Crítica | ‘Três Anúncios Para um Crime’ é um filme genial e nada previsível

Estuprada enquanto morria. E ainda nenhuma prisão? Por que, Chefe Willoughby? Se Três Anúncios Para um Crime, a obra de arte do diretor e roteirista Martin McDonagh fosse verídica, essas três frases estariam em uma estrada, estampadas em três outdoors na entrada de alguma cidade do Missouri (EUA).

Uma jovem foi estuprada e assassinada brutalmente em Ebbing (cidade fictícia), Missouri. Após meses sem nenhuma progressão no caso, a mãe, Mildred Hayes (Frances McDormand) resolve fazer justiça com as próprias mãos: ela coloca três anúncios em uma estrada cobrando a polícia local, mais especificamente ao chefe de polícia Bill Willoughby (Woody Harrelson), em busca de respostas para o crime. Esse é o enredo de Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri).

O longa de McDonagh é um faroeste moderno, repleto de cenas violentas, humor negro e personagens complexos. Em alguns momentos, achamos que estamos assistindo um filme dos irmãos Cohen, talvez um Onde os Fracos Não Têm Vez ou Fargo. A verdade é que McDonagh é tão genial quanto a dupla. Ele trouxe para as telas do cinema um filme nada previsível. Três Anúncios para um Crime é uma obra que se complica e descomplica a cada instante. Ela prende quem o assiste com sua violência gratuita, seus diálogos hilários, seu tema emocionante e seus personagens brilhantemente construídos, não deixando para o espetador nenhuma “moral da história” explícita.

Uma mãe, na situação de Mildred em específico, estaria debulhada em lágrimas a cada momento que sua filha é mencionada. Mas não! A maravilhosa interpretação de Frances atinge o espectador, que se comove, se incomoda, mas não à ela. Está tudo fervendo atrás de seus olhos. Hayes é uma rocha! Uma mulher forte, implacável e determinada a por fim no assunto. É um personagem que não é uma heroína convencional. Ela é vulgar, se veste mal, é nada vaidosa e violentíssima! E isso tudo nos cativa. A genialidade do roteiro faz com que cada personagem dele seja uma antítese do bem e do mal! Todos são anti-heróis e anti-vilões.

Frances McDormand está perfeita! É lindo ver como uma atriz com a experiência dela pode nos dar uma verdadeira aula de atuação. Às vezes nos cativamos ao ver um ator ou atriz fazendo mil coisas em cena, com várias expressões e gestos: Frances é econômica, minimalista. Dizem que um bom ator mostra 30 por cento. Os outros setenta estão guardados, dentro, pulsando, prontos para explodir. Frances é um resumo desse ditado.

Sam Rockwell dá vida à Jason Dixon, um policial nada ortodoxo, selvagem, preconceituoso e pasmem: hilário! Na maior parte do filme ele é o alívio cômico, mesmo sendo mostrado como um “vilão” da história. Sam faz um trabalho magistral no desenvolvimento do personagem Dixon. Não se consegue ter raiva dele, mesmo com todas as atrocidades que comete. Pelas falas iniciais de Willoughby (falaremos sobre ele), que é um policial bom e respeitado por todos, Dixon tem um coração bom. Como acreditar nisso? Somos platéia de suas péssimas atitudes. E como não acreditar? É uma pessoa que demonstra amor pelos companheiros, é uma criança no corpo de um homem! Dixon coloca nossos princípios, para com o seu caráter, em cima de uma corda bamba!

Bill Willoughby é interpretado por Woody Harrelson. Muitas vezes nós vemos um personagem e dizemos: esse poderia ser interpretado pelo Daniel Day-Lewis. Não é o caso de Willoughby. Harrelson foi a escolha acertada! Ele empresta seu carisma natural e sua maturidade como ator, de forma que amamos o personagem e respeitamos suas decisões. No filme,ele é um dos poucos personagens que possui de fato um bom caráter e que realmente pensa antes de cometer seus atos. E sim, ele realmente pensa em tudo! Willoughby tem câncer e muitas vezes tendemos a ficar do seu lado da história e contra Mildred, por esses fatos.

“O ódio suscita mais ódio”. Essa é uma das frases do filme. E esse sentimento é posto em tela por Martin McDonagh de forma brilhante e realista. Três Anúncios para um Crime tem grandes chances de se tornar um clássico no futuro.

 Avaliação: 

Joel Tavares

Viciado em filmes, séries, teatro e chocolate. Se apaixonou pelo cinema quando era apenas um garotinho e viu Jurrasic Park na telona em inglês. Não entendeu uma palavra, mas os dinossauros eram demais