Crítica | ‘O Estrangeiro’ é Jackie Chan como você provavelmente nunca viu

Um thriller político desenvolvido com elementos de ação e drama. Em linhas gerais, essa pode ser uma boa definição para O Estrangeiro, filme que se baseia em uma tragédia pessoal e se desenrola para contar uma história de vingança, ao mesmo tempo em que utiliza o terrorismo para falar de hipocrisia e princípios.

O Estrangeiro acompanha a história de Quan (Jackie Chan), um pai e dono de restaurante londrino que perde sua filha em um atentado terrorista. Como a polícia não consegue encontrar os culpados, ele decide procurar os responsáveis e fazer justiça com as próprias mãos. Sem respostas, ele acaba indo atrás de um homem com prestígio no governo, Liam Hennessy (Pierce Brosnan). Depois de ser ignorado várias vezes, ele começa a ameaçá-lo e inicia uma onda de segredos do passado que vem à tona e podem ameaçar a integridade do seu cargo.

A direção é do veterano Martin Campbell, conhecido por comandar filmes de James Bond em duas fases distintas. Ele foi o diretor de 007 – Casino Royale (2006) e 007 Contra GoldenEye (1995), cujo protagonista ainda era o próprio Pierce Brosnan.  Aqui ele destaca justamente por captar elementos essenciais em filmes de espionagem, com mistérios que vão aos poucos sendo desvendados. O ritmo em grande parte é calmo mas conserva a tensão. O diretor, que comanda de forma muito eficiente as cenas de luta e ação, sabe como implementar o senso de urgência apenas nos momentos certos. Já a direção de fotografia de David Tattersall explora planos convencionais, conferindo simplicidade na maior parte do tempo.

O roteiro de David Marconi (Duro de Matar 4.0) tem um pouco de dificuldade em definir a temática do filme. Em um primeiro momento vemos a dor de Quan, abalado pela perda da filha, bem como sua busca pelos culpados e o luto de um homem aparentemente inofensivo e humilde. A partir do segundo ato, o filme mostra sua verdadeira cara mas assume um caráter repetitivo, visto que a busca por respostas acaba proporcionando momentos praticamente iguais dentro do filme. A subtrama política muitas vezes acaba deixando de lado a vingança em curso e o personagem de Chan acaba sendo ofuscado pela história que envolve o passado e o presente de Hennessy.

É curioso, por outro lado, o fato de que em alguns momentos os diálogos expositivos são utilizados para explicar coisas que poderiam ter sido mostradas, quando por exemplo um personagem diz ao outro o seu cargo no trabalho para dar bom dia. É algo corriqueiro no primeiro ato do filme, expondo a intenção de apresentar os personagens, mas que desaparece com o desenrolar do longa. Já o mistério que envolve a trama política e o terrorismo fornece poucos elementos e exige a atenção do público para desvendar a questão. O filme caminha para um final previsível mas não desinteressante.

As atuações dos protagonistas são muito eficientes. A começar por Jackie Chan, que impõe ao seu personagem uma carga dramática incrível e consegue retratar de forma densa a situação de Quan. A medida em que ele vai revelando quem realmente é, as coisas ficam mais interessantes. As tradicionais coreografias de luta do ator são ótimas mas como o tom do filme não é leve como em muitos  de seus longas, aqui ele bate, apanha e o sangue aparece em muitas cenas. Tudo de forma bastante crível. É uma pena que Quan fique de lado mais tempo do que deveria, pois sua participação em tela é o melhor que o filme apresenta.

Já o personagem de Pierce Brosnan possui mais tempo de tela do que deveria. Mas é importante dizer que sua atuação é muito boa. Ele dá conta do recado ao encarnar uma pessoa de confiança duvidosa. Você não sabe quais são suas intenções na maior parte do tempo mas é possível compreender as suas motivações, mesmo não concordando com algumas delas. O desenvolvimento dado a ele permite explorar ainda uma mudança de atitude que fica sempre sendo sugerida e instigada, aumentando o mistério.

O elenco de apoio tem nomes como Katie Leung (saga Harry Potter), Michael McElhatton (série Game of Thrones) e Orla Brady (Into the Badlands). No entanto, nenhum deles possuem um desenvolvimento além do raso, já que o filme envolve o jogo de gato e rato entre os protagonistas. No entanto, há de se destacar a trilha sonora de  Cliff Martinez, que contribuiu bastante para o ritmo e a tensão do filme.

Em um cenário que explora resquícios das tensões sociais que geraram uma onda de violência entre irlandeses e britânicos durante décadas, O Estrangeiro se estabelece como um filme que consegue entregar ação, mas tem em seu conteúdo político uma subtrama inflada, porém tensa. Além disso, temos Jackie Chan de uma forma não habitual e muito bem-vinda, além de um antagonista bem representado por Pierce Brosnan.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...