Crítica | The Post: A Guerra Secreta

Até aonde você iria por um ideal? A liberdade de imprensa e o papel do jornalismo são colocados em pauta a todo instante em The Post: A Guerra Secreta. A partir de uma trama baseada em um evento bastante conhecido na história norte-americana, o filme apresenta uma trama envolvente e diversos personagens em busca de um objetivo.

O longa acompanha Kay Graham (Meryl Streep), dona do The Washington Post, um jornal local que está prestes a lançar suas ações na Bolsa de Valores de forma a se capitalizar e, consequentemente, ganhar fôlego financeiro. Ben Bradlee (Tom Hanks) é o editor-chefe do jornal, ávido por alguma grande notícia que possa fazer com que o jornal suba de patamar no sempre acirrado mercado jornalístico.

Para contextualizar: a guerra do Vietnã durou quase duas décadas, envolveu quatro presidentes e gerou muita controvérsia. As mentiras sobre atuação do país no conflito haviam sido encobertas por muito tempo, até que o jornal New York Times iniciou uma série de matérias denunciando a atuação dos governos norte-americanos, com base no vazamento de documentos sigilosos do Pentágono. No entanto, o então presidente Richard Nixon processou o jornal com base na Lei de Espionagem, de forma que nada mais pudesse ser divulgado. Os documentos foram parar no The Post, fazendo com que a publicação da história fosse o alvo de muitas dúvidas por parte de Kat. É o que mantém o espectador na ponta da cadeira o tempo todo, mesmo com o final já conhecido por quem conheça razoavelmente a história do país.

A direção de Steven Spielberg valoriza bastante as atuações de seus protagonistas, mostrando longos diálogos em planos que destacam as interações entre eles. Por sinal, os diálogos entre Hanks e Streep alcançam momentos de pura química. Há alguns movimentos característicos do diretor, como a câmera que se move durantes algumas conversas e até mesmo circula os personagens. Spielberg também faz o uso frequente do zoom e quando o senso de urgência impera durante algumas apurações e investigações, a câmera fica propositalmente mais tremida e descoordenada.


Há sequências bastante inspiradas, como nos momentos em que certos personagens passeiam pela redação do jornal, dando o tom frenético que a situação vai ganhando com o desenrolar do filme. A organização das cenas é outro destaque, com os personagens sempre se movendo nos planos e o filme possui um dinamismo auxiliado pela boa montagem que um longa com esse tom precisa ter. Um dos melhores momentos é quando uma impressão de jornal é mostrada. Ali, desde a diagramação da página até os primeiros exemplares sendo vistos, uma combinação entre edição, trilha sonora e fotografia rende um momento muito vistoso. Aliás, visualmente o filme evoca os anos 70, embora se prenda bastante ao ambiente das redações de jornal, com um belo trabalho de direção de arte e figurinos.

O grande elenco de The Post reúne nomes conhecidos do cinema e também da TV. Matthew Rhys, Carrie Coon, Sarah Paulson, Alison Brie e o grande destaque Bob Odenkirk possuem papéis coadjuvantes que servem a trama em média e pequena escala. No entanto, cada um deles possui uma cena relevante e acrescenta a trama. O mesmo pode ser dito de Bruce Greenwood, Tracy Letts, Jesse Plemons e Michael Stuhlbarg, todos afiadíssimos.

Com uma grande atuação mais uma vez, Tom Hanks vive um editor empenhado em conseguir o furo jornalístico mais importante de sua carreira. Enquanto Kay pretende fazer com que o jornal cresça com a abertura do capital da empresa, Ben busca ascensão no próprio ofício jornalístico. Hanks é, ao contrário de seus últimos trabalhos, dinâmico e incisivo, o contraponto exato de sua companheira de protagonismo.

Indicada ao Oscar de melhor atriz (mais uma vez), Meryl Streep não explode em nenhum momento e possui uma atuação que é contida e até introspectiva em certos momentos. Única mulher em posição de poder no meio de muitos homens, ela consegue transmitir uma insegurança que esconde uma liderança a princípio latente, que aos poucos vai ganhando outra forma, à medida em que o caso avança. Ela também é mãe, viúva e amiga. Kay ocupa uma posição que se situa na linha tênue entre o dever e a amizade. Não é um papel simples e ela consegue atingir o necessário para nos convencer.

O hábil roteiro de Josh Singer e Liz Hannah discute a todo tempo a relação entre o governo e a imprensa. Alguns diálogos soam um pouco piegas, como no momento em que um personagem fala em trabalhar para os governados e não para os governantes. No entanto, nada disso deixa de ser atual e relevante. É o que o personagem de Hanks fala em uma cena sobre “bater de leve” no governo e a relação estreita e perigosa entre jornalistas e pessoas ligadas ao governo, assim como a linha tênue que separa a amizade de uma fonte jornalística. Por se tratar de um filme que requer atenção as muitas informações, alguns diálogos soam como expositivos. No entanto, acaba sendo uma necessidade em alguns momentos, que felizmente não são muitos. The Post sabe ser didático mas não subestima seu público. E isto é um diferencial.

Como um registro histórico, The Post: A Guerra Secreta não é o documento definitivo sobre o escândalo envolvendo o governo, nem revela verdades que já não tenham sido antes reveladas. Porém, pode-se considerar que o longa de Spielberg é uma carta de amor ao jornalismo e um lembrete – mesmo que romantizado – da necessidade de se lutar por algo que valha a pena.

Avaliação: 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...