Crítica | 3%: 2ª temporada amplia o universo da série

Primeira série brasileira da Netflix, 3% teve seu lançamento pontuado por um público bastante ambíguo, sendo bastante criticada por alguns e muito elogiada por outros, inclusive ganhando bastantes fãs fora do país. Esse relativo sucesso foi suficiente para garantir uma segunda temporada que, apesar de ainda conter alguns dos defeitos da temporada de lançamento, acaba por se mostrar uma série com significativo potencial.

3% se ambienta em um futuro distópico, composto por uma sociedade que não existe sob os mesmos parâmetros nos quais vivemos hoje. Nessa sociedade, existem basicamente dois cenários distintos. O primeiro, com uma ampla comunidade fracassada onde os recursos naturais são extremamente escassos e as pessoas sobrevivem na miséria e com toda a sorte de necessidades, chamado de Continente (uma vez que abriga a maior parte do mundo) e onde vive a grande maioria da população.

O segundo cenário, conhecido como Maralto, é um paraíso de riquezas, tecnologia e vida confortável, onde apenas 3% da população vive, uma pequena parcela de privilegiados em uma sociedade isolada. Todos os anos acontece um importante evento, chamado Processo, onde todos os jovens que acabaram de completar 20 anos de idade se reúnem em uma base de operações organizada por membros do Maralto para realizar uma série de competições, até que apenas os melhores – os 3% – sejam selecionados para se tornarem os novos moradores do paraíso.

Em contraposição ao Processo, existe a Causa, que é um grupo de pessoas motivadas a acabar com o Processo em prol da defesa dos 97% dos menos privilegiados. Nesse contexto,  conhecemos os protagonistas que estão dentre o grupo de candidatos do Processo, cada um com seu próprio arco de personagem.

3% – 2ª temporada. Pedro Saad/Netflix

Segunda temporada amplia o universo da série

Na segunda temporada, vemos o desfecho desses personagens principais, mas também observamos muito mais que isso. Agora podemos conhecer com mais propriedade o passado dos dois grupos; sejam relacionados aos eventos que deram início ao Maralto ou a acontecimentos importantes do passado da Causa.

Se na primeira temporada, temos como heróis os membros da Causa e os organizadores do Processo e do Maralto como vilões, nessa segunda temporada começamos a perceber que não há verdadeiramente heróis ou vilões. Mesmo no Maralto, há aqueles com pensamentos e ideais altruístas, assim como até mesmo na Causa pode-se encontrar membros fanáticos, dispostos a sacrificar inocentes em prol de seus objetivos. Mas se há uma coisa em comum em ambas as facções é que as duas se apoiam em mentiras e desinformações para se sustentar e manter seus adeptos.

Se na primeira temporada acompanhávamos a rotina dos jovens enfrentando os desafios do Processo em favor de uma vida melhor, agora acompanhamos as maquinações dos integrantes do Maralto contra as maquinações dos membros da Causa. A todo momento somos levados a observar, ora sob o ponto de vista das pessoas do Continente, ora sob o ponto de vista de quem vive no Mar Alto. E agora a guerra está declarada.

3% – 2ª temporada. Pedro Saad/Netflix

O grande problema da série está na ingenuidade de seus realizadores no que se diz respeito em sustentar os bons momentos que ela cria. De uma maneira geral, nem todos os diálogos são bem escritos; há momentos em que a suspensão da descrença fica bastante abalada, uma vez que os personagens simplesmente não parecem viver uma situação real. Percebe-se o esforço realizado pelos talentosos atores, mas com falas mal escritas, acabam por se mostrar impossibilitados de entregar o seu melhor. Podemos usar como exemplo um momento em que alguns personagens estão em uma situação bastante tensa e desesperadora e gastam tempo fazendo brincadeirinhas que não se encaixam com o contexto.

Existe também uma ingenuidade ao escrever os monólogos de alguns personagens. São momentos sutis, mas sob o ponto de vista cinematográfico, a dramaturgia se mostra muitas vezes pensada para o palco e não para a TV ou cinema, característica bastante marcante nas obras audiovisuais que surgiram ao longo dos anos no Brasil. Porém, estes pequenos problemas não tiram o brilho da série.

O elenco está razoavelmente bem alinhado, porém, a trama acaba por perder o foco em muitos momentos. A primeira vista pode-se se dizer que isso se deva ao fato de os personagens não conseguirem dar vasão aos seus planos por causa da falta de comunicação entre os que estão no Maralto com os que estão no Continente, mas isso na verdade é um fator que muito enriquece a trama, uma vez que torna a situação verossímil. Se os personagens possuem grandes dificuldades para se comunicar é natural que essas dificuldades acabem por criar dificuldades em seus objetivos.

3% – 2ª temporada. Pedro Saad/Netflix

O problema, porém, pode ser visto no desenvolvimento dos personagens e suas motivações. O que move um personagem é o que o torna humano e, portanto, o que nos aproxima dele e cria empatia. Mas em 3% existem personagens cujos arcos são extremamente confusos e o personagem muda de lado como quem muda de roupa. Outro fator que incomoda são os planos fechados para dar a impressão de que alo grandioso está acontecendo, mas que deixam claro que não passa de uma maquiagem para disfarçar a falta de recursos. Esse mesmo problema pode ser visto nas coreografias de luta pouquíssimo inspiradas, algumas até beirando o ridículo.

No entanto, apesar dos problemas, 3% é uma série que vale a pena ser vista por aqueles que procuram por uma produção nacional decente e uma série com trama acirrada e críticas sociais.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...