Crítica | Mr. Robot: 3º temporada é uma das melhores coisas da TV em 2017

Após uma brilhante primeira temporada, intercalando a confusão mental de Elliot (Rami Malek) e mostrando os planos da Fsociety, o segundo ano de Mr. Robot investiu em um mergulho profundo na psiquê do protagonista. Porém, mesmo com uma ousada cinematografia e as atuações sempre afiadas, enquanto ensaiava a expandir seus horizontes, o excesso de mistérios e a falta de elementos até para especular tornaram a série um jogo de esconder onde pouco era mostrado.

Nesta terceira temporada, Sam Esmail fez o necessário para recuperar o tempo perdido. Ao comparar o panorama dos personagens do primeiro ao último episódio desta temporada com a do anterior, nota-se uma boa evolução, tanto no desenvolvimento dos personagens, quanto na trama em si. A começar por Elliot, que após ser baleado retorna ao jogo sem que precisássemos passar pela desagradável experiência de acompanhar capítulos a fio sua melhora. Ao finalizar a série, seus pensamentos em relação ao mundo e a maneira de agir foram transformados pela sua jornada. Fruto da agilidade da terceira temporada, que não atropelou o andamento dos fatos mas manteve constantemente sua trama avançando com um bom ritmo.

Da mesma forma, muitas pontas soltas foram ligadas, com exceção de alguns mistérios que constituem parte da trama central, que envolvem os interesses do Dark Army e seu líder. A propósito, a organização cresce bastante neste terceiro ano, tanto pelo tom mais ameaçador de suas ações, quanto pela sua líder Whiterose. Com uma ótima composição de personagem, atuando de forma precisa nas mudanças que  a atuação exige, BD Wong ganha mais tempo de tela para brilhar, agora que é um personagem recorrente na série. Suas interações com Phillip Price (Michael Cristofer) – personagem que carrega uma das grandes revelações da série – e a cena final em sua banheira são momentos que evidenciam o cuidado com o qual Wong constrói seu enigmático personagem.

As ramificações do Exército das Trevas também constituem um passo importante na desassociação da série com o plot da primeira temporada. Ao mostrar um grupo que controla grandes corporações, influencia decisões governamentais e exerce seu poder em um dos maiores departamentos de investigação dos EUA, mesmo que já tivesse insinuado nas entrelinhas, Mr. Robot se beneficia em não vincular mais sua premissa em invasões de computador, utilizando essas habilidades dos personagens apenas como um recurso. Se antes tínhamos a mudança de fora como mote, passamos pela mudança por dentro da E Corp até chegarmos enfim as cabeças que realmente constituem o controle.

A música de Mac Quayle e a fotografia de Tod Campbell mais uma vez elevam o aspecto técnico da produção. Juntos com Sam Esmail, eles atingem o ápice em eps3.4_runtime-err0r.r00, episódio que pode ser considerado um dos melhores da TV em 2017. Em uma combinação perfeita entre escolha de planos e movimentos de câmera, as enervantes cenas sem corte foram embaladas pela inquietante música eletrônica que transferiram o suspense psicológico e a paranóia para o espectador. No entanto, mais do que bons episódios, Mr. Robot apresentou um constante bom andamento para a sua trama, abrindo espaço inclusive para um momento de absoluta humanidade no eps3.7_dont-delete-me.ko, ao trazer no menino Mohammed, com um espelhamento narrativo para Elliot.

As atuações deste ano também constituem um grande acerto para Mr. Robot. Christian Slater, indicado ao Globo de Ouro pelo seu papel como alter-ego de Elliot, toma para si todos os momentos em que está em cena. Como houveram alguns flashbacks de Edward Alderson, é possível perceber a mudança na expressão corporal e no tom de voz que o ator emprega para viver o pai de Elliot. Arrisco dizer que, em 2018, uma indicação para o Emmy poderá acontecer.

O crescimento de personagens femininas fica bem evidente, sobretudo Angela (Portia Doubleday) e Dom (Grace Gummer). As duas crescem bastante na segunda metade da temporada, com suas respectivas catarses emocionais, enquanto Darlene (Carly Chaikin) faz o caminho inverso, possuindo boa participação nos primeiros episódios e voltando a ter grande importância no episódio final. Já a morte de Joanna Wellick (Stephanie Corneliussen) é uma das grandes surpresas da temporada. A cena é uma das mais chocantes em toda a série e de quebra, Esmail conseguiu resolver um problema que era ter Joanna como peso morto para o andamento da trama.

A adição de Bobby Cannavale permitiu a série ter não apenas mais um personagem estranho e desfuncional. Irving é uma espécie de bomba relógio, que demonstra uma calma que reveste uma personalidade verdadeiramente insana. Sua últimas cenas na temporada são o maior exemplo disso e o mesmo pode ser dito do carismático Joey Bada$$. Você até pode não gostar de Leon e toda a sua psicopatia que sempre abre espaço para discutir temas irrelevantes no contexto da série como programas de TV. Mas os contrastes destes personagens são justamente o que os tornam interessantes. Afinal de contas, você admitiria que um homem que assassina o outro com um machado é escritor de romance e assiste reality shows?

O plot da temporada deu a oportunidade para o aparecimento de personagens com menos espaço, como o agente Santiago (Omar Metwally). Sua morte, inclusive, não serve apenas para dar peso as ações do Dark Army. Ela dialoga com a falta de escolha dos personagens e nos mostra outro ponto de vista da situação, quando o bastão é passado para Dom. Por outro lado, ainda que desempenhando um papel satisfatória para a trama, Tyrell Wellick (Martin Wallströmparece ter ficado como um personagem perdido na história. Mostrar em um episódio a sua ausência na segunda temporada foi uma boa decisão da série. No entanto, a falta de ações mais conclusivas para a história o tornaram um pouco dispensável em certos momentos.

Na temporada passada, Rami Malek entregou uma boa atuação mas seu personagem parecia possuir uma nota só. Neste ano ele volta a brilhar e da mesma forma como Mr. Robot cresce, sua interpretação ganha novos contornos. A decisão do diretor em nos mostrar mais de Malek como Mr. Robot ajudam a nos sintonizar mais com a sua condição e ele consegue fornecer novas nuances a Elliot. Além disso, há momentos dramáticos que podemos enumerar, além de outros mais amenos, sobretudo no episódio oito. Malek atinge aqui a maturidade em relação ao seu personagem, que tentou se desintegrar mas que no final das contas, acabou trabalhando junto com seu alter-ego.

Avançando sua trama sem perder consistência no roteiro, Sam Esmail recolocou Mr. Robot nos trilhos na terceira temporada. A medida em que a série caminha para uma inevitável resolução, com apenas mais uma ou duas temporadas admissíveis, seus personagens tornaram-se mais interessantes em suas respectivas jornadas. A terceira temporada termina imprevisível e totalmente diferente do início, combinando uma série de elementos bem empregados que a tornaram uma das séries mais interessantes em 2017.


Clique aqui e curta nossa página no Facebook

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...