Crítica | ‘Seven Seconds’: uma boa série sobre investigação e tensões raciais

Série original da Netflix, Seven Seconds parte de uma premissa bastante similar à outras séries, inclusive seu ritmo e fotografia imediatamente remetem à The Killing, mas isso não a faz perder seu brilho ou a deixa de possuir sua própria identidade.

Acompanhamos a história  de Seven Seconds a partir do momento em que Peter Jablonski (Beau Knapp), um policial de Nova Jersey, dirige enquanto fala ao celular, preocupado com seu filho que está para nascer, quando acidentalmente atropela Brenton, um garoto negro. Desesperado, ele chama seus parceiros policiais, que imediatamente vem ao seu auxílio. Após a reunião, o grupo decide por abandonar a cena do acidente e deixar o garoto morto em uma vala. Porém, o que eles não sabiam é que Brenton ainda não estava morto e horas depois, viria a ser socorrido gravemente ferido. Apenas para morrer tempo algum tempo depois.

A partir daí, a série ganha um tom de investigação criminal, em que a promotora KJ Harper (Clare-Hope Ashitey), juntamente com o investigador Fish (Michael Mosley), começam a perseguir com unhas e dentes todas as pistas que possam leva-los ao encontro do assassino. A tensão racial entre brancos e negros na cidade começa a ficar cada vez mais enérgica e isso começa a acarretar em consequências para a sociedade local.

Nesse ínterim, acompanhamos o sofrimento da família de Brenton, enquanto lidam com a perda de maneira uma maneira bastante desastrosa . Ao mesmo tempo, vemos as consequências que despontam na vida de Jablonski e sua esposa, graças à sua consciência que o atormenta. No centro disso tudo está a dupla de investigadores e a promotora, cuja relação não é nem de perto a mais fácil. KJ possui graves problemas com alcoolismo, que resume a sua maneira de lidar com o fracasso em sua carreira e sua impossibilidade de ajudar as pessoas, especialmente aquelas que, assim como ela, são de cor negra e de origem em comunidades carentes. Isso faz com que ela tenha grandes dificuldades em se relacionar com as pessoas.

Em contrapartida, o investigador é provocativo, grosseiro e não se importa muito com o que os outros pensam. O que conecta os dois personagens e o que os faz funcionar bem juntos é a garra que ambos possuem. Apesar de ter o sistema e a força policial contra eles, não se sentem intimidados e dão início a uma operação que incomoda todos ao seu redor e começa a alimentar a tensão que existe na cidade. Tensão esta que pode ser sentida no clima durante os episódios, dando a impressão de que a qualquer momento pode estourar uma tragédia, talvez até algo beirando uma espécie de guerra civil.

Uma das características em que sem dúvidas Seven Seconds é bem-sucedida, é na escolha do elenco. Todos os atores estão muito bem. Os episódios são desenvolvidos de forma realista e conseguimos ver aquelas pessoas como elas são ou deveriam ser se fossem reais, naquele cenário. O expectador se importa com as questões da comunidade; a violência, as drogas, a corrupção e o sofrimento que os negros vivem, sempre na miséria e à margem da Sociedade. A série flerta o tempo todo com o preconceito em várias de suas facetas, mas a cereja do bolo ainda ela guarda para o final.

Seven Seconds desenvolve uma trama que leva a crer que será concluída de uma maneira específica, graças à quantidade de histórias que já assistimos sobre policiais e bandidos. Porém, ela nos apresenta um final completamente diferente daquele que esperamos. Uma resolução que pode ser descrita em sua essência como um final amargo para a maioria dos personagens com os quais você criou empatia durante a série, mas que também é um final crível com o que vemos no nosso dia a dia.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...