Crítica | ‘Anon’: ficção científica da Netflix usa a tecnologia para falar da falta de privacidade e monitoramento

Durante boa parte dos anos 90, muito se falou sobre inúmeras teorias da conspiração e esse clima de suspeita acabou, naturalmente, refletindo-se na arte. É o que podemos ver nos misteriosos episódios da série “Arquivo-X” e em vários longas metragem como “Inimigo do Estado” e até mesmo na trilogia “Matrix”.

Mas a verdade é que esse sentimento de suspeita, mesmo que não tão evidente quanto nessa época, nunca esfriou de verdade. Sempre houve, por parte do Estado ou dos poderes legislativos, a iniciativa de que as autoridades deveriam ter acesso a todo tipo de informação em torno dos cidadãos, seja em suas chamadas de telefone, e-mails, redes sociais ou seja lá quais outras possíveis plataformas. Essa ideia é aclamada por alguns e repudiada por outros, que defendem que nada pode servir de pretexto para acabar com a privacidade de cada indivíduo.

Se antigamente o medo era de que as ligações telefônicas fossem monitoradas ou que satélites pudessem ser utilizados para vigiar as pessoas, hoje em dia, com o avanço da tecnologia, esses medos ficaram ainda mais expressivos. E é a partir desse pensamento que surge o enredo desse filme.

Produção alemã distribuído pela Netflix, Anon conta uma história que se passa em uma sociedade futurista, onde todo tipo de privacidade foi anulada e as pessoas vivem completamente expostas. A monitoração vai além do que pode ser considerado normal, uma vez que todas as pessoas utilizam o Olho, uma espécie de software ligado 24 horas por dia na rede, instalado cirurgicamente nos globos oculares de cada membro da sociedade.

Por meio do Olho, que é capaz de gravar tudo que uma pessoa vê, todos os indivíduos caminham pelas ruas com scanners oculares repletos de informações em tempo real. Uma tecnologia que a princípio vem para auxiliar no dia a dia das pessoas, acaba por ser uma ferramenta para que o Estado e as organizações poderosas possam saber tudo o que se passa com elas. O crime não existe da mesma maneira como o conhecemos pois tudo está à mostra, então sempre que alguém comete algum tipo de crime, seu próprio olho aciona a polícia e suas memórias (registradas pelo dispositivo) são imediatamente utilizadas como evidências para condená-lo.

Os problemas começam quando um Detetive de Primeira Classe chamado Sal (Clive Owen) se depara com uma misteriosa garota (Amanda Seyfried) que não consta nos registros. Enquanto o investigador, juntamente com os membros do Departamento de Polícia, começa a armar um estratagema para capturá-la, descobre-se que existem hackers capazes de burlar as regras do Olho, fazendo com que os registros não funcionem da maneira correta. Esses hackers são capazes inclusive de alterar registros, invadir o Olho de outros seres humanos e manipular o que eles veem, fazendo com que enxerguem aquilo que o hacker deseja que vejam. É aí que surge um assassino em série que começa a deixar um rastro de corpos por seu caminho.

O longa escrito e dirigido por Andrew Niccol parte de uma premissa repleta de possibilidades interessantes, mas o roteiro não atinge nem de longe todo o potencial que poderia alcançar, assim como a direção. O único personagem a ser de fato razoavelmente desenvolvido é o protagonista, graças a um arco especifico de seu passado que gira em torno de um trauma e arranha explicar o estado deprimido do personagem e seu vício no alcoolismo e relacionamentos fúteis – fato este que, apesar de ser clichê, até que poderia render momentos interessantes, mas acaba por se tornar um tiro no pé quando mal explorado.

Porém, mesmo tendo sido desenvolvido, o personagem não possui carisma suficiente para carregar a trama. Outra possibilidade com bastante potencial, mas que é grandemente desperdiçada no longa, gira em torno da hacker interpretada por Seyfried. A atriz até que se esforça, mas o roteiro não sabe como desenvolver sua personagem – podemos dizer até que ele nem tenta fazê-lo – apesar da criação do início de uma aura de mistério ao redor dela.

Anon não chega a ser um filme ruim, mas o longa tem bastante potencial desperdiçado. A trilha sonora é muito boa, mas a edição e a mixagem de som são muito pobres. Há momentos em que o expectador mentalmente pede para que os sons sejam melhor desenvolvidos, mas o que é entregue é bastante insatisfatório.

Outro fator a ser comentado é o recurso narrativo de utilizar o ponto de vista de quem está utilizando o Olho. Quando a história é narrada em terceira pessoa e vemos os personagens, o formato da dela é em wildscreen, com as bordas escuras nos cantos da tela, mas quando vemos em primeira pessoa, sob o ponto de vista dos personagens, a tela toda é aberta e enxergamos com os olhos do Olho, repleto de informações fornecidas pelo software. Nas primeiras cenas, o uso desse artifício realmente serve para conduzir o expectador e fazer com que ele compreenda como funciona aquela realidade, porém, nos deparamos novamente com mais uma falha da direção, pois ela acaba por utilizar desse recurso desenfreadamente. Chega a um ponto em que o expectador agradece quando ele para de ser usado, graças ao incômodo que é ter a narrativa interrompida com isso.

Porém, há elementos verdadeiramente elogiáveis no longa. Dentre eles podemos destacar obviamente o tema abordado e a premissa original – que não chega a ser tão original assim, mas a forma como é abordada é de fato, original – assim como questões que são levantadas durante a película que, apesar de não serem respondidas, acrescentam à história. Não se pode deixar de comentar as cenas de ação finais, mesmo com um final não tão interessante e que não faz jus ao tempo que foi gasto sendo preparado.

A Fotografia de Anon é bastante desbotada e com tons frios, além de a câmera sempre captar ângulos bastante retos e duros, assim como essa sociedade regida por mãos de ferro e olhos sempre vigilantes. De uma forma geral, a frieza desse mundo também pode ser considerada um ponto positivo para a direção do filme. Em uma sociedade em que as pessoas são vigiadas o tempo todo, a vida acaba por perder a emoção, tudo vira algo regido por regras e assim, a vida perde a graça.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...