Crítica | A Grande Jogada

A Grande Jogada (Molly´s Game) é um filme escrito e dirigido por Aaron Sorkin. O famoso roteirista tem nada mais nada menos que um Oscar de melhor roteiro adaptado em A Rede Social e dois Globos de Ouro de melhor roteiro em A Rede Social Steve Jobs (o de 2015 e não aquele do Ashton Kutcher!). O filme também marca a estreia de Sorkin como diretor. E ele estreou com o pé esquerdo.

Todos nós conhecemos características do trabalho do autor: diálogos dinâmicos e verborrágicos, repletos de didatismo, humor na medida certa e uma narrativa que não obedece ordem cronológica. Essa é uma receita que vem dado certo para o aclamado roteirista e lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar esse ano. Porém, desta vez na direção, Sorkin não soube dosar o ritmo da narrativa escrita por ele mesmo.

O roteiro realmente é bem construído e interessante. Experienciamos a vida de Molly Bloom, interpretada pela linda e talentosa Jessica Chastain, uma ex-esquiadora profissional, filha de um escrupuloso psicólogo (Kevin Costner) e que ao se envolver em um acidente, após alguns anos, começa a trabalhar no submundo da jogatina em Los Angeles, a princípio como assistente em um dos locais. Rapidamente Molly elabora sua ascensão até ficar conhecida como “A Princesa do Pôquer” e ser pega pelo FBI.

MOLLY'S GAME

O pecado de Sorkin está na maneira em que ele decide passar seu roteiro para a telona. O filme inicia com um enorme flashback narrado pela própria Molly, nos contando como ela chegou onde chegou. É um texto realmente interessante, ágil e bem humorado, que prende a atenção do espectador que fica intrigado com as analogias e lições dadas. Mas essa fórmula é repetida inúmeras e inúmeras e inúmeras e inúmeras e inúmeras…vezes ao longo do filme. Chega uma hora em que o espectador preferia estar lendo o livro Molly Bloom: A Grande Jogada, escrito pela própria Bloom, do que estar vendo o filme do Sorkin.

Enquanto durante todo o filme parecemos estar girando em uma roleta de cassino, dando voltas e voltas, diferenciadas apenas pelos atores coadjuvantes que mudam a cada mesa de jogo, no final do longa damos um verdadeiro salto, algo como um deus ex machina (Spoiler até o fim do parágrafo), onde Molly encontra por um acaso seu pai em uma pista de patinação, e após uma breve sessão de terapia com um longo diálogo (!!!), ela resolve assumir toda sua culpa pelos crimes que cometeu. Kevin e Jessica realmente fazem uma boa cena, com atuações acima da média, porém o modo que ela foi construída não cativa a absolutamente ninguém.

Se há algo de interessante na obra é Jessica Chastain. A atriz mostra mais uma vez que, além de estonteante, é digna de aplausos e indicações a prêmios. É incrível vê-la com um vestido vermelho, decotado e captarmos não o seu físico, mas todo o poder, inteligência e ambição que essa personagem possui. Jessica traz equilíbrio e a força da protagonista, numa interpretação bem minimalista e autêntica, e mesmo sendo deixada de “calças arriadas” em uma cena com seu advogado (Idris Elba), em que evocam uma das cenas finais da peça de Arthur Miller, As Bruxas de Salem (cena mais forte da peça, diga-se de passagem), a atriz dá conta do papel.

MOLLY'S GAME

A Grande Jogada é um filme que não nos oferece muito. Vemos uma história intrigante de sucesso e decadência, mas contada com muitas falhas e poucos acertos. Sorkin escreve bem a receita do bolo, mas ainda não é um cozinheiro de mão cheia.

Avaliação: 2 estrelas


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Joel Tavares

Viciado em filmes, séries, teatro e chocolate. Se apaixonou pelo cinema quando era apenas um garotinho e viu Jurrasic Park na telona em inglês. Não entendeu uma palavra, mas os dinossauros eram demais