A beleza do grotesco: Uma análise da estética de ‘Peles’ (Pieles)

Para começo de conversa, é preciso destacar que essa não é uma crítica, mas sim, uma análise que pretende dissertar especificamente dos elementos estéticos da obra cinematográfica Peles (Pieles).

Ganhando destaque no 67º Festival de Berlim, assim como notoriedade no serviço de streaming Netflix, o filme espanhol dirigido por Eduardo Casanova tem dividido opiniões tanto por parte do público quanto por parte da crítica. Há quem ame e há quem odeie essa obra, portanto, pode-se dizer que definitivamente não se trata de uma película esquecível.

Peles é um filme composto por uma série de esquetes envolvendo diversos personagens que apresentam um elemento em comum, são indivíduos que possuem deformidades, sejam elas físicas psicológicas. De qualquer forma, o enredo apresenta esses personagens em situações inusitadas. Mesmo que se diga que Casanova aborda esse tema tão sensível de maneira preconceituosa, explorando o fetiche das deformidades físicas, não há como negar que há características louváveis nessa produção.  Nossos sentidos são extremamente estimulados e, por meio da narrativa, somos levados a refletir acerca de nós mesmos, especialmente em se tratando do aspecto abusivo e hostil do ser humano.

A estética de Peles é o seu ponto mais forte. O filme mostra pessoas comuns que nasceram ou adquiriram durantes suas vidas, deformidades. Somos apresentados a uma mulher sem olhos, pessoas com nanismo, um homem com graves queimaduras, uma jovem garota com o ânus no lugar da boca e a boca no lugar do ânus, assim como uma mulher com metade do rosto deformado, com uma pele que cobre seu olho esquerdo. Todos esses personagens são, à sua maneira, grotescos, mas em nenhum momento, apesar de o filme fazer referência aos antigos shows de aberrações, adota uma abordagem sinistra ou assustadora. Não se engane, o filme é grotesco e provocativo, mas procura exibir a beleza que existe nessas deformidades sob um ponto de vista aguçado e peculiar.

Temos também personagens cuja deformidade não é externa, mas sim, interiorizada. Tomando como exemplo dessas deformidades psíquicas, podemos citar um personagem que sofre de uma intensa compulsão por pedofilia e um garoto que mutila as próprias pernas, acreditando que não as pertence.

A Direção de Fotografia, juntamente com a Direção de Arte, é uma combinação fabulosa, sempre com imagens em cores com tons pastéis, alguns voltados para o roxo e para o rosa (esse rosa, assemelhando-se aos tons de pele dos personagens). A iluminação é sempre abundante, como se quisesse exibir seus ‘deformados’ como objetos de admiração em um quadro. Não podemos deixar de notar também, os belíssimos planos perfeitamente simétricos.

A fotografia, assim como a narrativa do filme, não se mantém estática e nem passiva. Percebe-se uma atenção toda especial em cada frame, acompanhando as emoções dos personagens com as cores e os enquadramentos. Já a trilha sonora de Peles é algo que está sempre presente, chegando inclusive, a ficar na cabeça do expectador.

Por fim, mas não menos importante, é preciso destacar a atuação de praticamente todo o elenco, assim como da direção de atores, responsáveis por uma narrativa bastante peculiar, que consegue transmitir os sentimentos que cada cena pede, provocando ao expectador, uma experiência única, nos presenteando com belas imagens, histórias dramáticas, momentos de humor negro e, claro, várias cenas de revirar o estômago.


  FICHA TÉCNICA

Título: Pieles
Ano de Produção: 2017
País de Origem: Espanha
Duração: 77 minutos
Gênero: Drama
Direção: Eduardo Casanova
Elenco: Adolfo Fernández, Ana Polvorosa, Antonio Durán Morris, Candela Peña, Carmen Machi, Carolina Bang, Eloi Costa, Javier Bodalo, Joaquin Climent, Jon Kortajarena, Mararena Gómes, Secun de la Rosa.
Sinopse: Neste drama social sombrio, personagens deformados e desfigurados precisam encontrar maneiras de esconder suas diferenças e lidar com o resto da sociedade.


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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...