Dica de Terror | A Dark Song

Em outubro de 2017, Steve Rose, crítico de cinema do jornal inglês The Guardian, utilizou o termo “pós-terror” para se referir a uma nova vertente de filmes de gênero, cuja característica principal seria a ausência de sustos fáceis e o estabelecimento de uma atmosfera de tensão e medo.

Contudo, a utilização dessa nomenclatura deixa um pouco a desejar e pode inclusive ser considerada por muitos pensadores da sétima arte como um termo pejorativo e preconceituoso, que diminui as características que compõem filmes de terror, relegando o gênero a apenas um segmento em específico, de natureza estritamente comercial e que já a muito tempo vem arrecadando milhões de bilheteria anualmente. Mas, ao mesmo tempo, o pós-terror tem entregue filmes com pouco conteúdo no que se diz respeito a originalidade, com tramas fracas e histórias repletas de sustos ao estilo jumpscare. Não que o velho e bom jumpscare não seja divertido, mas dando uma atenção especial a filmes que se opõem a esse método já tão saturado.

Filmes que segundo a especificação de Rose, podem ser considerados como pós-terror são exemplificados pelos recentes A Bruxa, Babadook, A Ghost History, Ao Cair da Noite e claro, pelo filme em foco, A Dark Song. Contudo, deve-se evidenciar também que nos filmes de terror mais antigos, jumpscares eram raros, sendo contrapostos por cenas que focavam em construir climas tensos por meio da fotografia e trilha sonora, fato este que. por si só, enfraquece a utilização do termo pós-terror.

Ao contrário do que é sugerido pelos trailers, A Dark Song possui pouco ou nada em matéria de sustos. Para ser objetivo, no primeiro e no segundo ato, poucos eventos podem ser considerados como realmente assustadores. O longa conta a história de Sophia, uma mulher que contata um mago ocultista para que ele a conduza em um sinistro ritual com a finalidade de se comunicar com seu falecido filho. Porém, ao contrário do que essa sinopse possa indicar, esse ritual pouco tem dos sinistros e sangrentos rituais que se vê na maioria dos filmes de terror relacionados a esta temática.

Neste caso, o ritual é composto por uma sequencia de ações realizadas pelos dois personagens – que, é preciso que se diga, estão completamente sozinhos, trancafiados em um casarão localizado em uma propriedade isolada – que, ao longo do filme, começa a despertar na protagonista – e também no expectador que não assistiu aos trailers – uma sensação de que nada de sobrenatural está acontecendo ali, o que não deixa de ser intrigante. E esta é a palavra que define esse filme: intrigante.

O longa dirigido por Liam Gavin possui uma narrativa lenta, mas perturbadora para os expectadores atentos. O ritual que vemos na tela, por se tratar de um ritual real, reforçado pela extensa pesquisa realizada pela produção do filme ao retratar de maneira realista o ritual conhecido como “O Rito de Abramelin”, acaba por criar momentos demasiado tensos e desconfortáveis para o expectador, fazendo-o se sentir como se estivesse assistindo a algo verdadeiramente profano e proibido. Conforme o ritual avança, pode-se perceber o sacrifício físico e mental ao que os protagonistas estão sendo expostos, um esgotamento que indicia estar exaurindo até consumir suas próprias vidas, uma vez que estão lidando com elementos além de sua compreensão.

Talvez o final do filme não agrade a todos, porém, essa obra é magnífica por sua construção, com momentos angustiantes que apesar de não agradar a todos os tipos de expectadores, com certeza deixará os mais intensos admiradores dos filmes de gênero, extremamente agraciados. A direção de fotografia é belíssima e as atuações dos atores estão impecáveis, a ponto de nos transportar para essa situação peculiar e sinistra. A Dark Song é uma obra obrigatória para quem se diz amante dos filmes sinistros.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...