Crítica | Westworld 2×02: ‘Reunion’ nos leva ao começo de tudo

Que tal começarmos pelo início? A intrigante e sucinta sinopse do episódio Reunion não poderia ser mais literal. Com a intenção mostrar eventos do passado que terão consequências em um futuro que é o nosso presente, Westworld caminha para o deslanchar da liberdade de seus anfitriões de forma lenta e gradual.

O episódio deixa de lado os eventos do presente pós-inundação. Aquela última imagem dos anfitriões boiando na água ainda vai repercutir muito, mas por hora, ficamos com os eventos que seguem diretamente a linha temporal em que Dolores, Maeve e William seguem as suas jornadas, com as consequências imediatas da rebelião. Além é claro, dos flashbacks que remontam a criação do parque e a chegada da Delos. Reunion é de fato um agrupamento de diversos momentos que nos ajudam a compreender esse emaranhado de informações difusas, onde nada mais nada menos do que quatro linhas temporais são expostas.

De cara, o episódio abre com uma análise feita por Arnold sobre Dolores, no mundo exterior. Essa é a primeira visão que temos do mundo real, e realmente ele se parece bastante com o nosso. Quer dizer, não há nada muito futurista no visual. Em uma outra análise mais profunda, este poderia ser um local dentro do próprio complexo de parques. As placas em chinês quando vemos os dois saírem do apartamento em que estavam são um indício de que a ilha da Delos fica em algum lugar no Pacífico. A frase que Arnold diz  a Dolores sugere isso: “Minha mulher diz que eu moro no parque. Estou trazendo a minha família para cá. Preciso ter meus dois mundos mais perto um do outro.”

É interessante notar também como Arnold mantém uma visão indiferente do mundo, aparentemente cansado. Para ele, as luzes da cidade, tão admirada por Dolores, não querem dizer nada. “Depois de um tempo você acaba se acostumando e não acha nada demais”. É interessante como a direção de Vincenzo Natali captura os mínimos detalhes desse diálogo entre os dois. O simples trejeito que ele tem ao limpar os óculos enquanto eles falam sobre enxergar a beleza em algo é um interessante uso da linguagem para evidenciar os cuidados que a série possui em tudo que mostra.

 “Parece que as estrelas foram espalhadas pelo chão. Você já viu algo tão cheio de esplendor? ” Dolores Albernathy

A busca pela perfeição que ecoa no futuro, com o desenvolvimento dos anfitriões, também é expressa por ele claramente aqui. Quando dolores repete a frase destacada acima, repetindo um padrão, ele fica claramente frustrado, caindo em si sobre a condição de pessoa sintética que ela é. E isso viria a ser discutido mais vezes no episódio.

Essa também é uma época pré-Delos. Robert Ford e seu parceiro ainda buscavam investimentos para o parque, tanto é que Arnold insistiu para que Dolores não fosse até aquela festa em que, mais tarde, vimos Angela. Essa festa, ou melhor, o coquetel, é uma das melhores sequências de Reunion.

Pela primeira vez em toda a série, é possível ver uma reação que provavelmente eu e você teríamos caso tivéssemos visto o que Logan viu. Ele fica alucinado com o fato de todos na festa serem anfitriões. A propósito, já sabíamos desde a primeira temporada que Logan era uma pessoa importante no parque. Agora descobrimos que ele é filho de James Delos, dono da Delos Incorporated, que depois assumiria o controle completo de Westworld. O que nos leva a crer que isso se passa antes da visita que eles fazem ao parque, no episódio 2 da primeira temporada, Chestnut.

Um ponto interessante que define bem a personalidade e os prazeres que Westworld vão proporcionar as pessoas é o teste que Logan decide fazer. Subitamente, ainda encantado com o que acaba de ver, ele faz sexo com Angela e é conquistado de vez pelo investimento.

Outro dado bastante curioso sobre Angela é o fato de que, ao contrário de todos os outros, a anfitriã sabe muito bem quem ela é. No coquetel, ela diz que os anfitriões estão ali para servir. No parque, é ela quem recepciona os hóspedes. O que será que a levou para a narrativa mais recente, em que aparece ao lado de Dolores? Será que essa inteligência a mais será um diferencial para ela? A conferir.

Depois do impacto inicial, é importante não se perder na ordem dos fatos, que são propositalmente dispostos de maneira confusa. Esse coquetel que apresenta os anfitriões é na verdade um prólogo da chegada de Logan e William ao parque pela primeira vez, na temporada 1. É bom lembrar que Will abandona Logan nú em um cavalo no episódio The Bicameral Mind e a cena em que vemos ele chegando no parque de helicóptero, tentando convencer o sogro a investir mais no parque, acontece já depois de sua experiência. Não sabemos ainda o que aconteceu a Logan mas é provável que isso ainda seja revelado.

A partir de então começamos a ver como a experiência no parque afetou William, ao ponto dele começar a sua transição para o Homem de Preto que conhecemos hoje. Jimmi Simpson entrega uma ótima atuação, por sinal, dando os primeiros traços de personalidade que Ed Harris nos mostra na linha do tempo atual.

