Crítica | La Casa de Papel: 2ª parte mantém clima de novela e investe em suspense, ação e reviravoltas

A primeira parte de La Casa de Papel – segmentos divididos em partes e não em temporadas, uma vez que a série foi criada originalmente em um formato maior, mas fragmentada pela Netflix para caber em duas temporadas – tinha como premissa uma sequência baseada no plano no Professor (Álvaro Morte) e as artimanhas realizadas por seus comparsas, sempre sob a perseguição da Polícia, com um ar de gato e rato. Já a segunda parte não se mantém sob esse prisma, e adota uma estratégia diferente, fazendo sua trama evoluir para algo original e diferente da maioria dos thrillers nesse segmento, apesar de também apresentar referências de outras obras cultuadas nesse meio.

A primeira metade termina com um cliffhanger bastante curioso, nos levando a pensar que o aparentemente infalível plano do Professor não era tão infalível assim, quando a Polícia encontra o esconderijo e base de operações do grupo de assaltantes. Porém, isso acaba por se revelar como mais uma das trapaças do protagonista, que se mantém sempre a dois passos na frente das autoridades.

De fato, fica claro que o Professor realmente pensou e calculou todas as variáveis possíveis, tramando um plano à prova de falhas. Ou pelo menos, quase tudo. O que ele não havia planejado – e esse provavelmente é um dos maiores trunfos da série – é o fato de que começaria a nutrir sentimentos por sua rival, a inspetora Raquel (Itziar Ituño) e isso é o que pode colocar todo o plano a perder. Ou, por incrível que pareça, fazê-lo funcionar plenamente.

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A segunda parte de La Casa de Papel explora inúmeras possibilidades do que pode acontecer em um assalto dessa magnitude. Dessa vez, com mais de 60 horas de assalto, os assaltantes começam a mostrar sinais de extremo esgotamento físico e mental. As emoções nunca estiveram tão à flor da pele como estão agora e esses sentimentos funcionam como uma bomba relógio, dando a impressão de que a qualquer momento tudo irá desmoronar.

Se sentimos culpa por nos envolver emocionalmente com os criminosos a ponto de torcer para que eles sejam bem-sucedidos no assalto na primeira parte da série, na segunda nos envolvemos ainda mais, chegando a nos importarmos com suas relações pessoais e até mesmo a sofrer nos momentos em que eles sofrem.

La Casa de Papel – 2ª parte aposta em situações ainda mais extremas do que as vistas na primeira. Nesse segmento, vemos personagens sendo capturados pela Polícia (o que nos dá a impressão de que tais personagens estão literalmente “fora do jogo”) e inclusive a morte de personagens extremamente cativantes – gerando assim, sem dúvida, o momento mais emocionante de toda a série -, além do desenvolvimento do romance entre o protagonista (Professor) e sua antagonista (Raquel). Essa é uma série com uma atmosfera de novela, mas que se mantém bem como uma narrativa de suspense e ação, com grandes reviravoltas.

Uma vez definido o tom da série, é lícito e notório que se faça uma comparação com outra produção bastante parecida. Em Prision Break, uma série policial que fez bastante sucesso anos atrás, seguimos o plano mirabolante do personagem Michael Scofield, assim como seguimos o plano do Professor em La Casa de Papel. O curioso é que na série espanhola, o Professor se apaixona por Raquel, assim como Michael se apaixona por Sara, a enfermeira da prisão que ele quer fugir. Nas duas séries, essa paixão arrisca o sucesso do plano e ao mesmo tempo garante que ele funcione.

A segunda parte de La Casa de Papel mantém sua belíssima qualidade no que se diz respeito ao visual. A Direção de Fotografia enche os olhos com seus ângulos retos, mostrando a arquitetura grandiosa da Casa da Moeda. Ela também trabalha com maestria os tons verdes em contraposição com os tons vermelhos dos trajes dos assaltantes. Quanto aos atores, estão todos bem, mas mesmo com as cenas radicais de Tokio (Úrsula Corberó), os personagens que mais se destacam quanto ao potencial de atuação são os personagens do Professor e de Berlim (Pedro Alonso). Sem dúvida, esses são os atores cujos personagens protagonizam as cenas mais impressionantes em todos os episódios.

Porém, La Casa de Papel não é perfeita. Há momentos em que o enredo pesa a mão e cria situações que fazem balançar a suspensão da descrença, como por exemplo a cena em que uma personagem cruza um pátio inteiro pilotando uma moto no meio de uma multidão de policiais de elite, e não é alvejada por nenhum tiro. Outro personagem – cuja carga dramática causada por sua morte seria mais impactante e portanto, mais conveniente para a narrativa – que estava posicionado em um terreno mais protegido é alvejado por três disparos.

Pode-se questionar também o fato de uma personagem mudar seus conceitos e trocar de lado em um tempo bastante curto. Em questão de um diálogo ou dois, vemos o caráter de uma pessoa mudar completamente. Tudo bem que esses conceitos estavam sendo questionados já havia algum tempo, mas é incômodo ver na mesma cena ela mordendo a mão de seu antagonista e no momento seguinte, beijando-o apaixonadamente.

Podemos argumentar também o final. Para os dois personagens centrais da trama principal, de fato, o fim é bem desenvolvido, inclusive com uma cena final bastante poética que fecha as pontas soltas, porém, o desfecho de todos os demais personagens – inclusive o de Tokio, que era a narradora da história, mas que a série parece se esquecer disso, uma vez que ela simplesmente deixa de narrar as cenas e termina como mais um dos personagens secundários – é solto e deixado em aberto, para que o expectador possa sugerir o que se passou com cada um deles. Nesse quesito, talvez pudéssemos ser agraciados com cenas finais mais sólidas para cada um dos personagens.

Mas, mesmo essas falhas não chegam a tirar o brilho de La Casa de Papel, que se encerra com a sensação de dever cumprido e uma ótima série, além de nos deixar com a música “Bella Ciao” na cabeça.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...