Crítica | ‘O Mecanismo’ quis mostrar o que já sabemos, da pior maneira

Quando O Mecanismo foi anunciado pela Netflix, com a promessa de mostrar eventos que deram início à Operação Lava Jato, a primeira coisa que muitos assinantes do serviço de streaming devem ter pensado era que, enfim, ganharíamos uma House of Cards brasileira. Porém, nada de novo ou nada do que já não sabíamos é mostrado. Agradar (e chocar) principalmente ao isento político torna-se o alvo da produção, que distorce os fatos nos quais diz se inspirar livremente.

Em um determinado momento de O Mecanismo, um personagem diz categoricamente: “definitivamente, o Brasil não é para amadores”. Essa é a ideia que a série, distribuída globalmente, quer passar: tudo isso aconteceu de verdade em nosso país, porque a política brasileira não presta; o que está errado é o tal mecanismo, que faz a roda girar. “O sistema é foda parceiro”, frase famosa do Capitão Nascimento, ganha um viés totalmente político aqui, nas entranhas da nossa cultura do jeitinho, onde para chegar ao topo, liberdades artísticas se confundem com distorções históricas. A série critica  inclusive a polarização da política brasileira, dizendo que são todos iguais, mas adivinhe só: ela é capaz de inflamar ainda mais os ânimos.

Dentro dessa premissa é que justamente mora a confusão. Tentando constatar o óbvio – a corrupção é um problema – a série assinada por José Padilha (Narcos, Tropa de Elite) promove uma paródia ficcional, atacando a todos os lados (menos a “polícia federativa”) e não trazendo nada de novo para o debate. Nem em termos de audiovisual, já que é bom lembrar, falamos de uma série de ficção.

O Mecanismo é inspirada no livro “Lava Jato – O Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil”, escrito pelo jornalista Vladimir Netto . Na série, Marco Ruffo (Selton Mello) é um delegado aposentado da Polícia Federal obcecado pelo caso que está investigando. Quando menos espera, ele e sua aprendiz, Verena Cardoni (Caroline Abras), já estão mergulhados em uma das maiores investigações de desvio e lavagem de dinheiro da história do Brasil. A proporção é tamanha que o rumo das investigações muda completamente a vida de todos os envolvidos.

A série dá o seu pontapé inicial em 2003, ano em que Ruffo investiga um caso de evasão de divisas em um banco paranaense. Este é o ano em que, o governo dito de esquerda na série (Partido Operário, equivalente ao PT) estava em seu primeiro ano. Sim, essa é uma espécie de marco zero da operação LavaJato. Mas não é a pedra fundamental da corrupção. O mecanismo a ser mostrado, como todos nós já sabemos, remete a anos e anos de governos anteriores a este. A oportunidade que a série perde em adotar essa linha narrativa, acaba tornando a produção maniqueísta, embora tente ser, em muitos momentos, apartidária. Ou tenta ser “isentona”, como queira. Fato é que O Mecanismo tinha potencial para ser muito mais do que acabou se tornando.

Um dos acertos em O Mecanismo é a quantidade e duração dos episódios. São oito no total, com no máximo cinquenta minutos. O thriller político de investigação possui um bom ritmo e mesmo com os avaratares extremamente caricaturados de Lula, Dilma e até mesmo Aécio e Temer, há boas atuações a serem destacadas, como o brilhante e Enrique Diaz, no papel do doleiro Alberto Ibrahim, melhor personagem da primeira temporada. Porém, a linha narrativa característica de José Padilha se torna excessiva, tornando a série demasiadamente didática, com muita narração (voice over), frases de efeito e diálogos expositivos. O recurso que poderia tornar o espectador próximo dos personagens não funciona, evidenciando problemas estruturais no roteiro de Elena Soarez e do próprio Padilha.

Na tentativa de revoltar o espectador, O Mecanismo acaba se esquecendo de mostrar, como produto audiovisual, algo diferente e ousado. Não há nada muito inventivo, por exemplo, na fotografia da série, que parece pasteurizada para vender uma boa imagem lá fora, com belos planos aéreos das cidades, mas nenhuma diferenciação das locações em si. Alguns planos são bem escolhidos e outros, muito simplórios. Os episódios, com bons nomes na direção como o próprio Padilha, Marcos Prado e Daniel Rezende, possuem uma direção firme, mas nenhum capítulo se torna primoroso.

Alvo de muitas reclamações, o áudio da série deixa a desejar, mas o problema não é essencialmente a dicção dos atores, como a princípio possa se imaginar. A mixagem do som (processo que mistura todos os sons de uma produção, inclusive as falas) torna a série inaudível em alguns momentos, a não ser que você recorra ao uso de legendas ou fone de ouvido.

Outro ponto que O Mecanismo deixa a desejar é a forma extremamente devotada com a qual a série coloca seus protagonistas. Ruffo e Verena são policiais com apenas uma ou duas camadas, inconformados com o sistema e acima de qualquer suspeita. A série até flerta com a crítica ao cidadão comum que comete pequenas infrações, mas perde a oportunidade de criar conflitos morais em seus heróis. Ela até oferece uma oportunidade perfeita para tornar um dos personagens principais, até então  imaculado, parte integrante desse sistema. Mas, da forma menos orgânica possível, Soarez desperdiça a chance de acinzentar a jornada dos policiais federais. Ou federativos, como queira.

