Crítica | Star Wars: Os Últimos Jedi – Um episódio épico e emocionante

Depois de um familiar e seguro Episódio VII, Star Wars deu um salto muito mais ambicioso em Star Wars: Os Últimos Jedi. Não que O Despertar da Força, dirigido por J.J. Abrams, não mereça destaque por trazer de volta uma das maiores franquias da história do cinema. Porém, é no Episódio VIII que a série conquista um patamar nunca antes visto em termos de possibilidades visuais e criativas, embora ainda não tenha a mesma importância do incontestável Episódio V: O Império Contra-Ataca.

Em Star Wars: Os Últimos Jedi temos uma continuação direta do longa anterior. Após encontrar o lendário e recluso Luke Skywalker (Mark Hammil) em uma ilha isolada, Rey (Daisy Ridley) busca entender o balanço da Força a partir dos ensinamentos do mestre jedi. Paralelamente, a Primeira Ordem de Kylo Ren (Adam Driver) se reorganiza para enfrentar a Aliança Rebelde.

A direção de Rian Johnson é bastante eficiente em dar ao público o que ele quer, sem abrir mão de uma identidade própria. Sendo assim, Os Últimos Jedi é uma prova de que a reverência a trilogia clássica não impede o diretor de ousar e trazer um frescor para a franquia, mesmo em um filme situado entre o início e o fim de uma nova sequência. O Episódio VIII é, portanto, mais do que uma transição. Ele é um capítulo que eleva em larga escala a cinematografia da série, para aplicar o que o enredo de Star Wars pede: batalhas no espaço, um ótimo CGI sem abrir mão de efeitos práticos, planos abertos exuberantes e lutas bem coreografadas (uma delas bastante empolgante), além de uma representatividade cada vez maior para as mulheres.

As duas horas e meia de filme são preenchidas de forma bastante dinâmica, há fluidez e o filme nunca dá a sensação de que deveria acabar ou que possui mais tempo do que deveria. As constantes viradas no enredo e a belíssima montagem executada por Bob Ducsay ajudam bastante nesse trabalho, conferindo dinamismo nos momentos necessários e sendo precisa nos cortes. Inclusive, Os Últimos Jedi conserva aquelas transições de cena “cortina” da saga clássica e apresenta alguns recursos de fade out, quando sai de um personagem para o outro.

Não há como exaltar o aspecto técnico do filme sem citar dois grandes trabalhos. O primeiro diz respeito a fotografia de Steve Yedlin. Seguramente, Os Últimos Jedi  tem um conjunto de frames mais belos de toda a saga, em momentos de puro deleite visual. Já a trilha sonora de John Williams dessa vez disse ao que veio. O senso de urgência, a evocação dos temas clássicos e a sensação constante de space opera são frutos de um trabalho bem mais inspirado que o longa anterior. É impossível não se emocionar em um punhado de cenas, inclusive naquelas que surpreendem o público. Os Últimos Jedi é um filme de reviravoltas e elas impactam.

O roteiro, que também é escrito por Rian Johnson, possui uma estrutura simples e que distribui personagens novos e antigos, com uma missão central e três subtramas que são intercaladas durante a narrativa. Além disso, Os Últimos Jedi conversa com nosso mundo, quando introduz a temática do comércio de armas e aposta, assim como na segunda trilogia de George Lucas, em mostrar crianças escravizadas. O conceito de equilíbrio da Força também é discutido de uma maneira ainda não abordada na saga, focando no equilíbrio entre as forças do bem e do mal.

Personagens como Luke Skywalker, Rey e Kylo Ren (Adam Driver) recebem um desenvolvimento amplamente satisfatório, com passado e presente sendo abordados. Enquanto Skywalker tem uma jornada do mestre que não é clássica, Rey e Kylo Ren possuem arquétipos desconstruídos de herói e vilão. Assim, a tríade central que move a trama principal é moldada para que, além da imprevisibilidade, o aspecto emocional esteja sempre sendo colocado nas ações dos três. Rey e Kylo Ren possuem desfechos que são coerentes com o que o filme constrói, enquanto Luke faz o cinema vir abaixo por duas vezes e em uma terceira oportunidade, atinge em cheio o coração de novos e antigos fãs.

Poe Dameron (Oscar Isaac) recebe aqui uma atenção maior, inclusive sendo o catalisador de todos os eventos cruciais do enredo. O filme abre espaço para inserir novos personagens, como Rose (Kelly Marie Tran), e dá aos outrora protagonistas a oportunidade de mesmo sendo coadjuvantes serem inseridos no filme de forma orgânica, como é o caso da General Leia Organa (Carrie Fisher) e até mesmo o Chewbacca. Há também o crescimento do General Hux (Domhnall Gleeson), dando um pouco mais de substância à Primeira Ordem. A presença da Vice Almirante Holdo (Laura Dern) é igualmente bem vinda, acrescentando mais poder às mulheres e com o charme e presença ímpar da atriz.

No entanto, a balança não atinge o equilíbrio quando o filme subtiliza personagens como Finn (John Boyega), embora sua subtrama – que é a de menor interesse no longa – nos apresente o interessante DJ (Benicio Del Toro) e introduza um novo planeta que é visualmente incrível, inclusive em seus detalhes. O Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) está mais ameaçador e imponente aqui, porém, é decepcionante a forma como se desenvolve seu arco, tanto neste filme quanto em relação ao seu passado. Um dos maiores desapontamentos em O Despertar da Força havia sido a Capitã Phasma (Gwendoline Christie) e agora, isso mais uma vez acontece. Uma pena, diga-se.

Um dos fatores que dão ao filme o status de grandiosidade é a maturidade em assumir uma nova direção para a franquia, sem desrespeitar o cânone introduzido lá atrás em Uma Nova Esperança. O filme bebe na fonte da saga clássica ao dar a importância devida aos personagens antigos e consegue firmar, a partir do antagonismo de seus protagonistas, um novo rumo a partir dos lados da força representados por Kylo Ren e Rey. Se O Despertar da Força representou o começo da passagem de bastão entre velho e novo, Os Últimos Jedi executa a transição e prepara o terreno para o desfecho de forma bem executada.

Em última instância, Os Últimos Jedi é uma experiência cinematográfica emocionante e que nos coloca dentro da história a todo tempo, conectando o público com os personagens principais de maneira instantânea. É um filme feito para o fã, que poderá reclamar de pequenas inconsistências, algo que é adjacente inclusive em Star Wars. Porém, nada disso compromete o resultado do longa, que funciona para o público menos aficcionado porque é um bom filme no que se propõe a fazer. O Episódio VIII consegue ser épico em quase todos os sentidos e é um dos melhores filmes da saga.

 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...