Crítica | 120 Batimentos por Minuto

O filme francês 120 Batimentos por Minuto despertou bastante interesse da crítica pelos festivais em que foi exibido no ano de 2017. Em Cannes, o longa levou o segundo prêmio mais respeitado do festival, o Grand Prix, além de ter concorrido à Palma de Ouro. Vencedor na categoria de melhor filme em língua estrangeira no Chicago International Film Festival, Florida Film Critics Circle Awards, Los Angeles Film Critics Association Awards, entre outros, 120 BPM também foi indicado ao Independent Spirit Awards, maior premiação do cinema independente dos Estados Unidos.

Causou surpresa, no entanto, o fato do filme ter sido preterido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. A exemplo do brasileiro Bingo, o longa não está presente na lista final dos que concorrem ao prêmio de melhor filme em língua estrangeira no Oscar 2018. Só que ao contrário do filme de Daniel Rezende, 120 BPM era um dos favoritos para figurar, ao menos, na lista curta.

Essa introdução, embora longa, se faz necessária pela mensagem e profundidade da história de 120 BPM. O filme do diretor francês Robin Campillo aborda os anos mais difíceis da epidemia de Aids em Paris de maneira bastante realista. O dia a dia da associação Act Up no início dos anos 1990, que visava sensibilizar e conscientizar a sociedade, opinião pública e membros da indústria farmacêutica sobre o alastramento da doença, são um retrato nu e cru de diversos aspectos do ativismo e da vida destes personagens.

Campillo conduz longa de maneira muito sólida. Logo no início já é possível sentir qual o tipo de tom que irá permear a narrativa. A câmera na mão e o senso de urgência são visíveis e o excesso de diálogos nunca é enfadonho. O filme é muito dinâmico, sua montagem é ágil e algumas transições de cenas são muito criativas. É o que acontece por exemplo, quando após um protesto, os personagens comemoram dançando e aos poucos a cena se converte bem gradualmente em uma molécula. Apesar do momento de celebração, o diretor faz questão de enfatizar: há uma corrida contra o tempo e os personagens não tem tempo a perder.

Campillo nos convida a ter um contato constante com as reuniões da Act Up, trazendo com isso uma empatia com estes personagens. Cada um deles possui uma personalidade própria bem definida e a organização não é retratada de forma perfeita. Ao mesmo tempo em que eles procuram conhecer sobre a doença e são afetados pela falta de perspectiva, o exagero em algumas ações e estratégicas, em diferentes níveis, são mostradas. O longa legitima a luta e o ativismo mas faz questão de expor o lado bom e o ruim de todas as suas atividades.

O roteiro escrito pelo diretor com colaboração de Philippe Mangeot nos mostra a jornada de vários jovens como Sophie  (Adèle Haenel), Thibault (Antoine Reinartz) e Eva (Aloïse Sauvage. No primeiro ato, quase que de forma didática, o filme nos insere dentro da realidade das reuniões, sua dinâmica de funcionamento e rapidamente já estamos inclusos naquele ambiente. A forma como a organização tenta lidar com uma sociedade conservadora, incluindo escolas e a indústria farmacêutica, é um retrato perturbador não somente do preconceito, mas da ignorância que há alguns anos era enorme (não que isso não exista hoje em dia). Muitas pessoas associavam a AIDS somente aos gays e muitos homossexuais eram contra o ativismo de grupos como o Act Up.

No entanto, logo após essa apresentação inicial, o longa explora a relação amorosa que surge entre o soropositivo Sean (Nahuel Pérez Biscayart) e o não infectado Nathan (Arnaud Valois). A partir daí temos uma entrega que envolve bastante intimidade e a câmera não tem medo ou pudor de mostrar cenas de sexo e o envolvimento entre os dois. Da mesma forma, vários porquês vão sendo desvendados, como a descoberta da sexualidade e como a AIDS entrou na vida destes personagens. Mais do que um estudo belo e íntimo, o filme prepara o público para o que vem a seguir e não poupa esforços em abraçar e desenvolver a história entre os dois.

As atuações em 120 BPM são bastante convincentes e a espontaneidade permeia o filme.  A direção consegue extrair ótimos momentos, com destaque para Biscayart. Você consegue comprar a ideia do personagem nos diferentes estágios em que ele se apresenta. E se por um lado a relação entre Sean e Nathan (que carrega a nossa visão inicial de fora do problema), que vão se entrelaçando com as ações da Act Cup, passam a consumir um bom tempo de tela, ela é suficiente para provocar, no ato final, um resultado capaz de levar a reflexão. Mais uma vez a cãmera de Campillo não nos torna capaz de ignorar os fatos. Aliás, o filme não poupa o espectador dos momentos bons e ruins, apesar de criar uma aura otimista em alguns momentos em meio a carga densa, que é adjacente à narrativa.

O filme também é muito envolvente ao utilizar uma trilha sonora que utiliza o dance music nos momentos em que precisa celebrar algo. Pequenas conquistas são tratadas como grandes feitos, enquanto na maior parte do tempo há uma luta constante pela vida. A direção de arte e a fotografia trabalham em conjunto para criar um belo trabalho visual, no entanto, por haver muitas cenas com planos fechados, os anos 90 são pouco percebidos em tela.

De maneira crua mas com muita sensibilidade, Robin Campillo consegue entregar um retrato bastante sincero e tocante sobre o panorama do ativismo no início dos anos 90. Como reflexão, 120 Batimentos por Minuto nos leva a pensar sobre esperança, amor, humanidade e preconceito, e sobre como nós evoluímos em muitos aspectos enquanto outros permanecem estacionados após algumas décadas.

Avaliação: 


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...