Crítica | The Walking Dead: 8ª temporada

Depois de uma sétima temporada bastante irregular, o oitavo ano de The Walking Dead ampliou e resolveu o conflito entre Rick (Andrew Lincoln) e Negan (Jeffrey Dean Morgan). A primeira parte da temporada parecia querer mostrar adaptação do arco da guerra total, das HQs, com muita ação, em resposta aos episódios mais cadenciados e focados em um personagem, muitos criticados no ano anterior. O resultado apresentou capítulos mais dinâmicos, porém, muito desorganizados em sua execução.

O equilíbrio parece ter chegado somente a partir da segunda metade, quando a qualidade da temporada aumentou. Contestada pelos fãs, a morte de Carl deu a possibilidade de um novo direcionamento para a série, ainda que o ciclo de desenvolvimento de Rick tenha sido finalizado de forma apressada. Talvez a carta do filho pudesse ser lida por ele um pouco mais cedo, para que sua decisão derradeira pudesse ter maior coerência. A jornada de Negan tornou-se bem mais interessante em termos evolutivos. De líder cultuado, passando pelas traições que sofreu e apresentando novas facetas, o grande vilão da série até então, é um personagem que sem dúvida alguma evoluiu e elevou a qualidade da série quando em cena.

A temporalidade dessa temporada é pequena, comparando aos outros anos da série. Desde o primeiro até o último episódio, pouco tempo se passa, cronologicamente falando. Os acontecimentos cobrem alguns dias, o que ajuda a reforçar o senso de urgência das ações dos personagens. Porém, The Walking Dead ainda possui um grande problema para construir sua narrativa. Não é novidade alguma que 16 episódios por temporada tornaram-se um exagero para contar as histórias que os arcos possuem. Mesmo com a estratégia de pulverizar a temporada em duas, através das midseasons, parece que até mesmo o conjunto de oito possui mais material do que deveria.

Creditos: Gene Page/AMC

Se há personagens que ganharam força e importância para a trama, como Maggie, Dwight, Gabriel, Eugene e até mesmo Simon, outros passaram a ter papéis quase irrelevantes. Nesse momento, Daryl parece deslocado no andamento da historia, fato semelhante ao que vinha acontecendo com Glenn, antes de ser morto. Outros personagens, entre eles Carol e Ezekiel, também estiveram aquém do que poderiam representar. Isso não chega a ser um grande problema, uma vez que o elenco possui muitos nomes. Porém, se há um conjunto tão grande de episódios disponíveis, a divisão deveria tornar substancial a importância de cada um deles.

Durante os acontecimentos da temporada passada, tudo já apontava para um novo vai e vem no inconstante estado emocional de Morgan. Catalisador do crossover entre The Walking Dead e o spin-off Fear The Walking Dead, fica claro no fim do último episódio que sua nova linha de pensamento foi construída, em grande parte, para que fosse justificável a entrada de um personagem de uma série na outra, fazendo esses mundos colidirem. Tal estratégia pode render bons frutos para Fear, que melhorou consideravelmente em seu terceiro ano e com o salto temporal, vai criar novas possibilidades. Porém, esse Morgan “louco” não foi nada do que a gente já não soubesse que ele era, e no final das contas, não acrescentou muito aqui.

Com algumas boas e corajosas decisões, como a já citada morte de Carl e o desfecho do arco de Negan sem que hovesse algum indício de continuação por meio de Cliffhanger (exceto pelo fato da horda gigante indicar, sutilmente, o surgimento dos Sussurradores na série), The Walking Dead ainda peca por apresentar em seus roteiros soluções simples para os problemas. Trazer Oceanside para Alexandria no último episódio, da forma como foi  mostrado, por exemplo, é um recurso preguiçoso para dar fim a uma questão por resolver. Outro exemplo foram os intermináveis tiroteios do início da temporada, sem que houvessem baixas significativas ou objetivos claros.

Creditos: Gene Page/AMC

Por outro lado, a melhora da segunda parte foi auxiliada pelo resgate dos zumbis como ameaça real. O ataque em Hilltop que fez diversas vítimas na calada da noite, trouxe de volta aquela sensação de ameaça constante por parte dos mortos, que cada vez mais estavam sendo mostrados apenas como obstáculos. Em meio aos conflitos entre vivos, essa lembrança do que tornou o mundo pós-apocaliptico o que ele de fato é torna-se importante para revigorar The Walking Dead.

Melhores atores do elenco, Jeffrey Dean Morgan e Andrew Lincoln não decepcionaram em suas atuações. Até mesmo quando o roteiro não os beneficiou, sempre há alguma recompensa em seus tempos de tela. Seus embates deixaram a desejar em termos de coreografia das lutas e organização das cenas. Mas o que diz respeito aos diálogos e interações entre Rick e Negan, tivemos bons momentos. A cena em que Negan quase chora no episódio final, por exemplo, é uma prova da capacidade que Dean Morgan possui para levar seu personagem a um ponto ainda não visto. Por outro lado, Lincoln permanece como um ator que sempre tem muito a oferecer, embora seja bastante subestimado, vale lembrar.

Algumas lacunas ficaram abertas para o próximo ano, como o misterioso helicóptero que Jadis aguardava no lixão, o papel da misteriosa Georgian daqui para frente e o estranho diálogo final entre Maggie, Jesus e Daryl. Ao terminar a temporada da forma como ela se encerrou, The Walking Dead se prepara para um novo momento em que terá uma nova showrunner. Promovido a diretor de conteúdo de obras relacionadas à franquia, Scott M. Gimple dará lugar a Angela Kang, que irá comandar os rumos da produção. Isso pode indicar mudanças no rumo da série, conforme o produtor destacou em uma entrevista recente.

Creditos: Gene Page/AMC

Entre erros e acertos, não seria justo dizer que a oitava temporada de The Walking Dead não tenha o seu valor, sobretudo pelo bom retorno que apresentou em sua segunda metade. É certo que o formato que envolve uma grande quantidade de episódios não vem ajudando, da mesma forma que a essência que alçou a série à popularidade já não exista mais. Porém, passado mais um arco e com uma nova fase no horizonte, quem sabe não possamos ter novos rumos na vindoura nona temporada.

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...