E isso, é bom que se diga, não se trata em querer tornar uma personagem também corrupto. Mas você se identifica mais com alguém do mundo real ou em um produto do único local quase honesto do país, aos olhos da série: a polícia federativa de Curitiba? Um dos grandes trunfos de uma boa dramaturgia é nos aproximar dos personagens e isso não acontece aqui. A era de ouro da TV nos fez sentir empatia com  anti-heróis e vilões como Tony Soprano, Walter White e Jackson Teller. Em última instância podemos citar o irreverente Saul Goodman. Curiosamente, até alguns dos vilões de O Mecanismo, como o próprio Ibrahim ou o diretor da Petrobrasil, o JPR, possuem camadas que envolvem família, e uma espécie de conflito gerado por isso. Por que não podemos abraçar esses protagonistas com seus erros e desvios?

A única empatia gerada pelos protagonistas vem da presença, boa química e carisma que eles possuem. Selton Mello e Caroline Abras formam uma boa dupla, mas a atuação acaba se tornando um pouco engessada, principalmente por causa do texto. Verena, inclusive, acaba se tornando vítima de um plot twist que a série faz com muita sagacidade, mas se pensarmos direito, apenas diminui a sua capacidade de investigação da delegada. E não é somente isso, já que no âmbito pessoal, a única camada que adentramos, depois da agente durona, é a da mulher fragilizada em seu sentimento amoroso. Já Ruffo, atormentado pelo seu senso de justiça e uma bipolaridade, até consegue impor bons momentos, muito por conta da habilidade de Selton em compor personagens. Havia aqui outra oportunidade desperdiçada, com o seu casamento à deriva e sua filha portadora de necessidades especiais. Mas o roteiro lança esses problemas em tela e não sabe como resolve-los, ou simplesmente os ignora.

Não é correto, porém, desmerecer a obra por completo, uma vez que sua trama consegue ser envolvente e atrai a atenção do público. Mesmo com um material base que é de conhecimento público e uma história que ainda está sendo escrita nas páginas dos jornais, O Mecanismo, na base da revolta provocada em seu público-alvo, consegue atingir o objetivo traçado. Além de promover, em momentos pontuais, sua dita imparcialidade. Quando a série crítica revista Leia (Veja) e sua relação com o personagem que representa Aécio Neves, ou ainda insinua a vaidade crescente do juiz Rigo (Moro), isso fica claro. Ou quando também insinua os primeiros passos de Temer, aqui Samuel Thames, rumo ao processo que culminaria do impeachment. Mas tudo isso é tímido, comparado a outras questões problemáticas e mais veementes.

Ficção e verdade: a adaptação dá ao autor um passe livre sobre o fato?

O Mecanismo não falha somente por distorcer um cenário político, sob a benção da livre adaptação e do pretexto ficcional. Na intenção de constatar o  óbvio e gerar indignação, a série perde a chance de tratar a causa e não os sintomas de um problema. Repito: a corrupção estrutural não começou em 2003, tampouco no governo anterior a este mostrado. Curiosamente, em uma delação mostrada na série, um dos personagens vai até 1808 para buscar a causa do problema. Não precisava chegar a esse ponto, mas…

Não podemos ignorar imprecisões claras, uma vez que, sim, embora estejamos diante de uma ficção, nada ali é por acaso. A série combate o partidarismo mas não deixa de ter um cunho político. Prova disso é, por exemplo, a transposição da data em que ocorre o caso que dá início a série. Entre 1996 e 2003, o Banco do Estado do Paraná (Banestado) foi utilizado por doleiros para enviar bilhões de dólares para fora do Brasil. O principal deles era Alberto Youssef, representado por Alberto Ibrahim na série. Acontece que esse caso teve início no governo de Fernando Henrique Cardoso, não em 2003.

A propósito, a série sugere que o ministro da justiça entre 2003 e 2007, Márcio Thomaz Bastos (“O Mago” ou “Bruxo” da série), seria o advogado do doleiro. Fato este que também não procede. Outro momento da série sugere que Ibrahim circulava pelos corredores do comitê de campanha de Janete Vuscov. Alberto Youssef foi preso no início de 2014, logo antes destes acontecimentos, portanto isso não poderia ter acontecido. Nem se ele aparecesse no comitê de outro partido, por exemplo.

A frase é dita pelo personagem José Higino (que representa o ex-presidente Lula) ao “Mago”, inspirado no já falecido Thomaz Bastos, também mostra o maniqueísmo do roteiro. Na série, o diálogo fictício, e fantasioso, ocorre em 2014, antes das eleições presidenciais. A frase que, na verdade, foi dita pelo senador Romero Jucá (PMDB), ao ex-presidente da Transpetro e delator da Lava Jato, Sérgio Machado, ocorreu em março de 2015, após a reeleição de Dilma e já com alguns dos principais empreiteiros do país na cadeia.

E antes que o leitor questione a intenção desta crítica em tomar partido d precisão dos fatos, há momentos em que a série utiliza muito bem o material fonte e cria boas situações ficcionais. O posto de gasolina onde Youssef operava, por exemplo, existiu. As operações que aconteciam no local, que foi alvo da primeira fase da Lava Jato, foram bem dramatizadas. Outro exemplo é a prisão de Ibrahim. A mega operação que acontece na série foi criada como artifício de roteiro, uma vez que o doleiro estava na vida real no Maranhão, e não em Brasília. Mas para fins de adaptação, funcionou e a série criou momentos de tensão com o fato, da mesma forma quando a polícia prende o diretor da empresa de petróleo.

Esse texto poderia conter um viés audiovisual somente? Claro. Mas a arte também tem a intenção de promover um impacto cultural. Associando isso ao momento único e tão dividido que país enfrenta, não haveria como se ater somente aos aspectos técnicos. Por isso é possível afirmar que O Mecanismo não falha como proposta, quer era chocar e revoltar ainda mais seus assinantes, além de ser um thriller político maratonável e envolvente. Mas, também peca como produto audiovisual em determinados aspectos, além de construir um cenário que não é tão isento de um viés político e partidário, como a princípio pode parecer.

 

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...