Crítica | Liga da Justiça: menor do que se esperava e do jeito que precisava ser

Não há como negar que Liga da Justiça era um dos blockbusters mais aguardados de 2017. Além disso, é um dos filmes de super-heróis com maior expectativa atribuída, não somente pelo fato de reunir pela primeira vez vários super-heróis da DC/Warner em um só longa, mas também por conta da necessidade de apresentar personagens nunca antes vistos reunidos. Sem falar nas refilmagens que precisaram acontecer por conta do afastamento do diretor Zack Snyder, fazendo com que a pós-produção e algumas partes do filme (cerca de 20% da projeção) fossem finalizadas por Joss Whedon (Vingadores).

O filme é uma continuação direta de Batman vs Superman e se olharmos de forma mais ampla, é o desfecho de uma trilogia (mesmo que não declarada) iniciada em Homem de Aço. A sinopse de Liga da Justiça diz que, inspirado pelo ato altruísta do Superman, Bruce Wayne e Diana Prince vão atrás dos outros meta-humanos e formam uma equipe para enfrentar um inimigo ainda maior. A premissa é apresentar a equipe e a interação destes personagens rende os melhores momentos do filme.

Desta forma, o que Liga da Justiça tem para oferecer em termos de história é algo simples e pensado para que a dinâmica entre o grupo seja estabelecida e a identidade de cada um possa aflorar, conquistando a empatia do público. Não era de se esperar o desenvolvimento de uma grande ameaça, por isso o Lobo da Estepe é sim um vilão genérico, com motivações rasas e “porque sim” apenas. Ele poderia possuir, ao menos, uma estética menos artificial pois o CGI empregado não é crível e o deixa com cara de vilão de videogame. Não dos melhores, é claro.

Não há também consequências maiores, como nos filmes anteriores. Ainda mais se observarmos a duração, com suas enxutas duas horas. A intenção aqui é clara: apresentar uma equipe que possa interagir, enfrentar uma vilão ameaçador até certo ponto e fazer os heróis funcionarem como um super time que ainda está se conhecendo. Neste quesito, o filme acerta em cheio e Liga da Justiça entrega uma aventura que, ao contrário dos filmes que o antecedem, reúne elementos combinados como ação e humor bem dosados, bebendo na mesma fonte do ótimo Mulher Maraviha.

Quando se fala na grandiosidade que este filme deveria apresentar, precisamos analisar o projeto como um todo. Isto não quer dizer que o filme não tenha funcionado. Pelo menos para o público que visa o entretenimento puro e simples, Liga da Justiça agrada. Mas quando se entra em aspectos como edição e o uso dos efeitos especiais, as coisas se complicam um pouco. O filme parece ter sido concebido para durar mais do que o corte final e além disso, as refilmagens afetam o senso de continuidade do longa, ainda que de forma sensível.

Tomemos como exemplo também a trilha sonora, algo que é importante no gênero e que agrada mas não é algo apoteótico. É mais um exemplo do quão grandioso o filme poderia ser sido, embora não seja ruim (sim, é bom repetir). Os temas de Danny Elfman remetem diretamente a trilhas de outros filmes, como Batman de Tim Burton e o clássico Superman (que possui aquele tema icônico de John Williams). As insinuações e o tom incidental das trilhas prestam uma homenagem mas destacam que este é um filme de equipe.

Além de aparentemente não querer ser um filme apoteótico, Liga da Justiça é cauteloso consigo mesmo e tenta reparar os erros pregressos com uma história mais contida. Mas, mesmo no modo de segurança e pisando em ovos, foi dada uma nova perspectiva para estes heróis, com um tom mais leve, refletido em um filme mais descompromissado com uma atmosfera densa e que deu lugar ao tom mais esperançoso.

O melhor do filme é a Liga

Assim como compararmos estúdios não é algo que agrega muito valor a um determinado filme individualmente, o que Liga da Justiça tem de pior é justamente aquilo que o antecede. O filme funciona do maneira única, mas se há uma apresentação apressada porém eficiente de novos personagens, isso acontece porque tal desenvolvimento deveria ter sido construído em filmes anteriores, como outras franquias já fizeram.

Ver os heróis em ação, combinando esforços e lutando lado a lado é sem dúvida o melhor aqui. Se você ignorar o CGI exagerado e típico das produções recentes de Zack Snyder, verá por outro lado um time de super-heróis que alimentam o imaginário popular há décadas. Vê-los reunidos pela primeira vez é algo prazeroso e a missão difícil missão que o filme possui acaba sendo concluída nesse sentido. Apresentar os novatos Aquaman, Flash e Ciborgue, além de promover a volta do Superman e combater a terrível (nem tanto) ameaça em apenas um filme acaba sendo o grande acerto do longa.

O elenco do filme funciona porque há química entre os atores e o roteiro favorece a interação dos personagens. Ben Affleck, Gal Gadot e Jason Momoa, por exemplo, não são grandes atores. No entanto, Affleck consegue ser mais uma vez um bom Batman, embora tenha uma personalidade distinta aqui, enquanto Gal e Momoa esbanjam carisma. Pode-se dizer o mesmo de Ezra Miller como o irreverente Flash, alívio cômico e responsável pelas tiradas de humor do filme. Ray Fisher tem o papel mais difícil, com um personagem atormentado pelo passado. O filme não explora isso com profundidade isso mas nem conseguiria. Assim, o que é mostrado é exatamente o que este filme precisa, o que torna o Ciborgue mais importante do que se poderia imaginar.

A nova personalidade do Superman é algo interessante e que pode definir o futuro do personagem na franquia, facilitando inclusive as coisas para o limitado Henry Cavill. Em contrapartida, Jeremy Irons, J.K. Simmons, Amy Adams, Connie Nielsen e Diane Lane tem boas e funcionais participações, dando consistência ao elenco de apoio. Algumas delas deixam inclusive a sensação de querer assistir mais, como no caso de  Amber Heard, que será vista novamente como Mera no filme solo do Aquaman. As sequências na água e a breve batalha das amazonas são momentos de puro deleite visual que o filme apresenta.

A Liga da Justiça desperdiça um potencial enorme para ser gigante, pagando de certa forma pelos erros cometidos no nascimento do universo cinematográfico da DC/Warner. Será, no entanto, que a produção deveria ter sido tudo isso? Como filme, ele não deixa aquela sensação frustrante, instiga o público a querer conhecer mais os novos heróis e ver os antigos novamente em ação. A próxima reunião poderá ter este caráter mas aqui, entre erros e acertos, de forma surpreendente até, o saldo é positivo.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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