Crítica | Dark: 1º temporada – uma ficção científica para não desgrudar os olhos

Há um fato curioso que aconteceu no último ano. As melhores estreias da Netflix não tiveram o marketing de suas maiores produções, tampouco o hype gerado pela base de fãs da plataforma – e consequentemente suas séries. Muito por conta por terem estreado entre as série com maior pompa. Podemos incluir nesse grupo GLOW, Ozark, a ótima minissérie Godless e a alemã Dark. Sombria e com uma atmosfera imersiva, a produção apostou em uma abordagem diferente e ousada sobre a forma como enxergamos o tempo e sua linearidade.

Há uma comparação inevitável com Stranger Things mas esta fica somente no aspecto do gênero e alguns elementos referentes à sua ambientação. A série possui a ficção científica em seu cerne, uma usina nuclear sombria e pessoas tentando obter o controle de tudo através da ciência. Porém, Dark é bem mais reflexiva e possui temas existenciais em sua premissa. E apesar de se passar em uma cidade do interior, a série não se limita a explorar um evento em si ou um outro mundo. Todas as conexões e desdobramentos das ações dos personagens se encontram e formam um detalhado e complexo quebra-cabeças.

A trama com um aspecto sobrenatural começa com o desaparecimento de duas crianças, fazendo com que as relações entre quatro famílias sejam o centro de todo o desdobramento da temporada. Eventos que remontam o passado começam a acontecer, o que já nos dá indícios do que está por vir. Dark utiliza o seu ritmo lento para criar tensão em todos os episódios. Há um crescendo durante os capítulos que vão criando o clímax e não somente um momento catártico próximo do fim. Essa sensação de que tudo pode acontecer a qualquer momento é o que torna as coisas mais aterrorizantes.

Ao falar do tempo, a série remete diretamente a outras obras que utilizaram o tema na cultura pop, como a trilogia De Volta Para o Futuro, Exterminador do Futuro e Lost, embora utilize uma abordagem mais complicada de assimilar, com o uso de muitos atores que dão vida a vários personagens em muitas versões. Há também um clima noir, que é auxiliado por um competente trabalho de fotografia. Note como a atmosfera densa e gelada é favorecida pelo uso das cores frias, algo semelhante ao que acontece em obras do gênero investigativo, como por exemplo a primeira temporada de True Detective.

O conceito de tempo trabalhado em Dark faz com que pensemos passado, presente e futuro como meios para que os fatos aconteçam e não o fim. Ações tomadas no presente influenciam diretamente o que aconteceu há 33 ou 66 anos atrás, assim como o futuro. Mas afinal, o que veio primeiro? Esta é uma das grandes discussões presentes e que se aprofundam quando personagens coexistem com suas próprias versões no mesmo tempo e espaço.

Neste ponto, é importante ressaltar o empenho dos criadores Baran bo Odar e Jantje Friese, ao oferecer uma série que mesmo bebendo em fontes diversas, entregam um material original e criativo. E mais: em todo processo de criação ficcional, é preciso estabelecer uma regra. Dark faz isso e mantem sua narrativa focada em apresentar lentamente seus mistérios, sem cair no erro comum da auto-sabotagem. 

 

Além disso, todos os personagem atingem níveis de cinza nas mais variadas escalas. Ninguém totalmente bom ou totalmente ruim. Podemos identificar isso em personagens de grande destaque como Ulrich (Oliver Masucci) e Hannah (Maja Schöne). Em diferentes níveis, há um grupo de pessoas em um mesmo local há anos, que variavelmente realizam ações de cunho duvidoso. Desde o marido que trai a mulher até o menino que fica com a namorada do amigo traumatizado pelo suicídio do pai, nenhum deles é capaz de despertar a total simpatia do público, nem mesmo Jonas (Louis Hofmann), que em determinado momento da trama, assim como os outros, age em seu próprio benefício. 

A cinematografia em Dark é muito bem trabalhada em favor da narrativa. Podemos citar vários exemplos, como cavernas subterrâneas, florestas densas e chuvas que te fazem querer abrir o guarda-chuva no sofá. Todo o trabalho de movimentação de câmera até a mixagem de som é calculado de forma que o mais simples momento possa ser sentido, como um caminhar em um terreno com lama e água em abundância. A trilha sonora é econômica, às vezes evoca um ar oitentista e na maior parte do tempo utiliza de instrumentos de corda que crescem no momento certo da tensão. É quase que um trabalho em conjunto em que toda a parte técnica complementa o roteiro bem escrito e confuso propositalmente.

Neste ponto, é possível indentificar uma frieza inerente aos personagens. Alguns poderão dizer que é um reflexo do jeito alemão de realizar TV ou cinema. Outros irão afirmar que é apenas uma escolha criativa. De fato, Dark não é uma série que clame por um jeito mais caloroso, como vemos nas crianças simpáticas de Hawkins. Mas o único problema desta temporada é justamente um dos seus trunfos: a organização dos eventos.  Para isso, a série adota uma linguagem um tanto quanto didática em alguns momentos, com telas divididas que mostram os personagens como eles são no passado e presente. Talvez seja fruto da dificuldade em assimilar tantos nomes em épocas distintas ou apenas um estilo adotado para proporcionar uma melhor experiência do público.

De forma madura e direta, a série consegue evocar o terror na forma de um lento e o gradual suspense de ficção científica, que também abre espaço para a filosofia e explora o drama dos personagens, utilizando bastante o silêncio em seu favor. A série finaliza a temporada fornecendo mais respostas do que se poderia imaginar ao longo dos episódios, mas deixa importantes questões em aberto, como o futuro de personagens importantes e uma maior exploração da enigmática figura de Noah (Mark Waschke). Além de ser uma das melhores estreias da Netflix em 2017, Dark é uma das boas produções do gênero em exibição na TV.

Avaliação: 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...