Crítica | ‘O Insulto’: uma guerra histórica representada por homens comuns

Uma guerra que se estende desde o final da década de 40 e que agora é retratada em duas pessoas: Toni (Adel Karam), um libanês cristão, e Yasser (Kamel El Basha), um palestino refugiado no Beirute, onde o drama ocorre. Esses dois homens travam uma verdadeira batalha dentro e fora de um tribunal. Esse é o enredo de O Insulto (L’insulte), filme dirigido e escrito por Ziad Doueiri e co-escrito por Joëlle Touma.

Toni é um trabalhador comum, dono de uma oficina, esposo de uma mulher grávida, e em um dia ordinário, ao lavar sua varanda, derruba água suja em Yasser. O mesmo, que trabalha em uma empresa de construção civil, tenta comunicar à Toni que a calha de sua casa está vazando a água para a rua, e que com isso se molhou. O aviso vem com uma oferta inteiramente gratuita para o conserto da calha. Porém Toni nega veementemente. Dessa forma, Yasser resolve consertar a calha sem autorização do proprietário, quando no meio do trabalho, Toni simplesmente aparece com um martelo (!!!) e destrói todo o trabalho feito por Yasser e seus ajudantes. Depois de insultos inicia-se uma série de ataques de ódio.

O filme nos mostra Toni com atitudes e características agressivas, destemperadas, preconceituosas e retrógradas. Seria ele um vilão na história? Do outro lado está Yasser, interpretado maravilhosamente por Kamel El Basha, que não relata para o juiz o modo que Toni o humilha e o ataca. Além disso, ele se sente culpado por ter agredido Toni em uma das discussões, o que nos toca bastante. Aí é onde entra a genialidade do roteiro de Ziad e Joëlle. Sua história vai além do “bem” e do “mau”. Eles nos mostram a complexidade humana.

O longa retrata o sofrimento por parte dos dois personagens e de todos os envolvidos. Sofrimento que que data décadas e décadas anteriores. Estamos falando da guerra que mata e destrói famílias; que marca um ser humano pelo resto de sua vida. A história de ambos os personagens é um espelho de toda uma civilização que sofre impunemente até hoje com guerras religiosas, territoriais e sem nenhum cabimento. O drama não só mostra a vida desses dois homens, mas sim a vida de milhares e milhares de pessoas que estão embaixo de mísseis, tiros e rebeliões. Que passam fome e sede. Que vivem escondidos e sem esperança.

No tribunal, vemos o advogado de acusação (Camille Salameh) e advogada de defesa (Diamand Bou Abboud) levantarem dados e fatos atormentadores e ideológicos. O roteiro do filme, mesmo tendendo para a vilanização da parte acusadora, se mantém imparcial em seu texto. Nos faz lembrar de X-Men, onde Xavier e Magneto, o bem e o mal, não passam de homens com ideias contraditórias, mas com todo um aparato histórico e social para sua tomada de escolhas.

 O Insulto mostra de maneira sensível e inteligente todo o drama desses dois povos, libaneses e palestinos. Nos passa mensagens históricas, comoventes e extremamente positivas. É um filme que consegue prender a atenção do espectador do inicio ao fim, e nos surpreende com suas revelações. Sua indicação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, com certeza, é mais que merecida.

 Avaliação: 

Joel Tavares

Viciado em filmes, séries, teatro e chocolate. Se apaixonou pelo cinema quando era apenas um garotinho e viu Jurrasic Park na telona em inglês. Não entendeu uma palavra, mas os dinossauros eram demais