Crítica | Mr. Robot 3×08: Eles vão ficar bem? eps3.7_dont-delete-me.ko

Se você observar de forma superficial, vai enxergar em eps3.7_dont-delete-me.ko um episódio que até pode soar como um filler. No entanto, focando na busca pelo equilíbrio de seu protagonista, Mr. Robot tratou de desenvolver o momento angustiante de seu personagem principal, através de conexões emocionais que o fizeram se reencontrar com o passado e assim, manter as esperanças no presente.

Escrito e dirigido por Sam Esmail, seu estilo se faz presente do início ao fim aqui. Note como ele apresenta com calma o flashback de Elliot com seu pai e ai, duas coisas bem interessantes surgem. Primeiro é o fato que várias coisas mostradas ao longo do enervante diálogo servem como referência e são espelhadas narrativamente durante o episódio, como a pipoca com M&M´s, a jaqueta que ele pega e a relação entre pai e filho que se refletiria mais tarte. O segundo ponto é a abertura com os letreiros da série que aparecem no cinema. “Sente, relaxe e aproveite o show”, diz narrador antes de surgir a abertura.

Ainda sobre o flashback, é curioso notar que uma simples noite de cinema com o pai poderia significar um momento afável em meio ao caos que impera nesta ótima e sufocante terceira temporada. No entanto, estamos falando de Elliot Alderson, um menino que foi empurrado pela janela e carrega no braço a marca de um trauma. A mesma criança que se senta ao lado de um lugar vazio  o cinema e fala com o nada, no que pode ter sido o primeiro dia de seu alter ego. O mesmo menino que anos mais tarde, volta ao fato de ter que conviver com mortes, dor e um vazio que nunca é curado.

É correto admitirmos também que a temporada tem voltado suas atenções para a angustia de Elliot e o sentimento de impotência quanto aos fatos que ele não pode controlar. O Dark Army como força dominante e Mobley/Trenton associados ao terrorismo, além da presença dos militares nas ruas são a prova de que, se o mundo precisava ser mudado antes do surgimento da Fsociety, isto não aconteceu para melhor. As coisas só pioraram.

Assim, a decisão da série em deixar o FBI de lado, bem como a E Corp e o Dark Army trazem um pouco de humanidade e esperança aqui. Em  eps3.7_dont-delete-me.ko vemos mais um pouco do que se tornou o mundo, refletido nas ruas militarizadas e que possuem toque de recolher, e o fato de que a E Corp continuará bem, mesmo com os 71 ataques por causa do E Coin. Mas também temos um inesperado surgimento que conecta Elliot ao garoto Mohammed e também faz ele se aproximar de Darlene e Angela. Os três são, a propósito, aqueles que mais sofrem e precisam lidar com o futuro provocado pela execução da Fase 2.

No entanto, Elliot é quem representa essa jornada de culpa e autodestruição. A morfina com a qual ele suavizaria o processo para deletar sua própria vida rende um momento esquisito e paranóico com o traficante. Mas nada é por acaso desta vez. A paranóia está por todo canto da cidade, assim como a desesperança. As pessoas tem medo mas simplesmente seguem suas vidas. Talvez este seja um recado de Esmail para o momento atual de seu país, assim como certos diálogos apresentados.

“Se eu fosse presidente eu seria capaz de ficar aqui, na casa em que vivemos. Eu encontraria uma maneira de trazer de volta minha irmã. Eu colocaria os reais bandidos na cadeia. E… eu faria todo mundo comer torradas no jantar. E então faria todo mundo ser legal comigo.” Mohammed.

Tais momentos mostram como Mr. Robot resolveu expandir sua mitologia para além de invasões de computadores e conspirações, mostrando situações que envolvem o uso do terrorismo como bode expiatório, através da associação de Mobley e Trenton com grupos criminosos do Irã e na triste constatação de Arash, quando afirma que não há mais espaço para eles ali. Pode não parecer tão significativo para nós, mas para um criador de ascendência egípcia, assim como seu protagonista (Rami Malek), tais cutucões na ferida da América da era Trump vem em boa hora.

É na visão rude com que Mohammed enxerga o mundo ao redor que reage mal aos seus pais imigrantes, e na esperança de um menino que gostaria de ter um telefone e nunca foi ao cinema que a conexão emocional se estabelece. Isso faz com que Elliot saia do cinema, encontre o garoto, jogue fora sua morfina e vá atrás do irmão de Mobley e Angela. É o que o faz desabar diante de toda a situação num choro contido e sincero. Elliot perdeu o jogo e foi derrotado. Mas é na humanidade e nos laços que ele encontra forças para não se auto-destruir e seguir em frente. É uma bela performance do garoto Elisha Henig  e de Rami Malek.

A terceira temporada tem sido pautada em um sufocante cerco que se fecha em direção a Elliot, Darlene, Angela e Dom. Tudo sugere o caos e a destruição deles, por dentro e por fora. Mas é com a esperança de que todos vão ficar bem que as últimas cenas de Mr. Robot entregam mais dois grandes momentos. Primeiro, com Angela e Elliot separados por uma porta, em um belo jogo de sombras e que mostra o estado atual dos personagens, com afeto de um lado e escuridão do outro.

O segundo momento e que mostra uma revelação importante é o e-mail que Elliot recebe de Trenton (o mesmo que ela disse a Mobley no episódio em que eles morrem). A possibilidade de reverter o hack a partir de keyloggers instalados por Romero como forma de vigilância, podem representar uma luz no fim do túnel e um ponto de virada no fim da temporada, com um possível gancho para o próximo ano.

Certos episódios de Mr. Robot trazem um pouco de abstração e estranheza, mas a narrativa e o roteiro deste eps3.7_dont-delete-me.ko nunca foram tão claros. É hora de encontrar nas pessoas a esperança para uma mudança. É justamente enfrentando o passado e utilizando as referências dele para o futuro que Elliot irá encontrar a sua paz. Ou não. O otimismo não é uma palavra muito em alta nesta série mas, vejamos qual será o rumo será dado por Sam Esmail para o encerramento desta 3º temporada.

Última Palavras

* Há muitas referências à cultura pop neste episódio. No início, o cartaz de Babe é visto. Ao longo do episódio, Guerra dos MundosDe Volta Para o Futuro Perdido em Marte são citados e rendem momentos irônicos e engraçados.

* A propósito, Sam Esmail pegou pesado com a crítica – e com o Rotten Tomatoes. Mas como vem de Elliot, tudo bem, ele não deveria se importar com essas coisas mesmo.

* Na última semana, Darlene esteve no apartamento de Angela e sua participação neste episódio também se resume a isso: ir no ap de Elliot e se abraçar ao irmão, algo que quase não vemos e que só mostra o quão ela está frágil.

* Elliot voltando ao jogo e colocando o irmão de Mobley em uma encruzilhada é mais uma forma de vermos o quanto ele decidiu inverter seu pensamento de morte.

* Desta vez, a participação de Christian Slater se resumiu ao papel de Edward Alderson. Nada de Mr. Robot por aqui, dando foco somente ao protagonista.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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