Crítica | Estrelas de Cinema Nunca Morrem

Quando o roteiro de uma biografia vai para a telona, ficamos curiosos em descobrir a visão dos produtores e roteiristas ao retratar tais pessoas. É algo bastante complicado escolher os atores desse tipo de montagem, já que ou eles precisam ser bem parecidos com os verdadeiros, ou é necessária uma boa equipe de maquiagem. Além disso, os atores/atrizes que forem desempenhar tais papeis, precisam alcançar estados emocionais que de certa forma lembrem também aquelas pessoas.

Muitos desses filmes falham em reproduzir a vida do biografado e muitos acertam, como foi o caso de O Destino de uma Nação, que rendeu o Oscar de melhor ator para Gary Oldman. Em Estrelas de Cinema não Morrem (Film Stars Don’t Die in Liverpool)  houve um belo acerto ao contar a história de Gloria Grahame, que foi interpretada brilhantemente por Annette Benning.

O longa reproduz a história de Gloria Graham, uma atriz americana de sucesso da década de 40 e 50, vencedora do Oscar em 1953 pelo filme “Assim está Escrito”, e que se apaixona por um jovem ator britânico, Peter Turner (Jamie Bell), mas que vê sua vida definhando por uma doença fatal.

O roteiro de Matt Greenhalgh é melancólico durante grande parte do filme. Junto com a fotográfica magnífica de Urszula Pontikos, o clima tristonho e denso envolve as personagens, criando uma atmosfera pesada, e por ser uma história amorosa, mesmo que nos cativemos pelo relacionamento dos protagonistas, ficamos receosos de que a qualquer momento pode acontecer uma tragédia.

A direção de Paul Mcguigan é simples e um pouco arriscada. Isso porque parece que a qualquer momento ele pode errar em uma escolha. O ritmo lento que se desenrola a trama é propício ao erro e a dispersão. Mas Mcguigan não tropeça! Ele concatena as cenas de forma bem criativa e emocionante. Dosa bem o humor, e deixa a elegância dos atores e da fotografia brilharem na tela.

Mas, o grande acerto deste longa são os protagonistas. Vemos vários casais que não dão certo nas telonas, e quando se trata de uma triz bem mais velha e um ator bem mais novo, corre um fio de medo e insegurança que arrepia nossa espinha. Mas é incrível a sintonia entre Annette e Jamie. Os dois estão em brasas! Apaixonados! Amorosos! E brigam como um casal, se beijam como um casal, dormem como um casal, apesar de toda a diferença de idade.

O personagem de Jamie, Peter, é o “Romeu”, sonhador, apaixonado, romântico. Mas ele constrói o personagem com sutis nuances, e ajudado pelo inverno inglês, que retém suas investidas mais calorosas, o ator não sai do ponto.

Já Annette é inegavelmente brilhante no papel de Gloria. A “Julieta” que luta contra a morte, contra a família  e contra os padrões. Orgulhosa, impetuosa e amorosa, perdida nas linhas de suas rugas que intensificam a cada dia que passa. O drama de qualquer atriz, que um dia foi dotada de beleza e juventude, e que agora vê a realidade dos anos ao se olhar no espelho. Uma Julieta com cabelos brancos. Linda de se ver.

Estrelas de Cinema Nunca Morrem atrai o público mais afeiçoado a romances. Mas as performances construídas no filme com certeza agradarão o público em geral.

Joel Tavares

Viciado em filmes, séries, teatro e chocolate. Se apaixonou pelo cinema quando era apenas um garotinho e viu Jurrasic Park na telona em inglês. Não entendeu uma palavra, mas os dinossauros eram demais