Crítica | ‘A Forma da Água’ é o suprassumo de Guillermo del Toro

Um conto de fadas? Uma homenagem aos marginalizados? Uma metáfora genial? Sim para todas as perguntas. A Forma da Água (The Shape of Water) faz uma analogia ao mundo de hoje, de forma lúdica, romântica e brutal. Talvez este seja o melhor trabalho do diretor e roteirista Guillermo Del Toro.

O filme conta a história de Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma faxineira noturna que trabalha em uma base secreta do governo americano durante a década de 60, quando os nervos de americanos e russos estavam à flor da pele por conta da Guerra Fria. Eliza se envolve romanticamente com uma criatura, um “monstro” trazido da América do Sul para ser estudado e assim desenvolver projetos que possibilitem liderança americana na corrida espacial entre Estados Unidos e a União Soviética.

A primeira cena do longa é desenvolvida nas profundezas marítimas. Navegamos junto ao narrador, que descobrimos depois se tratar de Giles (Richard Jenkis), amigo e vizinho de Eliza, para dentro da casa dela, completamente submersa. Daí para frente, nos sentimos dentro da água durante todo o filme por conta da fotografia magnífica de Dan Laustsen e da belíssima trilha sonora, que mais parece cantos de sereia, de Alexandre Desplat. Assim, entramos na vida de Eliza.

Sally Hawkins está absolutamente maravilhosa no papel da protagonista. Eliza é um louvor à minoria: mulher, muda, faxineira… É uma “princesa sem voz” (como nos diz o narrador). Uma heroína temerosa e não casta. Um trovão silencioso! Sistemática, organizada, sonhadora, perfeccionista, cheia de tesão e amor.

Sally faz um trabalho delicado, feroz e emocionante, onde as palavras não são necessárias pois seu domínio da linguagem dos sinais e expressões preenchem todo e qualquer silêncio. Não vemos uma princesa padrão Hollywoodiano, o que certamente é um diferencial no filme, pois nos permite apreciar belezas reais, não padronizadas e humanas. E como é belo…Seu amor pela criatura (Doug Jones) é tocante e nos ensina a amar a diferença. Uma das falas mais bonitas do filme é “dita” por ela, quando Eliza explica para Giles sobre o amor dos dois: “…o jeito que ele olha para mim. Ele não sabe o que me falta ou como sou incompleta. Ele vê o que sou, como eu sou”.

Del Toro poderia se reter a contar uma história desse personagem, tamanha é sua complexidade, mas não: todos os outros personagem de A Forma da Água são tão complexos e completos como Eliza. Giles é um pintor fracassado, homossexual, vaidoso e sonhador. Vive no mundo da televisão, vendo programas musicais (até Carmen Miranda entra na programação), fugindo das tragédias dos noticiários. O personagem nos mostra como o mundo real é duro e preconceituoso e que sim, precisamos de uma válvula de escape.

O agente policial Strickland, interpretado por Michael Shannon, é o vilão do conto de fadas. Machista, ambicioso, sádico e moralista, protagoniza a maioria das cenas violentas do filme. Doutor Hoffstetler (Michael Stulhbarg) é um cientista russo que trabalha nos Estados Unidos e se vê na corda bamba entre o patriotismo e a profissão. Mas nem tudo é tragédia. Temos também Zelda (Octavia Spencer), a falastrona faxineira amiga de Eliza, que nos tira ótimas risadas.

Cada personagem do filme é uma enorme célula. É um ser humano, cheios de defeitos e qualidades, dotados de complexidade e dramas distintos que são bem desenvolvidos em apenas 2 horas e trinta minutos. Guillermo Del Toro e Vanessa Taylor conseguiram criar um roteiro absolutamente incrível, não deixando nenhum personagem banal ou irreal. É impossível falar completamente sobre o filme sem abrir longos debates ou ultrapassar escandalosamente o limite de caracteres que deve possuir uma crítica cinematográfica, então…

Para finalizar, Del Toro coloca na tela um romance onde existe amor, sexo entre espécies, dedos necrosados sendo arrancados sem anestesia, mortes extremamente violentas, abuso sexual e ataques preconceituosos. E tudo isso é lindo…


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Joel Tavares

Viciado em filmes, séries, teatro e chocolate. Se apaixonou pelo cinema quando era apenas um garotinho e viu Jurrasic Park na telona em inglês. Não entendeu uma palavra, mas os dinossauros eram demais