Você é apenas uma coisa, Dolores

A festa que marca a aposentadoria de James e coloca William no comando da Delos é por si só um motivo de curiosidade. Afinal de contas, o que fez com que o pai de Logan colocar não o filho, mas o genro nessa posição? Será que a experiência pós-parque influenciou isso de forma decisiva? Outro fato importante é a forma como ele trata Dolores um tempo depois, a sós, onde se supõe serem os bastidores de Westworld. Agora vem a grande deixa:

“Você é apenas uma coisa. Não acredito que me apaixonei por você. Sabe o que me salvou? Percebi que isso não aconteceu por sua culpa. Você não fez eu me interessar por você, mas por mim. Acontece que você nem é uma coisa. É um reflexo. E sabe quem adora olhar para o seu próprio reflexo? Todo mundo. Todo mundo quer um pouco do que encontrei aqui. E não vejo a hora de usar você e os da sua espécie para dar isso a eles. Mas tem mais uma coisa. Existe algo além disso. Eu acho que há uma resposta aqui para uma pergunta que ninguém sonhou fazer. Você quer ver?”

O que acontece mais tarde é um dos momentos mais intrigantes dessa temporada, até aqui. William leva Dolores até um local isolado, que está sendo construído com algumas retroescavadeiras. “Você já viu algo com tamanho esplendor?”, é a pergunta que ele faz a ela. Mas se não nos distraímos com o tal esplendor repetido por ela  lá no começo, podemos assumir que a tal arma mencionada mais tarde por Dolores a Teddy seja aquele lugar: “um amigo foi tolo bastante para me mostrar, há muito tempo. Não é um lugar, é uma arma. E vou usá-la para destruí-los”.

Direções opostas

Dando sequência aos eventos da rebelião, Maeve e Dolores assumem posições distintas. Enquanto a personagem de Thandie Newton vai em busca de sua filha, a anfitriã vivida por Evan Rachel Wood só quer vingança. Em direções opostas, é interessante notar que ambas estão no comando de suas histórias. Mas não é possível descartar que ainda haja uma última narrativa. Ou você duvidaria de Ford?

Fato é que as duas personagens mantêm traumas terríveis de seus passados. Ambas são anfitriãs antigas (assim como Angela) e agora, partindo em busca de suas jornadas, discutem um interessante conceito de liberdade. No meio de tudo isso, Teddy segue fielmente Dolores, assim como Hector segue os passos de Maeve. Ambas tem em seu poder um humano. Elas serão parte importante do show, não tenham dúvida. Mas uma jornada que parecia ser a menos interessante de todas deve se tornar mais interessante.

De volta ao jogo, agora é curioso vermos Lawrence novamente. Isso faz com que mais uma dupla hóspede/anfitrião seja formada. Mas legal ainda é vermos Gus Fring, ou melhor, Giancarlo Esposito como El Lazo. Por que ele não chegou antes? No mais, a programação feita por Ford não deixa dúvidas sobre a natureza desse jogo para William: ele terá que se virar sozinho. E que cena foi aquela!

 Ligando as pontas: o lugar do julgamento é a arma

Quando deixa Pariah com Lawrence, o Homem de Preto diz ao anfitrião que Robert não construiu o lugar do julgamento. “Não Lawrence, ele não tem essa honra. Eu o construí. E o lugar para onde estamos indo é o meu maior erro”.

Ao contrário do Homem de Preto, Dolores está formando um exército de confederados, rumo ao mesmo local mencionado por William. Ambos estão indo para o mesmo local. Enquanto ela quer usar o lugar/arma para destruir os humanos, o Homem de Preto quer destruir o que ele mesmo criou para impedir isso. Chegamos ao ponto em que se desenha um grande combate entre os dois. Basta agora desvendarmos onde o projeto secreto da Delos se encaixa nisso.

Além da vantagem numérica de Dolores, pesa contra William o fato de que o seu jogo está no modo hard, como ele sempre quis. Maldito seja Ford, para ele.

Últimas palavras

* Na primeira temporada, fica definido que as memórias dos anfitriões nada mais são do que um imenso banco de dados. Cada vez mais plena, Dolores agora consegue se lembrar de muitas coisas. Uma delas é quando diz a um dos sobreviventes que conhece exatamente o que tem no mundo exterior.

* William leva Dolores para o parque e vê uma máquina de terraplanagem e algum tipo não identificado de construção. Não deixa de ser intrigante o que aquilo é, assim como a mesma frase dita por ela no início do episódio.

* O roteiro do episódio, escrito por Jonathan Nolan e Carly Wray, não deixa nenhuma frase sem sentido. “Quer saber o que eles estão comemorando de verdade ali? Esse é o som dos tolos, brincando…enquanto toda a espécie começa a queimar. A parte mais engraçada é que eles acenderam o fósforo”, é o que Logan diz a Dolores em um prenúncio do que viria a acontecer no futuro.

* Ainda sobre William, repare como ela fala para o sogro, James Delos, aguardar mais um pouco. Ao que parece, ele não possui muito tempo de vida. Será que isso tem a ver com as teorias de transferência de consciência naquele laboratório secreto da Delos? Ok, vamos parar por aqui.

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...