Crítica | ‘Eu, Tonya’: Margot Robbie brilha na estilosa cinebiografia de Tonya Harding

Se tem algo que faz os olhos do público brilharem em um filme é a sensação de que um determinado papel parece ter sido escrito exatamente para uma determinada atriz ou ator. Sabe quando você diz que certo personagem não cairia tão bem em outra pessoa? É o que acontece quando os créditos de Eu, Tonya (I, Tonya) começam a subir e você se dá conta do que a australiana Margot Robbie pode fazer.

O longa narra eventos da vida da patinadora olímpica Tonya Harding, que contrariando o senso comum vigente do esporte, no início dos anos 1990 dominava o gelo com perícia, sem rivais. Porém, ela também dominou as manchetes por algo totalmente diferente, quando foi acusada de possuir envolvimento no ataque sofrido pela rival Nancy Kerrigan, a mando do ex-marido Jeff Gillooly. Eu, Tonya  coloca uma visão, às vezes, absurda, trágica e hilária de uma mulher no centro do maior escândalo na história do esporte nos Estados Unidos.

Para o diretor Craig Gillespie, esta cinebiografia esportiva não é a sua primeira investida no gênero. Em 2014 ele dirigiu o mediano Arremesso de Ouro, filme sobre um agente esportivo que recruta dois jogadores de críquete indianos, e os leva para os Estados Unidos com intuito de torná-los jogadores da Liga de Beisebol do país. Em Eu, Tonya, porém, ele vai fundo e ousa contar  a sua história de maneira dinâmica e com muita personalidade. A câmera nunca ousa ficar parada e ora por meio de zoom, ora circulando os personagens e até com planos-sequências, o filme ganha uma identidade peculiar e suas quase duas horas nunca cansam o espectador. O formato (razão de aspecto 4.3) utilizado para mostrar as entrevistas também é uma escolha que agrada, ainda mais quando no final do filme, temos uma visão dos verdadeiros envolvidos e que ajuda a justificar a decisão. Sim, é necessário assistir aos créditos. Vale muito a pena.

O roteiro de Steven Rogers é jocoso e propositalmente sarcástico, o que nos confere sempre a sensação de estar vendo algo que beira ao absurdo. E realmente não poderia ser diferente, a partir de um plano construído da forma mais idiota possível. A quebra da quarta parede que os personagens fazem nunca serve a outro propósito, que não seja ser pontuar os absurdos da trama. Em um determinado momento, uma mulher se vira para a câmera e diz: “isso aconteceu de verdade”, para depois dizer “isso também”. A despeito de seu teor dramático, Eu, Tonya não se furta de ser uma filme engraçado.

Porém, o longa sabe como colocar o drama da ex-patinadora de forma contundente na tela, sem que isso tire o tom mais descolado que ele possui. Por outro lado, mesmo com uma narrativa tão peculiar, Eu, Tonya não se perde quando decide “falar sério” sobre os motivos que levaram Tonya até o ponto crucial que a história quer contar. Gillespie conduz com êxito essa gangorra emocional, abordando temas como o abuso, violência doméstica, desigualdade de gênero e o circo midiático em torno do caso. Tudo isso é feito de forma dramática mas sem apelar, e cômica, sem ser ridícula.

Nada disso seria possível sem o belíssimo trabalho executado pelos atores, encabeçado pela talentosa Margot Robbie. Note com ela se movimenta em cena. Observe sua expressão corporal. Contemple sua insanidade. Veja como, de maneiras distintas, ela fala com a mãe, o ex-marido e a treinadora. Robbie consegue dar vida a uma desajeitada mulher que se mostra forte por fora, mas passa toda sua fragilidade (e ingenuidade) interior. Outro ponto positivo do filme e que vai de encontro a sua atuação é que o longa nos oferece uma visão, na maior parte do tempo de Tonya, sem que isso soe como uma justificativa completa para os seus atos. Sim, o longa nos faz entender certas situações e até faz justiça a sua imagem, pois consegue nos enojar com certos acontecimentos. Mas nada é muito maniqueísta ou forçado.

O elenco de apoio em Eu, Tonya também é muito responsável pelo sucesso do filme, com as atuações primorosas de Sebastian Stan, o ex-marido abusador Jeff Gillooly, e a estupenda Allison Janey, que está impecável como a fria e dura mãe de Harding, LaVona Golden. É curioso notar que na maior parte do tempo, pelo menos dois desses três personagens (contando com Tonya) estão em cena. Cada uma delas possui uma entrega emocional e física muito grande. Seja através de socos, sangue e pontapés, ou por meio de emoções contidas e choros raivosos. A trinca de atores que mais aparece no filme é a base de todos os acontecimentos.

Há também participações mais discretas, com Julianne Nicholson dando vida a treinadora de Tonya, que não diz muito ao que veio até uma determinada cena que é hilária. Subaproveitado, Bobby Cannavale poderia ter ganho mais espaço, enquanto Paul Walter Hauser, o estranho amigo do ex-marido de Tonya, causa uma repulsa instantânea, fruto de uma ótima caracterização que poderia parecer irreal, mas que depois é corroborada nos crédito finais.

Eu, Tonya recebeu três indicações ao Oscar. Robbie (atriz), Janey (atriz coadjuvante) e melhor montagem. Esse aspecto técnico faz toda a diferença no filme, seja pelo dinamismo que o longa possui, ou pelas sequências esportivas. O diretor contou, é claro, com efeitos visuais para os movimentos mais difíceis. Todas as cenas que envolvem patinação no gelo são absolutamente críveis e não nos colocam para fora do filme em momento algum. Porém, é necessário destacar a dedicação de Margot, que se preparou com muita dedicação, conforme o próprio Gillespie disse em uma entrevista recente.

Biografia esportiva diferente e ousada, Eu, Tonya é um retrato de como nossas ações podem influenciar negativamente nosso futuro, e como as decisões que tomamos ainda quando jovens, podem impactar o resto de nossas vidas. O filme vai a fundo na vida de uma mulher, que no fim das contas, acaba por ser homenageada, curiosamente em uma história em que ela foi quem mais ganhou e perdeu.

Por fim, é no mínimo curioso o fato de que Eu, Tonya não esteja entre os indicados ao Oscar de melhor filme. Não é uma questão de comparação com os que lá estão. Embora isso seja inevitável, o filme fala por si só.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...