Crítica | Bright: ação, fantasia e megalomania

Pense em uma Los Angeles habitada por humanos, orcs, elfos e fadas. Agora imagine também o realismo do nosso mundo, com direito a temas recorrentes em filmes policiais como a corrupção interna e o preconceito racial. É dentro deste cenário que Bright é construído, com um dos maiores orçamentos que a Netflix já empregou em uma produção.

O filme mostra um mundo futurista,  onde seres humanos convivem em harmonia com seres fantásticos. Mesmo nesse cenário infrações da lei acontecem e o policial humano Dary Ward (Will Smith), especializado em crimes, mágicos é obrigado a trabalhar junto com o orc Nick Jakoby (Joel Edgerton), o primeiro de sua raça a entrar para a polícia. Juntos eles precisam evitar que uma poderosa arma caia nas mãos erradas. Artefato que pode reviver o Senhor das Trevas, ausente da Terra há dois mil anos.

A missão de contar essa história megalomaníaca foi dada pela Netflix para David Ayer. O diretor amargou em 2016 um resultado abaixo do esperado em Esquadrão Suicida mas é inegável que sua mão para filmes de ação não é ruim. Estão em seu currículo  bons longas como Corações de Ferro (2014) e Marcados Para Morrer (2012). Só para constar, Ayer escreveu os dois filmes citados e também é responsável pelo roteiro de Dia de Treinamento (2001). Sua direção explora boas sequências de ação e neste filme até mesmo sua tradicional  – e as vezes exagerada – câmera lenta funciona em prol da narrativa. A sequência de abertura do filme também é um acerto do diretor, que nos insere de cara no universo urbano-fantástico, junto com o diretor de fotografia Roman Vasyanov. Mesmo em um mundo fantasioso, há uma abordagem estética que coloca o pé no chão, remetendo a obras como Distrito 9 Elysium, de Neill Blomkamp, e até mesmo a série Black Mirror, criada por Charlie Brooker.

No entanto, mesmo com muitas cenas que poderiam funcionar bem na tela grande, Ayer investe muitas vezes em planos mais fechados, além de conduzir a trama a partir de  em uma ambientação escura. A maioria das cenas acontecem a noite e quando não há uma variação de cenários e planos, em certo momento há um certo cansaço visual. Porém, os bons efeitos visuais empregados na produção e as boas cenas de luta e perseguição não fazem com que esse estilo seja o grande tropeço.

A grande derrapada de Bright está no roteiro. Escrito por Max Landis, que assinou o bom Poder Sem Limites (2012) e um punhado de produções de ação e comédia “meia boca”, o filme possui um bom argumento, com uma construção de universo bastante interessante. A ideia da segregação dos orcs em paralelo ao racismo, que inclusive utiliza um policial negro como o elemento preconceituoso da história, é inteligente. Porém, o enredo não se aprofunda naquilo que poderia ser o grande diferencial da trama, que é a relação entre os personagens e como eles lidam com essas diferenças. Ao invés disso, o longa desenvolve sua trama se apoiando em diversos clichês, como um artefato misterioso que pode destruir o mundo e acaba desperdiçando sua boa premissa.

Outro ponto a destacar e que parece ser ignorado por Landis são personagens que pouco acrescentam a trama. É o caso, por exemplo, de Edgar Ramirez, que vive um agente federal que parece ter apenas um único propósito na trama: chegar atrasado nas cenas de crime. Outra personagem subaproveitada é a vilã Leilah, interpretada por Noomi Rapace. A motivação de policiais corruptos, clãs de Orcs e Elfos é a mesma: capturar a tal varinha mágica. Porém, o desenvolvimento superficial da personagem a torna apenas mais uma dentre os demais.

A dinâmica entre os policiais Ward e Jacoby é o que acontece de melhor em Bright. Mesmo que em muitos momentos Will Smith seja apenas Will Smith, ele funciona muito bem neste tipo de filme. Joel Edgerton não faz por menos. Ele rouba a cena, apresentando uma agradável e convincente atuação. Debaixo de próteses e maquiagem, ele consegue passar os sentimentos que o personagem precisa transmitir e os atores tem uma química que compensa a falta de um algo a mais nessa interação, sobretudo nos textos. Se Ayer e Landis não conseguem o melhor dos resultados no desenvolvimento, como Buddy cop o filme se sai bem. Lucy Fry também agrada como e elfa Tikka, funcionando como terceiro elemento que acompanha a dupla do segundo ato em diante.

A direção de arte e a maquiagem utilizadas no filme são dignas de aplausos. Todos os personagens, sem exceção, possuem uma identidade visual muito bem definida e os efeitos práticos utilizados mostram que, se bem aplicada, a técnica torna-se mais eficiente do que efeitos de computação mal empregados. Se de maneira geral Bright não é um filme brilhante, nestas categorias o longa é candidato a premiações, sendo inclusive um dos sete filmes que estão na lista curta do Oscar de Melhor Cabelo e Maquiagem.

No entanto, mesmo com as falhas, seria um erro afirmar que Bright é um entretenimento ruim. Se a execução da boa ideia é falha, o filme tem a capacidade na maior parte do tempo em prender a atenção, mesmo possuindo uns quinze minutos a mais do que o necessário para o que foi mostrado. A dupla de protagonistas e a ação aliada ao bom ritmo da trama tornam o longa mais palatável e ele deve encontrar o seu público.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...