se tornando apenas antagonistas, uma da outra. Suas jornadas se cruzam, e ao mesmo tempo, se diferenciam, à medida que, cada qual ao seu modo, manipulam os anfitriões para benefício próprio. Se os humanos brincaram de Deus ao criarem o parque, agora os sintéticos são os deuses de Westworld.

Últimas Palavras

* No episódio passado, James Delos serviu como metáfora para alguém preso no inferno. Aqui, mais uma vez a relação entre ciência e religião é levemente evidenciada, quando os japoneses atribuem à Maeve o título de “bruxa”.

* Repare na cena em que o Shogun é morto por Akane. Veja como a dança, carregada de tensão, evidencia que algo está prestes a acontecer, mas a violência gráfica é tamanha que não há como não revirar o olho e se surprender. A expressão de Maeve diz tudo.

* Por falar em violência, imagine como seria o banho de sangue em um parque medieval da Delos. Se nesse episódio já vimos uma mistura de Kill Bill com Game of Thrones

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...