Crítica | A Maldição da Casa Winchester

Eis que surge mais um filme de terror com uma premissa cativante, mas que levanta algumas dúvidas quanto ao seu desenvolvimento. A Maldição da Casa Winchester (Winchester) nos apresenta um curioso caso baseado aos fatos relacionados a um dos locais considerados como um dos lugares reais mais assombrados do mundo: a Mansão Winchester.

É exatamente para esse local que o psiquiatra Eric Price (Jason Clarke) vai a pedido dos membros da multimilionária companhia responsável pela produção dos famosos rifles de repetição da marca Winchester. O profissional tem a difícil missão de realizar o diagnóstico de Sarah Winchester (Helen Mirren), a herdeira do império da companhia, pois os demais sócios, motivados por assumir o controle da mesma, questionam o estado de saúde mental dela, indagando ainda sua capacidade de permanecer como principal nome a frente da indústria.

O que Price está prestes a descobrir é que a situação na mansão Winchester não é das mais comuns. A herdeira multimilionária se mantém à frente da construção de sua casa durante 24 horas por dia, durante 7 dias por semana, criando uma planta cada vez mais emaranhada e confusa, uma propriedade de tamanho exorbitante, com cômodos sem uso e corredores e escadas que terminam em lugar nenhum. Mas o mais peculiar em tudo isso é o motivo pelo qual Sarah Winchester mantém a propriedade em constante período de reformas. Ela acredita que a mansão é assombrada pelos espíritos vingativos das inúmeras pessoas que morreram vítimas das armas de fogo produzidas por sua companhia e que para aprisioná-los, necessita criar quartos vazios para lacrá-los em seu interior.

Apesar da promessa de um história original e cativante, o longa começa a perder seu mérito por aí, uma vez que fora a ideia inicial, não há muitos elementos que acrescentem a um gênero tão saturado de convenções e, claro, muitos clichês. Assim como vários outros filmes contemporâneos pertencentes ao famigerado cinema de gênero, o longa aposta em sustos fáceis, que giram em torno de jumpscares, quando a câmera adota um plano fechado no rosto do personagem, fazendo com que o expectador não tenha plena visão do que está ao seu redor, apenas para em seguida, revelar uma imagem assustadora acompanhada de um efeito sonoro extremamente alto e incômodo.

Não que jumpscares não sejam divertidos, muito pelo contrário, se não fossem, não teriam sido tão demasiadamente utilizados nos filmes de terror da última década. O problema acontece quando não há o estabelecimento de um clima assustador ao longo das cenas. Sem clima e ambientação, não há medo. E sem medo, não há sustos, ou pelo menos ao que se diz respeito aos sustos realmente significativos. Os jumpscares em A Maldição da Casa Winchester são usados de maneira tão pouco inspirada que em cenas em que o enredo tenta ser original e “genial” só consegue promover momentos cansativos e até anticlimáticos.

Vamos utilizar como exemplo uma cena em que o protagonista está olhando para o espelho, cena esta cuja resolução já havia sido arruinada por ter sido exibida nos trailers. O timing da cena é extremamente mal construído, o suspense é comumente desenvolvido em filmes de gênero a partir do uso estratégico do tempo, quando a história faz o expectador esperar pelo que está por vir e sofrer com a angústia de não saber o que está para acontecer. Porém, nessa cena, o tempo que esperamos pelo susto é muito longo e o expectador já sabe que vai levar um susto por que a cena possui os enquadramentos e contexto esquematizados para isso, mas a espera é muito longa e cansativa; quando o susto finalmente vem, a recompensa não está à altura do tempo que foi gasto, causando frustração por parte do expectador. Ainda dissertando acerca do mal-uso dos jumpscares, o filme abusa demais deles.


A atuação de Jason Clarke, apesar de decente em alguns momentos – vale dizer que nenhum dos demais membros do elenco ganha algum destaque no quesito atuação, pode-se afirmar que todos os atores estão na média, fazendo apenas o “arroz com feijão” sem graça e pouco com pouca inspiração, o que não chega a ser necessariamente culpa dos atores e sim, do roteiro – chega a ser risível em alguns momentos. O personagem de Klarke, em mais de uma situação, nos dá a impressão de se assustar com qualquer coisa, mesmo em momentos em que a única coisa que existe de assustador na cena é o acorde extremamente alto que toca quando algum personagem abre uma porta ou alguém surge do outro lado de um corredor, entre outros artifícios.

O roteiro dos irmãos Michael e Peter Spierig não chega a ser péssimo, mas é relativamente fraco, com uma trama pouco expressiva e um plot twist que é construído de maneira fria e com pouca emoção. O desenvolvimento dos personagens é raso e quando acompanhamos o drama do personagem principal, este pouco convence, mesmo partindo de uma história que realmente possuía algum potencial, mas que se perde na hora de desenvolver, prejudicando assim a criação de empatia com o personagem.

A direção, também dos Spierig, não está muito inspirada e em não raros momentos, dá a impressão de estar no “piloto automático” com enquadramentos básicos e planos sequência não tão bem realizados. Há um momento em que que vemos que o diretor até tentou criar uma atmosfera de suspense, quando a personagem de Helen Mirren aparece com um véu cobrindo seu rosto, mas a cena, apesar de não ser a pior do filme, não chega a ser bem-sucedida em sua empreitada, uma vez que o timing e a construção da mesma não funcionam, fazendo com que os elementos que a princípio aparentam possuir potencial, acabam por serem desperdiçados.

O filme até que cumpre o papel de entreter com uma história linear, não confusa, com entidades sobrenaturais que chegam a ser verossímeis, diferente daquelas que criam novas regras sobre sua natureza cada vez que o roteiro precisa que elas sejam criadas. Os fantasmas aqui respeitam a fantasia que é estabelecida ao longo do filme. Outro fator positivo da obra é a direção de fotografia, que conta com cenas bastante escuras, sombras e luzes difusas, dando um aspecto sombrio as cenas. Isso sem falar na belíssima paleta de cores que combina tons escuros de verde mesclados ao laranja da luz das velas. A direção de arte e figurinos também não deixam nada a desejar, desenvolvendo uma ambientação bastante convincente.

A Maldição da Casa Winchester não chega a ser uma completa perda de tempo. Trata-se de um longa com uma aparência atraente, mas com roteiro manco, sustos fracos e desenvolvimento de personagens que não impressiona, mas também não chega a incomodar.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...