Crítica | Mr. Robot 3×06: Só olhamos para a frente em “eps3.5_kill-pr0cess.inc”

Com uma narrativa totalmente imersiva e tensa, eps3.4_runtime-error.r00 havia apresentado aquele que já é considerado por muitos (inclusive por este que vos escreve) o melhor episódio de Mr. Robot. A missão de eps3.5_kill-pr0cess.inc poderia ter sido ingrata, mas através da sequência imediata dos acontecimentos no prédio da E-Corp, a paranóia crescente e a subversão de expectativas foram o ápice dessa jornada causada pela explosiva execução da fase 2.

Este episódio foi escrito por Kyle Bradstreet, roteirista que já marcou presença em todas as temporadas da série. Aqui ele encontra no flashback de Angela uma forma de voltarmos no tempo em uma reunião extremamente desconfortável, para compreendermos melhor eventos do passado. É sempre bom, inclusive, ver Christian Slater atuando como o pai de Elliot e Darlene. Note como seus trejeitos são característicos da pessoa que Elliot enxerga e encarna mas sua a expressão é muito mais serena e amigável.

Mas seria um engano pensarmos que isto é somente uma forma de anteceder os conturbados eventos do presente e nos dar novas informações, como o tratamento de leucemia que a mãe de Angela se recusa a dar prosseguimento, ou que a jovem menina gostava de assistir uma versão animada de De Volta Para o Futuro. As últimas palavras do “verdadeiro” Mr. Robot falam sobre Angela ajudar Elliot, sempre que ele precisar no futuro. Eis o grande conflito moral desta temporada: saber qual o lado certo e se render – ou não – a razão e emoção.

A ambiguidade que toma conta dos personagens tem impulsionado a história, com Elliot querendo parar a fase 2 e já tendo admitido conscientemente não querer fazer isso. Da mesma forma, Darlene se divide entre ajudar o FBI ou livrar a pele do irmão, enquanto Angela se sente emocionalmente comprometida com o amigo mas não hesita em cooperar com Mr. Robot.

Mais uma vez a direção de Sam Esmail usa e abusa de planos fechados nos rostos dos personagens. A primeira visão que temos do presentes são os olhos amendoados de Angela, umedecidos pelo rímel que escorre pelo seu rosto. Não haveria manipulação melhor de luz e sombra na cena, pois aquela garotinha dá lugar, agora, a uma mulher que de forma implacável está disposta a contribuir para a execução de um plano que irá comprometer vidas. Todas as escolhas apresentam contrastes e perspectivas. Para Elliot, que detêm uma incredulidade diante das ações de Angela, é um ato deplorável. Igual ao caos gerado por sua revolução. Estamos diante, portanto, de personagens pintados nos mais escuros tons de cinza e o que os aproxima é o fato de estarem completamente perdidos.

O que se viu a partir da tensão estabelecida entre os dois foi uma alternância da narrativa, que deu lugar a ação em tempo real da semana anterior. O que foi muito acertado pois haviam várias demandas em curso, como Elliot brigando consigo mesmo para parar a fase 2; O meticuloso plano do Dark Army sendo apresentado e utilizando Angela e Tyrell como peões; e Dom perseguindo e capturando Tyrell, após seguir as pistas certas sem o apoio do agente Santiago. O mais interessante é notar que todos estavam no caminho correto mas tudo não passava de uma mera distração.

A medida em que o cerco se fecha, a edição do episódio vai ficando cada vez mais frenética, destacando o ápice da tensão. A estrutura aqui é muito eficiente, caminhando através de histórias diferentes que no final se combinam em uma só. Todavia, há um quarto núcleo que em uma breve passagem, através de um enquadramento que se difere totalmente da estética do episódio, nos mostra mais um contraste. Verdadeiros jogadores de uma trama que vai além de uma revolução, Whiterose e Phillip Price conversam em um momento mais relaxado, mas não parece haver tempo para isso na agenda dos dois. Note como o roxo, que denota luxo e riqueza, se mistura ao vermelho das rosas, que demonstra a urgência do episódio. A ordem para prosseguir com o plano do Dark Army mostra o quão precioso é o tempo para Whiterose.

As cenas em que Elliot perde o controle e retorna a consciência representam o que há de melhor no episódio. Isto poderia soar repetitivo, não fosse a maneira encontrada para dimnuir o espaço até os apagões. Primeiro quinze minutos, depois cinco, até chegarmos quase ao tempo real. É bizarro e ao mesmo tempo assustador a forma como Rami Malek transmite sentimentos como imprecisão, dor e aflição. A reação de um funcionário da E Corp ao presenciar os acontecimentos são inclusive o alívio cômico do tenso episódio.

Mas o motivo pelo qual realmente a sequência é impactante é o anti-clímax gerado para os personagens, por mais contraditório que possa parecer. A trégua entre Elliot e Mr. Robot parecia ser o desfecho bem sucedido para para o plano, indicando uma vitória do protagonista pelo que é certo. Ao saber que tudo não passava de uma distração, nós, assim como ele, percebemos que nossa percepção foi tão alterada que esquecemos de observar ao redor.

Analisando o trabalho de Elliot dentro da E-Corp, ao desviar os arquivos de papel  e distribuí-los por todo país, foi criado um cenário ainda mais favorável para o grupo liderado por Whiterose. Então, qual seria a razão para que, ainda assim, o Dark Army fosse explodir o edifício? Matar civis? Não, apenas para distração. Inclusive a nossa.

A ajuda que Mr. Robot dá ao impedir a explosão do prédio em Nova York também pode significar muita coisa. Um dos motivos seria não haver documentos por lá. O outro, a recuperação do equilíbrio sobre suas ações. No entanto, todos estão longe de terem qualquer tipo de controle em relação ao que fazem. Neste momento, Mr. Robot ganha uma nova perspectiva, com Elliot, Tyrell, Angela, Darlene e até o próprio Mr. Robot são apenas instrumentos nas mãos de Whiterose.

A reação das pessoas e a incredulidade/impotência de Elliot ao presenciar os ataques pela televisão marcam um novo ciclo na série. Se Mr. Robot havia definido o 9/5 como uma data que fundamentou a mitologia da série, a execução da fase 2 vai iniciar um novo ciclo, onde o colapso econômico e psicológico de todos estes personagens irão eclodir. Nada será como antes, após os 71 edifícios ruírem em chamas, o que faz até uma rima com o 11/9 norte-americano. Menos na China, a propósito.

Últimas Palavras

* A atriz que interpreta Angela quando criança (Mabel Tyler) é a mesma menina que ela conhece quando é apresentada a Whiterose em eps2.9_pyth0n-pt1.p7z . Todo aquele papo de viagem no tempo e que ficou para trás na temporada passada está surgindo novamente com força, afinal de contas nada acontece por acaso em Mr. Robot.

* O tópico acima nos leva a um outro questionamento. Paralelamente a fase 2, os interesses da China em anexar o Congo podem significar a exploração de recursos naturais que podem viabilizar…experimentos científicos?

* Por fim: a crença de Angela de que tudo vai ficar bem, a possibilidade levantada por ela de zerar o passado em uma conversa com Elliot e a simples introdução do desenho De Volta Para o Futuro são realmente indícios de uma trama que está de fato flertando com a ficção científica? Ou esta é mais uma distração de Sam Esmail. Veremos…


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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