Crítica | Pequena Grande Vida

Não é a primeira que o cinema resolve encolher pessoas. Em 1989, o cientista Wayne Szalinski (Rick Moranis) já havia encolhido os filhos e os amigos deles em Querida, Encolhi as Crianças. No entanto, o propósito de Pequena Grande Vida (Downsizing) é ir mais além, a partir de uma sátira social, discutindo temas como o modo de vida contemporâneo, consumismo e a questão ambiental.

Tentando resolver o problema de superpopulação global, um grupo de cientistas noruegueses consegue criar um modo de reduzir pessoas a 13 centímetros, a fim de diminuir o consumo e o impacto ambiental que a humanidade está gerando na terra. Vivendo em pequenas comunidades e com o seu dinheiro valendo muito mais em tamanha miniatura, Pequena Grande Vida parte desta premissa sedutora para pessoas que almejam algo melhor para as suas vidas.

A partir de então, conhecemos o protagonista desta jornada. Diante da promessa de uma vida melhor, Paul Safranek (Matt Damon) e sua esposa Audrey (Kristen Wiig), um casal comum, decidem deixar para trás sua vida estressante em Omaha, para viverem em uma comunidade miniatura, com todo o conforto que nunca poderiam pagar anteriormente. Ver um casal de amigos encolhidos e ouvir maravilhas desse mundo novo é o divisor de águas para o casal.

O diretor Alexander Payne conduz o filme de forma muito eficiente em seu primeiro ato. Somos apresentados ao protagonista, suas motivações são claras e rapidamente já podemos nos conectar com o que está por vir. Há um ponto de virada muito interessante, principalmente se o espectador não assistiu ao trailer. Porém, o grande tropeço é justamente quando Paul se vê em uma situação inusitada, encolhido e em uma nova comunidade. O que era para ser o melhor momento do filme acaba se perdendo em meio a boa intenção do roteiro escrito pelo próprio Payne e Jim Taylor.

O tom que o filme pretende adotar, a partir do segundo ato e sobretudo em seu desfecho, flerta com o pessimismo. É, portanto, uma escolha de seu realizador indicar que mesmo com uma boa ideia, o ser humano invariavelmente vai agir   conforme a sua essência. É o que fica evidente a partir das comunidades mais pobres e a exploração dessas pessoas pelos mais ricos. No entanto, o filme vai perdendo o ritmo empolgante de seu início promissor e a história parece girar em círculos para finalmente chegar aonde quer.

A direção de Payne acerta em expor a dimensão dos personagens em relação ao ambiente. Há bons momentos no filme que envolvem as situações em que uma pessoa com 13 centímetros pode passar. Explosões em miniatura que não passam de um pequeno estalo no “mundo real”, o tamanho de uma planta e como eles fazem para depositar o lixo gerado pela comunidade são alguns dos exemplos de como o filme explora bem essa questão de orientação espacial. A fotografia de Phedon Papamichael, utiliza essas ideias para criar nossas orientação espacial em relação ao micro mundo.

Os efeitos visuais de Pequena Grande Vida são eficientes e ajudam a contar a história, porém, não conseguem impressionar. Principalmente na interação das pessoas maiores com as menores. Para um filme que parte desta premissa, isso deveria ser essencial. Por conta do roteiro, esses momentos são deixados de lado quando acompanhamos Paul em sua jornada encolhida. A partir de então, o recurso passa a ser melhor utilizado.

Como protagonista, Matt Damon vai bem quando a comédia predomina. No entanto, há um viés dramático que o filme passa a ter, principalmente na transição do segundo para  o terceiro ato. É ai que percebemos um pouco da limitação do ator para este tipo de papel. Porém, não é só isso. Em Perdido em Marte, por exemplo, Damon entrega uma atuação mais sólida, alternando momentos em que ele encara uma extrema com cenas muito bem-humoradas. Aqui, não há um equilíbrio tão evidente.

São os atores coadjuvantes que efetivamente roubam a cena em Pequena Grande Vida. Hong Chau interpreta uma mulher forte. A personagem Ngoc Lan Tran  é mandona, rabugenta, as vezes chata e muito, mas muito engraçada. Quando precisa atingir um nível mais dramático, ela não decepciona, dando ao filme um contorno muito interessante. A interação entre Chau e Damon é outro ponto positivo, dando propósito à vida do protagonista, mesmo que em dado momento, esta relação soe um pouco forçada em alguns aspectos.

Outro ator que arranca risos em cada cena que aparece é  Christoph Waltz. Dusan Mirkovik é o vizinho de Paul, um bom vivant que se divide entre festas luxuosas e viagens. Ele decidiu viver a pequena de forma plena e sua participação é importante por nos mostrar um contraponto em relação ao modo de vida moderno, e também, ao fato de como nossa essência humana pouco poderia mudar. Isso, é claro, a partir da visão de Payne. Mas ele não está tão errado, afinal de contas.


Alguns atores aparecem de forma pontual ou em pequenas pontas, e funcionam bem, como Rolf Lassgård, Neil Patrick Harris, Margo Martindale e Laura Dern. Outras participações poderiam ser melhor aproveitadas, com mais tempo de tela. Por conta dos caminhos que o roteiro escolhe, Jason Sudeikis poderia ter sua veia cômica mais explorada no longa, enquanto Kristen Wiigh, embora sirva a um propósito na trama, acaba sendo pouco aproveitada.

Pretendendo impor um tom satírico e ácido a uma comédia dramática, Pequena Grande Vida não consegue atingir o seu objetivo por completo, com muitas oscilações de tom. O filme poderia até ter uns 15 minutos a menos. No entanto, há um bom valor de produção, os catores oadjuvantes roubam a cena e a mensagem que envolve o cuidado com o planeta é válida. Como diversão, o filme tem bons momentos e pode agradar ao público em geral.

Avaliação:

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...